Nostalgia aeronáutica

Arquivos 16 Jun 2020

Nostalgia aeronáutica

Por Irineu Guarnier

Houve um tempo em que “paquerar aviões” das sacadas abertas dos aeroportos brasileiros era um divertido programa dominical familiar. Época em que viajar de avião era algo acessível a bem poucos. Com a saudável democratização do transporte aéreo, a aviação todavia banalizou-se – e perdeu parte do seu fascínio. Hoje, só os muito apaixonados por aviões, os “spotters”, ainda se dedicam a “namorar” aeronaves munidos de máquinas fotográficas, smartphones, radinhos e tablets.

Eu, que sou viajante aéreo contumaz há mais de 30 anos, nunca me canso de observar o sobe e desce dos Boeing, Airbus, Embraer, Fokker, Bombardier ou ATR. Passo longo tempo em bares de aeroportos entretido com esses pousos e decolagens. Por mais que conheça bem a física do voo, e saiba exatamente como e por que os aviões se mantêm no ar, toda vez que uma máquina de mais de cem toneladas despega do chão e inicia sua ascensão às nuvens como uma pluma levada pelo vento sinto que contemplo um milagre. 

Com a idade, acho que estou ficando nostálgico. Por isso, sinto agora saudades de aviões em que voei há muito tempo – e que hoje são panelas de alumínio reciclado ou seguem cruzando os céus como cargueiros. Cito, por exemplo, o Boeing 727, o primeiro jato em que viajei, nos anos 1980, muito jovem – eu e os aviões. Ainda lembro do terceiro motor na base da cauda e do embarque na pista, pela escadinha da “barriga”. A cabine de comando ainda podia ser “visitada” por passageiros se o comandante fosse camarada, e, claro, era toda analógica, com dezenas de “reloginhos” no painel. O uso terrorista de aeronaves comerciais como mísseis era algo impensável então.

Chego, às vezes, a sentir saudade de aviões nos quais nem voei, como o DC-3, o Super Constellation, o Electra II e o Concorde (Acho que o Constellation e o Concorde foram os mais belos aviões já construídos). Tempos atrás, conheci um senhor de mais de 80 anos que pilotou alguns Constellation da Varig. Para minha decepção, ele me contou que a aeronave sofria tantas panes em voo que o quadrimotor era considerado mesmo um “ótimo trimotor”, pois frequentemente chegava ao final das viagens com um dos propulsores parado. Às vezes, com dois. Não importa. Ainda assim, o “Connie” era belo demais, com aquela elegante fuselagem arqueada, a deriva tripla e o trem de pouso do nariz (TPN) longilíneo como as pernas de uma top model.

Atualmente, com os terraços envidraçados dos modernos terminais aeroportuários, não ouvimos mais o ruído dos motores nem sentimos mais o cheiro adocicado do querosene de aviação – perfume inigualável para os amantes da aviação. “Paquerar aviões” perdeu a graça. Enfim, não me considero saudosista, vivo muito bem no meu tempo, aprecio as novidades tecnológicas da aviação moderna, a possibilidade de todos poderem voar – mas algumas dessas coisas de outrora são boas de relembrar, não? Principalmente agora que os aeroportos estão quase vazios por causa da pandemia do novo coronavírus e o futuro do transporte aéreo de massa seja uma sombria incógnita… Era muito bom. 

Talvez eu esteja mesmo ficando velho.

Fotografias: Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como

 antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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