Gilles Villeneuve, a escolha de Enzo Ferrari

Clássicos 08 Mai 2020

Gilles Villeneuve, a escolha de Enzo Ferrari

Por Bruno Machado

Nunca foi campeão do mundo de Fórmula 1, teve apenas seis vitórias, duas pole positions, e no entanto, Gilles Villeneuve conseguiu ser um dos pilotos mais marcantes da Fórmula 1.
 
Nascido em Saint-Jean-sur-Richelieu, na província canadiana do Quebeque, no dia 18 de Janeiro de 1950, Gilles Villeneuve inicia a sua carreira de piloto ao volante de um Ford Mustang. Mas a falta de recursos financeiros para prosseguir no desporto automóvel leva-o a optar pelas competições de motas de neve, muito populares no Quebeque, conquistando títulos no Canadá e nos EUA. Graças aos sucessos obtidos, consegue juntar patrocínios para participar paralelamente no campeonato canadiano de Fórmula 3, que vence em 1973, com sete vitórias em dez corridas.
 
Em 1974, ano em que conquista o título mundial em motas de neve, Gilles Villeneuve participa no campeonato de Fórmula Atlantic. Os resultados não são os esperados mas a situação melhora no ano seguinte e sobretudo em 1976, ano em que se sagra campeão da modalidade com nove vitórias em dez corridas. Vence ainda o Grande Prémio de Trois-Rivière, à frente de convidados ilustres tais como Alan Jones e sobretudo James Hunt, que, impressionado com o estilo combativo de Villeneuve, o recomenda então à sua equipa, a McLaren, com a qual conquistará o campeonato do mundo de Fórmula 1 nesse mesmo ano.

 
Em Julho de 1977, a equipa britânica propõe então um lugar ao tão elogiado Villeneuve, para disputar o Grande Prémio da Grã-Bretanha de Fórmula 1. Apesar de ter terminado no décimo primeiro lugar, chamou a atenção de um observador particularmente atento, lá para os lados de Maranello…
 

 
Dois meses depois, Villeneuve realiza um teste para a Scuderia Ferrari. O teste, sugerido por Enzo Ferrari que ficara impressionado com a combatividade de Villeneuve em Silverstone, é concludente encontrando-se assim um substituto de Niki Lauda para as últimas duas corridas da época. Mas a aventura com a Ferrari começa mal para o canadiano com o seu estilo “on/off” radicalmente diferente do estilo mais metódico do austríaco, envolvendo-se até num acidente trágico, com Ronnie Peterson no Grande Prémio do Japão, que causa a morte a dois espectadores.
 
A época seguinte também não se inicia da melhor forma, com Villeneuve a ser claramente dominado pelo seu colega de equipa, o argentino Carlos Reutemann. O seu lugar chega a ser posto em causa pela tão intransigente imprensa italiana. Será a vitória no Grande Prémio do Canadá, no final da época de 1978, a marcar o início do romance entre Gilles Villeneuve e os tiffosis.
 
É sobretudo na época de 1979 que Villeneuve vai conquistar todos os observadores. Por estar na luta pelo título com o seu novo colega de equipa, o sul africano Jody Scheckter, mas não só. O Grande Prémio de França viu a primeira vitória de um motor Renault na Fórmula 1, mas a corrida tornou-se inesquecível pela luta pelo segundo lugar que envolveu Villeneuve e René Arnoux.
 

 
Mais tarde, no Grande Prémio da Holanda, Villeneuve lidera a corrida (depois de uma extraordinária ultrapassagem de Alan Jones pelo exterior), mas sai da pista com um pneu furado… o que não lhe impede de regressar à corrida, percorrendo uma volta quase inteira com três rodas até às boxes. Foi preciso os mecânicos convencê-lo de que nada havia a fazer com a roda toda destruída! No fim da época, Jody Schecketer, mais regular do que Villeneuve, sagra-se campeão do mundo, mas “il piccolo canadese”, como já é conhecido na Itália, além de ser vice-campeão, conquista os tiffosis… e a imprensa! A escolha de Enzo Ferrari estava validada por todos!
 

 
1980 é uma época para esquecer. O Ferrari 312 T5 está ultrapassado e nada pode fazer contra os Brabham e Williams, terminando na décima posição do campeonato de equipas. Villeneuve termina em 14º e Scheckter, o campeão em título, termina em 19º anunciando ainda o fim da sua carreira.
 
Mas a Scuderia Ferrari reage no ano seguinte e Gilles Villeneuve faz uma demonstração de pilotagem no Mónaco e as suas ruas demasiado estreitas, a priori, para o seu estilo explosivo. Segue-se uma vitória no Grande Prémio seguinte, no circuito de Jarama, em Espanha.
 
Tendo a Ferrari mostrado uma melhor forma no ano anterior, Villeneuve é visto como candidato ao título de 1982. Mas a vitória escapa-lhe nas primeiras corridas. Em Imola, Villeneuve tem a sua primeira vitória da época quase assegurada, mas é surpreendido pelo seu colega de equipa, Didier Pironi, que o ultrapassa desrespeitando as indicações da Scuderia. No pódio o ambiente é eléctrico, Villeneuve não disfarça o sentimento de traição. A próxima corrida terá o sabor da vingança…
 
Na sessão de qualificações do Grande Prémio da Bélgica, no circuito de Zolder, Jochen Mass em dificuldade, vê nos seus retrovisores um Ferrari que segue a um ritmo diabólico. É um Villeneuve determinado, que ainda não digeriu o episódio de San Marino e que vai em busca da pole position. Nessa busca enraivecida, Villeneuve não consegue evitar o March do alemão que projecta o Ferrari pelo ar…
 
Assim, brutalmente, a Fórmula 1 perde um piloto à parte, brilhante, explosivo, showman sem ser vedeta, franco sem ser polémico… Um piloto que Enzo Ferrari chegou a comparar ao grande Tazio Nuvolari! Não foi o melhor piloto da história, mas pelas suas características, dentro e fora da pista, tornou-se um piloto inesquecível.
 

 


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