Renault 5 GT Turbo, uma surpresa francesa

Clássicos 25 Mai 2020

Renault 5 GT Turbo, uma surpresa francesa

Por António Almeida

Eu sou o primeiro a admitir que não sou fã de automóveis franceses. Durante grande parte da minha vida os automóveis que passaram por casa eram franceses ou japoneses. A meu ver sempre foram banais, sem grande relevo ou charme. Especialmente no que toca aos franceses, havia o proverbial elefante na sala, a qualidade de construção. Existem algumas excepções, tais como, o Citroën DS e seu irmão mais velho o SM. Mas, após anos a fio a ser bombardeado diariamente com Clios e Peugeots a ostentar o seu magnifico plástico barato e personalidade de electrodoméstico, a minha opinião era completamente justificada. Mesmo no que toca às versões desportivas, os seus rivais alemães oferecem melhor construção e os italianos são simplesmente mais bonitos e interessantes…
 

 
Por um momento, vamos regressar a meados dos anos 80. A Renault é uma das forças dominantes no mercado português, oferece uma ampla gama de modelos, com uma opção à medida de cada pessoa. Desde a económica 4L ao luxuoso R25. Apenas alguns anos antes, despoletaram a era do turbo na F1!
 
Sim, a empresa que constrói aquele meio-suv esquisito com um nome impronunciável, há muitos anos atrás projectou e construiu o motor de 1200 CV que propulsionava o Lotus de Ayrton Senna, bem como muitos outros monstros desta era da F1.
 
Naturalmente os génios da publicidade aproveitaram a moda do turbo. Era uma palavra mágica, a sua utilização permitia transformar qualquer coisa na versão melhorada de si própria. Estas cinco pequenas letras passaram a revestir as embalagens de praticamente todos os produtos. Desde aspiradores a lâminas de barbear, tudo tinha turbo. Nos automóveis a Renault foi um dos fabricantes que apostou forte na tendência e deu o tratamento turbo a quase todos os modelos, e claro que não faltou o exagero nos autocolantes e emblemas, especialmente no Super Cinco.
 
Para um jovem entusiasta, nos anos 80, qual acham que vai ser a escolha, um GTI, um G40, claro que não, toda a gente sabe que se tiver turbo é melhor. Consequentemente, muitas pessoas compraram esses modelos apimentados, mas infelizmente muitas unidades não sobreviveram com passar dos anos, certamente que ainda existem menos no estado de conservação do exemplar das fotografias.
 

 
Eu sempre achei que o R5 GT Turbo era um automóvel com um aspecto engraçado, ao estilo dos anos 80. Depois de uma vida em contacto com produtos monótonos da Renault a expectativa para a experiência de condução do GT Turbo era que fosse exactamente a mesma coisa, mas de fato de treino… No entanto, não poderia estar mais errado.
 
A partir do momento que se entra na porta, somos relembrados de quão pequenos estes automóveis eram. Não no sentido de falta espaço, é suficiente não é claustrofóbico. É pequeno no sentido em que, depois de alguns minutos ao volante, existe a sensação de que automóvel e condutor são uma unidade só. É tão pequeno que nenhum ponto do automóvel esta longe do condutor e permite maior precisão na condução do mesmo.
 
Dizer isto é um cliché, mas não deixa de ser verdade. Todas as pessoas que conduzem um automóvel mais antigo explicitam isso, o peso reduzido e o tamanho permitem desfrutar de uma experiência muito mais visceral do que ao volante de qualquer um dos seus sucessores espirituais. Pode ser mais lento e travar pior, mas essas falhas são recompensadas nos níveis de emoção que se atingem a velocidades mais baixas comparativamente às iterações mais recentes da mesma fórmula.
 

 
Agora a parte que mais interessa, a experiência de condução.
 
O pequeno motor de 1.4 litros é alimentado por um carburador sob pressão do turbo-compressor. Debita somente cerca de 118 cv, mas pesa apenas 850 kg, essa potencia é adequada para uma configuração destas.
 
Vamos imaginar por um momento, a aproximação a uma curva em travagem, ponta-tacão, passagem de terceira para segunda, mantendo a linha, pé a fundo, nada acontece durante umas fracções de segundo, os olhos desviam ligeiramente para a o manómetro do turbo a agulha atinge o ponto crítico, a frente o puxa violentamente, tal como como um pastor alemão dá um esticão na trela para perseguir um gato. As rotações escalam até à redline, nova passagem de caixa para a próxima relação, o turbo assobia, o cão manda mais um esticão, voltar ao início e repetir. Basicamente foi essa a experiência que tive na minha tarde ao volante desse pequeno foguete. Os travões são claramente dos anos 80, dito isso são decentes tendo em conta a era da tecnologia.
 

 
Este pequeno automóvel é uma alegria de conduzir! É compacto, leve, ágil, para não mencionar a cacofonia de ruídos do turbo, os cliques precisos do selector de velocidades e até o atraso do turbo. Ao juntar todas essas características, a experiência de condução resultante é surpreendentemente divertida, algo que até agora só havia encontrado em marcas alemãs e italianas.
 
Aparentemente, nos anos 80, os franceses sabiam o que estavam a fazer, agora apenas me resta experimentar mais turbos da Renault para verificar se a magia do turbo se propagou a todos os modelos que ostentam esses autocolantes.
 
Quero agradecer ao meu bom amigo Pedro Neto e ao seu pai Rui Neto, pela sua dedicação a este automóvel, durante o seu restauro e agora ao mantê-lo nesta condição imaculada e sobretudo por terem confiado o suficiente em mim para conduzir esta pequena jóia que mudou a minha opinião acerca de alguns automóveis franceses …
 

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