O Fiat 131 Abarth de Vudafieri, uma história acidental

Arquivos 02 Abr 2020

O Fiat 131 Abarth de Vudafieri, uma história acidental

Por Marco Ireneu Pestana

Durante este tempo de quarentena forçada, encontro nas memórias do Facebook uma fotografia – ela própria no original, um clássico em papel fotográfico Agfa -, com um Fiat 131 Mirafiori Abarth Rally, que em 1981 de uma forma acidental, cruzou-se comigo, quando assistia, junto dos meus pais e amigos à XXII edição do Rali Vinho Madeira, tinha eu oito anos de idade. É incrível a forma, como aquele momento no troço de estrada no alto da serra , são arquivados na nossa memória, num misto de cheiros e cores: da borracha queimada dos pneus Pirelli P7 Corsa, do alcatrão quente de Agosto, humedecido pelo Olio Fiat derramado e ao odor forte a eucalipto e a pinheiros mansos. Ao ruído da azáfama criada na tentativa de encontrar despojos da máquina transalpina que acabara de se despenhar, entre o verde das árvores e arbustos misturados no castanho da terra vulcânica madeirense.
 

 
Esta mesma história que acabara de ver a ocorrer, e que ao rever as fotos daquela aventura , com o amarelecer pelos dedos e o tempo ao folhear, coladas no meu álbum familiar, aos meus olhos de tenra idade – foi, uma aventura de dimensão equivalente, às que vira com o grande ídolo Jacques-Yves Cousteau – que religiosamente acompanhava na RTP -, mas passada em terra . E que aventura ! Aquele “Calypso” de Turim, que vira passar a arfar, com o uivo emitido pela batuta da injecção Kugelfischer – como maestrina da Osquestra Lampredi – passou em velocidade impressionante, que mal me permitiu ver o enorme “ Nº 1 “ na porta do campeão europeu de Ralis em título, jazia agora, ali, diante dos meus olhos, branco e inerte. Como as enormes baleias, jazem de encontro às praias nos documentários do explorador francês. A emoção me invadiu, com a adrenalina a correr como a benzina no 131 Abarth Rally. O relato pelo repórter da RDP-Madeira , ao que acontecera, ecoava no meu pequeno e fiel Rádio-transístor AM Sanyo que me acompanhava nas viagens no Toyota Corolla do meu pai: Mamma Mia! As imagens, que agora parecem frames – como as dos filmes em Tecnicolor -, no socorro aos pilotos, efectuada pela ambulância vinda da Calheta oferecida pela Suécia, naqueles anos de crise económica no nosso país.
 
Uma estória que desperta o interesse aos petrolheads? Claro.
 
Mamma Mia! Diziam também os italianos, por ser impensável , de início, em especial aos tiffosi dos ralis, na segunda metade da década de 70, que aquele modelo Fiat 131 de berlina familiar pudesse atingir o patamar de campeão mundial de ralis. Mas com o trabalho de bastidores da Abarth, desde a primeira hora e financiada pelo Grupo Fiat, acabou por ser , o carrasco do mítico Lancia Stratos, conquistando 3 títulos mundiais em quatro anos.
 
Quando o apresentaram, no Outono de 1974, a Fiat tudo fez para que a segurança e a fiabilidade fossem a imagem do novo modelo familiar para a década de 70, que apelidaram de FIAT 131 Mirafiori ( pois a Fiat tinha inaugurado o primeiro sistema robotizado na sua produção, no histórico estabelecimento de Mirafiori). Equipados com motores 1.3 cc e 1.6 cc de 65 cv e 75 cv, com a tradicional caixa de quatro velocidades e equipado com travões de disco frontais. Compensava com espaço, luminosidade, conforto, climatização e protecção anti-corrosão ao nível de modelos de maior valor comercial.
 
