A nostalgia do bom gosto

Clássicos 26 Jun 2020

A nostalgia do bom gosto

Por Irineu Guarnier

Nada num automóvel é mais importante, para mim, do que o design. Claro que motor e outros componentes mecânicos são relevantes na avaliação de um automóvel. Mas, como atualmente quase todos os veículos de uma mesma categoria estão praticamente no mesmo nível de eficiência mecânica, e os limites de velocidade em nossas ruas e estradas são baixos, o que realmente acaba fazendo a diferença são as linhas da carroceria e o acabamento interno. Numa palavra: design.
 
É aí que um automóvel com personalidade se distinge de um medíocre. É isso que cativa o consumidor – que, aliás, compreende cada vez menos a complexidade eletrônica dos veículos contemporâneos. Não por acaso o design é o principal chamariz de anúncios e comerciais de automóveis na TV.
 
Resta-nos, então, comparar estilos. Contudo, mesmo nesse quesito, as diferenças são cada vez menos perceptíveis. Quase todos os carros modernos de uma mesma classe – sedans ou hatches médios, por exemplo – estão muito parecidos.

 
É que a modelagem das carroceiras é feita em túneis de vento, em busca dos melhores coeficientes de penetração aerodinâmica (Cx) ou seja, da menor resistência ao ar (arrasto), pois isso determina avanço mais rápido com menor consumo de combustível. Desse modo, todos os carros acabam se parecendo uns com os outros.
 
Em outros tempos, quando a gasolina era barata, os motores eram mais potentes, e não se pensava em sustentabilidade ambiental, a preocupação com o design não se submetia à ditadura do túnel de vento. Os estilistas das grandes montadoras podiam dar vazão à toda sua criatividade, permitindo-se até alguns exageros, como no caso dos imensos “rabos-de-peixe” norte-americanos dos anos 1950.
 
O que não significa que veículos das décadas de 1950 ou 1960 não tivessem bom desempenho aerodinâmico. Alguns números de Cx de veículos europeus daquela época ainda são muito bons mesmo para os padrões atuais. Com uma vantagem adicional: os carros eram mais bonitos. Ou pelo menos o desenho dos modelos tinha mais personalidade. Cada carro era único e inconfundível.
 
Penso em exemplares como o Porsche 911, cujo design pouco se alterou até hoje. O Studbaker Starliner 1953. O Ford Thunderbird. O Karmann Ghia. Ou o Lancia Aurélia. Linhas suaves, delicadas, curvas femininas. Desenhos sutis, saídos das pranchetas de estilistas que, em muitos casos, eram também artistas plásticos com formação acadêmica.
 
E o que temos hoje em matéria de design, além de carros muito parecidos? Modelos pesadões, truculentos, grosseiros, com um exagero de vincos e arestas nas carrocerias, como se tivessem sido esculpidos a golpes de facões.
 
Quero ver se esses carros, daqui a 30 anos, continuarão tão belos e elegantes quanto um Alfa Romeo Giulia, ou mesmo o brasileiríssimo VW SP 2, que, 40 anos depois de seu lançamento, continua sendo um refinado esportivo.
 
Não é por acaso que exemplares da onda retrô do século XXI, como o Mini, o Fiat Cinquecento, o Novo Fusca e o PT Cruiser fizeram tanto sucesso até mesmo entre um público mais jovem, que não viveu a época dos modelos originais. É a nostalgia do bom gosto.


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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