Cápsulas do Tempo: Os electroclássicos

Modernos 15 Abr 2020

Cápsulas do Tempo: Os electroclássicos

Por Pedro Pais Cardoso

O advento dos veículos eléctricos está mais que ultrapassado, é hoje uma realidade incontestada, e podemos já afirmar que é o presente e o futuro “mais próximo” da indústria automóvel.
 
Com as voltas que o mundo dá, e especialmente com a volta que o mundo deu no último mês, ficamos também com a certeza de que tudo mudou.
Realidades que evoluíam timidamente a nível global, como o teletrabalho, ou a entrega de bens essências em casa, passarão, estou certo, a fazer cada vez mais parte do nosso dia-a-dia e a representar mais a norma do que a excepção.
 
Os próprios voos que muitos de nós efectuávamos para ir a reuniões no país vizinho, ou outros países por essa Europa e mundo fora, serão também eles reequacionados e trocados de forma mais desprendida por videochamadas. Empresas nacionais com sede em Lisboa e delegação no Porto, ou vice-versa, repensarão por certo a mobilidade frequente dos seus colaboradores, e o impacto que cada um de nós imprime no planeta e no budget das empresas.

 
Líamos todos recentemente, as noticias que davam conta do clarear das águas dos canais de Veneza, e da visibilidade reposta de uma região da India para os picos dos Himalaias, há muito ocultos pelo poluição, e agora redescobertos pela significativa melhoria na qualidade do ar.
 
Este “mundo em suspenso” permitiu-nos, novamente, observar toda a nossa existência de forma crítica, sob outro prisma, afinal, agora temos tempo para isso…
 
Dito isto, parece-me evidente que, processos de reposicionamento de várias indústrias que andavam em “banho-maria” nas gavetas de engenheiros e projectistas, passem agora a ser o foco principal dos mesmos no redesenho e redefinição de prioridades na produção industrial a que cada um se dedica.
 
Sendo a indústria automóvel uma das indústrias referência do planeta, não só pelo número de colaboradores que emprega a nível mundial, mas acima de tudo pela importância estratégica que detém na circulação de pessoas e produtos, deverá também ela novamente ser chamada a abrir caminho, a definir a trajectória para as próximas décadas.
 
Assente que está esta nova ordem mundial, começa a ser claro também, que as políticas a definir e que a todos nós nos serão imperativamente impostas por novos diplomas legais, terão necessariamente de contemplar o mercado dos clássicos. Neste caso, esperamos todos (os amantes de clássicos pelo menos), que seja feito de forma sensível, já que, os veículos clássicos representam um número residual de material circulante, e logo, de material poluente.
 
Não pretendo aqui discutir, quem se mostra a favor ou contra a electrificação de veículos clássicos. Essa é uma realidade também já assente, e aqui previamente cuidada.
 
A questão que vos coloco é outra, qual modelo clássico que gostariam/preferiam continuar a ver circular, ainda que movido a propulsão eléctrica?
 
Podemos novamente pensar que esta é uma realidade ainda distante, porém, nas últimas edições do Goodwood Revival e da Rétromobile, pude presenciar os vários stands de empresas que se começam a dedicar a esta nova forma de se viver o mundo dos automóveis clássicos.
Para além dos componentes eléctricos que já se aplicavam por exemplo às colunas de direcção ou travões, ou os sistemas de ar condicionado que se foram introduzindo ao longo do tempo para uma melhor fruição dos veículos antigos, hoje verificamos o surgimento de pequenas “boutiques” que se dedicam à conversão, ainda que reversível, de veículos de combustão em veículos eléctricos.
 
A mudança faz-se silenciosa, e no caso da Rétromobile, identifiquei essa tendência no mercado francês, que começa a dar sinais em veículos de larga produção da indústria gaulesa como o 2CV e o Méhari. Em Inglaterra o mesmo fenómeno, mas com os congéneres britânicos, como o Mini ou MG.
 
O mundo apenas acordou para este fenómeno quando no casamento do Príncipe Harry de Inglaterra, os noivos se fizeram transportar pelo concept Jaguar E-Type Zero. O famoso E-Type, naquele caso propulsionado por um motor eléctrico e com prestações superiores ao modelo original a gasolina, é um projecto da própria divisão de clássicos da Jaguar, e que ali teve ocasião privilegiada para se mostrar ao mundo. Isto só demonstra que as marcas estão atentas ao fenómeno, e dele querem também fazer parte.
 

 
A autonomia é por norma o grande tema de discussão na opção entre eléctrico versus combustão. Parece-me, no entanto, que no que respeita aos veículos clássicos é menos premente esta discussão, já que, as autonomias propostas para esta nova realidade que ora surge, chegam e sobram para as voltinhas de fim-de-semana que a maioria dos proprietários de clássicos cumpre ao longo do ano.
 
Na foto de capa deste artigo, podem ver a versão eléctrica sugerida por uma dessas empresas, neste caso italiana, para um o Alfa Romeo Spider, que internamente a referida empresa designa de “Icon-E” ou “Duetto elettrico”.
 
Ao analisar esta proposta verifica-se que não só se começam a alterar os componentes motrizes de veículos cuja estética e história assim o justificam, mas também, a criação de protótipos cuja estética é ligeiramente alterada, conferindo uma aura millennial a um design vintage.
 
Sabemos, e assim o esperamos, que esta vaga da electrificação e alteração de clássicos que ora se começa a notar, não se irá aplicar à maioria dos modelos mais icónicos e exclusivos. Também sabemos que baixos números de produção, raridade e exclusividade, assim o impedirão. Dificilmente veremos um Ferrari 250 GTO ou um McLaren F1 convertidos em veículo eléctrico.
 
No entanto, não podemos deixar de pensar no seguinte, será preferível ver votados ao abandono ou ao abate definitivo, a Renault 4L da nossa infância, o Peugeot 205 da nossa adolescência, ou poder continuar a admirá-los em circulação mais umas décadas, ainda que mais silenciosos e menos originais?
 
Gostava de lançar este desafio, e saber a vossa opinião acerca de que modelos gostariam, ou pelo menos não se importariam, ver convertidos para eléctrico, e deles pudessem fazer uma utilização diária neste mundo tão estranho, onde a alegria das coisas belas ainda é um tónico que nos faz sorrir.
 
Com estas palavras me despeço, deixando uma galeria de imagens de alguns modelos cujos projectos de conversão em eléctrico já são uma realidade. Espero que gostem. Até à próxima e fiquem em casa.
 

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Goncalo Maleitas CorreiaJoão Monteiro Recent comment authors
Goncalo Maleitas Correia
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Goncalo Maleitas Correia

Tendo em conta que a avaliação da qualidade de um clássico tem a ver, em grande medida, com a sua fidelidade ao original , proceder a alterações, sejam de que natureza forem, é sempre controverso e, a meu ver, desaconselhável. Dito isto, porventura em modelos de produção mais massificada ou de grande escala e cujas características de motor, mecânicas ou dinâmicas não sejam o principal ponto de interesses e/ou valor dos mesmos, admito a alteração para eléctrico. Já quanto àqueles modelos mais desportivos ou em que aquelas características sejam particularmente relevantes, sinceramente, a conversão em eléctrico afigura-se-me um verdadeiro “sacrilégio”!

João Monteiro
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João Monteiro

Penso que veículos cujo motor não seja nada de especial, e desde que se mantenha ou melhore a dinâmica, são naturais candidatos à electrificação.

O meu Mgf se um dia o motor entregar a alma ao Criador, poderá ser um potencial elétrico, se se conseguir manter a distribuição de peso, o peso em si é às prestações.