Matra Rancho, o crossover “avant la lettre”

Clássicos 14 Mai 2020

Matra Rancho, o crossover “avant la lettre”

Por Bruno Machado

Fazer muito com pouco. Assim poderíamos resumir o Matra Rancho. Desde já porque a marca conseguiu, com poucos recursos, criar um modelo (quase) inédito, mas também, por termos aqui vários veículos num só.

Nos anos 70, a Matra está, sobretudo, associada ao desporto automóvel. Permitiu a Jackie Stewart a conquista do seu primeiro título de F1, venceu as 24 h de Le Mans, e é também conhecida pelos seus coupés originais, como o Djet, o 530x ou o Bagheera (e mais tarde, o Murena). Mas com a crise petrolífera, a Matra vê-se obrigada a apostar na diversificação da sua produção para sobreviver.


Philippe Guédon, talentoso engenheiro da casa, propõe então ao presidente do grupo, Jean-Luc Lagardère, um conceito inovador: um veículo familiar, acessível e virado para os lazeres. O projecto suscita um entusiasmo tão limitado quanto a verba que, ainda assim, é concedida a Guédon para concretizar o seu projecto, o qual, uma vez finalizado, terá de cumprir o objectivo de 25000 vendas.

Dispondo de poucos recursos, a equipa de Philippe Guédon vê-se obrigada a desenvolver o seu conceito inovador, a partir de uma base existente: a rústica pick-up Simca 1100 VF2! O resultado é apresentado no salão de Genebra de 1977, com o nome Matra-Simca Rancho, sendo difícil colocá-lo numa categoria em particular. Essa berlina/carrinha/jipe apresenta-se como um novo modelo, sendo, no entanto, perceptíveis elementos já bem conhecidos.


De facto, apesar do desenho particularmente bem conseguido de Antonis Volanis, num misto de veículo familiar e de (quase) todo-o-terreno, o Rancho não consegue disfarçar as suas origens Simca, a começar pela frente de 1100, que se vislumbra por detrás da barra e do largo pára-choques que inclui os faróis adicionais. Igual no habitáculo, com um tablier derivado do mesmo 1100, sendo que os bancos, esses, são específicos para o Rancho. O motor, por seu lado, é o 1.442 cc de 80 cavalos, com carburador duplo Weber, proveniente do 1308 GT.


É verdade que o Rancho tem toda a panóplia de um jipe, com um chassis reforçado e suspensão mais elevada, com aquelas protecções laterais, ou ainda, com o guincho dianteiro e os projectores adicionais na base do pára-brisas (opcionais)… Mas não. O Rancho não é um todo-o-terreno. Ao contrário de um aristocrático RANge Rover, o RANcho não tem tracção às quatro rodas, muito menos um V8. Uma versão 4×4 chegou a ser equacionada… mas o contabilista não gostou da ideia! O Rancho é portanto um veículo, mais plebeu, capaz de levar os filhos à escola durante a semana e à pesca ao fim de semana, juntamente com o cão! Um “crossover”, como diríamos hoje em dia.


Disponível em várias versões (“X” mais luxuosa, “AS” comercial de dois lugares, Découvrable, Grand Raid…), além da versão de base, o Rancho é dos primeiros modelos especificamente criados para os lazeres, renunciando às pretensões mais estatutárias de muitos outros automóveis.

Depois da integração da Simca no grupo PSA, o Rancho deixa de ser Matra-Simca para ser Talbot-Matra a partir de 1980, sendo produzido até 1983, superando todas as expectativas, com cerca de 57.000 veículos vendidos.


Mas no início dos anos 80, as atenções da Matra e de Philippe Guédon estavam mais focadas noutro conceito, igualmente inovador, uma espécie de “van” europeu (o futuro Renault Espace), e o Rancho acabou por não ter sucessor. Aliás, de certa maneira até teve, e muitos! É que veículos polivalentes, derivados de carrinhas “profissionais”, e que agora são muito comuns (Berlingo, Rifter, Kangoo, ou ainda, os Roomster e Yeti da Skoda…), podem, legitimamente, reivindicar uma certa filiação (mais até do que os SUV’s). Só que chegaram bem mais tarde. Ou terá sido o Rancho que chegou demasiado cedo?


TAGS: Matra Rancho


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