O Karmann Ghia brasileiro

Clássicos 27 Abr 2020

O Karmann Ghia brasileiro

Por Irineu Guarnier

Por um breve período, entre 1970 e 1975, afortunados brasileiros de classe média puderam desfrutar de uma versão zero quilômetro do clássico Volkswagen Karmann Ghia única no mundo: o Karmann Ghia TC.

Fabricado em São Bernardo do Campo, São Paulo, exclusivamente para o mercado brasileiro, o KG TC recebeu preciosa contribuição do estúdio italiano Ghia, responsável pelo desenho da bela carroceria fastback. Reza a lenda que o design do novo KG teve pinceladas do mestre Giorgetto Giugiaro (muito jovem na época, mas já conhecido pelo sucesso do Alfa Romeo GTV), que mais tarde lançaria sua própria empresa, a Italdesign. Publicamente, Giugiaro nunca assumiu a paternidade do KG TC, e a Volkswagen do Brasil sempre reivindicou para si a autoria quase integral do projeto. Mas, quem conhece bem a obra do designer italiano não pode deixar de notar semelhanças com algumas de suas inesquecíveis criações – sobretudo pelo uso de elegantes linhas retas.

Chamado de “Porsche 911 brasileiro”, pela inquestionável semelhança com seu clássico “primo” alemão, o KG TC foi a alternativa nacional à modernização do antigo Karmann Ghia, também conhecido por Type 14, lançado na Alemanha em 1955. Produzido no Brasil desde 1962, o velho Karmann Ghia pedia uma reestilização no início da década de 1970. Na Europa, a Volkswagen já havia lançado, em 1961, o estiloso Type 34, que seria destinado principalmente ao mercado norte-americano. A Volkswagen do Brasil preferiu, contudo, apostar num modelo próprio (que seria conhecido internamente como Type 145), e assim nasceu o Karmann Ghia TC.



Construído sobre a plataforma dos VW TL e Variant, o Karmann Ghia brasileiro tinha 4,20 m de comprimento, 1,62 m de largura, 1,31 m de altura, 2,40 m de entre eixos e 920 quilos de peso. Era movido por um motor boxer refrigerado a ar de quatro cilindros e 1.600 cc de ventoinha baixa, montado na traseira, com dupla carburação, que gerava 50 cv a 4.600 giros e produzia 10,8 kgfm a 3 mil rotações. Com transmissão de quatro velocidades, acelerava de 0 a 100 km/h em 23 segundos e atingia a velocidade máxima de 138 km/h. Já incorporava freios a disco na dianteira, um luxo para aquela época no Brasil. O interior era simples, como os de toda a linha VW, mas trazia um painel em vinil que imitava madeira, um relógio analógico e o brasão da montadora no centro do volante com semi-aro em metal cromado.

O carro caiu de imediato no gosto dos brasileiros. Era maior do que o Type 14, mais espaçoso, inclusive com um banco para três pessoas (pequenas) atrás, e possuía ampla área envidraçada. Embora custasse 13% mais caro do que o seu antecessor, vendeu 7.300 unidades no primeiro ano. Um sucesso!

Mas então começaram os problemas. Pelas entradas de ar dianteiras também entrava muita água, que se acumulava nos painéis do nariz do carro. O tratamento das chapas também não era bom, e logo as carrocerias começaram a enferrujar além do limite aceitável pelos consumidores dos anos 1970 (acostumados com esse problema em quase todos os veículos nacionais). A ferrugem em diversos pontos da lataria acabou se revelando o calcanhar de Aquiles do KG TC.

Em 1975, no último ano de produção, as vendas já haviam caído para 469 unidades. Ao todo, foram fabricados 18 mil KG TC. Não repetiu o sucesso do modelo antigo, que vendeu 23.578 unidades (sendo 176 conversíveis), antes de ser descontinuado em 1971. Com o tempo, o gosto dos colecionadores se voltou para o modelo tradicional, e exemplares do KG TC podiam ser adquiridos por preços muito baixos. De alguns anos para cá, no entanto, isso mudou. Considerado um modelo Volkswagen bastante raro, e cobiçado por colecionadores do mundo inteiro, o seu preço, naturalmente, disparou.

Meu pai teve um Karmann Ghia TC branco, novo, nos anos 1970, e mais de três décadas depois vim a adquirir um outro, modelo 1973, amarelo manga. Apesar do ruído interno um pouco elevado, por conta do motor instalado dentro do habitáculo, era um carrinho delicioso de guiar. Macio, ágil, com uma leve tendência sobresterçante em curvas rápidas, lembrava um pouco a condução do Porsche 911 com motor boxer, embora sem a mesma potência, claro. Sem dúvida, o Karmann Ghia TC brasileiro deixou saudades entre a imensa legião de fãs dos Volkswagen air cooled.

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Fotografias: Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.


TAGS: Karmann Ghia TC


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