O projecto para a criar a versão Fiat 131 Rally nasce por volta de 1975, desenvolvida pelos técnicos da Abarth e pela Casa Bertone em simbiose, dirigidos pelo Eng. Nicola Tufarelli, responsável pela divisão da Fiat. Partindo da versão base do 131, aligeirando toda a estrutura, com a utilização de material em fibra de vidro e alumínio, e na colocação dos pára-lamas alargados para alojar as famosas jantes Cromodora e Pneus Pirelli P7 Corsa 235/45 VR15 de 10” no eixo frontal e 11” nas rodas traseiras e na colocação dos apêndices aerodinâmicos. Utilizando nesta fase inicial, num pré-série, com o motor 1840 cc e 16 válvulas do 124 Abarth rally , que pretendia suceder, e com ele participam nos primeiros ralis em fins de 1975 na Itália. O kit de preparação custava tanto quanto um exemplar novo do 131 versão stradale!
 
Iniciando-se quase em simultâneo a produção em Mirafiori de 400 unidades para obter a homologação FIA de Grupo 4 – obtida a bem da verdade, no dia 1 de Abril de 1976 – as quais são finalizadas como 131 Abarth Rally nas instalações da Bertone em Grugliasco, Turim. A versão definitiva surge em competição no início de 1976. Motor quatro cilindros em linha, de 16 válvulas (215 cv às 7000 rpm, mais tarde 225 às 7600 rpm), o bloco especial tipo 131 AR, entre outras especificações somente presentes na versão Corsa incluindo um tanque de combustível especial de 60 litros e atingindo os 220 km/h de velocidade máxima.
 
Sendo preparados e adequados a cada tipo de Rali que se propunham realizar. Como também, ao longo dos anos finais da década de 70 e início de 80, foram sendo melhorados pelos mesmos técnicos ligados ao projecto – em 1978 o mesmo motor debitava 230 cv – e, que pretendia, dentro do grupo Fiat, manter a invencibilidade no Mundial de Ralis com o novo 131 Abarth Rally. Vence a primeira prova do mundial, o rali dos 1000 lagos com o histórica duplas Markku Alen – Ilkka Kivimaki , a 26 de Agosto, a mesma equipa ganha em 1977 e 1978 o nosso Rali de Portugal. No ano de 1979, a Fiat corta no financiamento reduzindo a participação, e só em 1980 volta em força e à ribalta , já com o reforço de Walter Rohrl – Christian Geistdorfer que vence o Rali de Portugal e, por fim, em 1981 volta a ser ganho pela dupla Markku Alen – Ilkka Kivimaki. Em geral, o 131 Abarth Rally , revela um impressionante palmarés , nas principais provas do circuito mundial e europeu na época.
 
Além das equipas de fábrica, o novo 131 Abarth é opção para a famosa Jolly Club, Fiat Ricambi, Parmalat entre outras equipas privadas em Itália, destaco também as equipas em França, apoiadas pela filial Fiat francesa, apoiando pilotos como a famosa Michèle Mouton e o Jean Claude Andruet. Mas também outros pilotos, ao volante dos 131 Rally, um pouco por toda a Europa e até em provas fora do velho continente.
 
De início, fora muito criticado pelos defensores do Lancia Stratos – campeão do Mundo em 1974, 75 e 76 – , que na sua opinião, a ele caberia a posição de favorito na aposta ao campeonato mundial, nessa segunda metade da década de 70 . Mas o tranquilo 131 , numa época de tracção integral nos Ralis, apresentou na sua versão rally, uma enorme fiabilidade a par de uma versatilidade que a todos desfez as dúvidas, com o atingir, por fim, do ponto mais alto do pódio: com a tripla conquista de Campeão do Mundo de Rally em 1977, 78 e 1980! Anos de ouro nos Ralis para marcas do Grupo Fiat.
 
Precisamente neste último ano, o vencedor e campeão europeu de ralis, foi o piloto italiano Adartico Vudafieri, que participou nas edições de 1980 e 1981 do Rali Vinho Madeira, a prova madeirense, que desde 1979 entrara no Campeonato Europeu de Ralis , atraindo à prova rainha insular de pilotos da primeira linha – a sua primeira edição foi em 1959, é anterior à edição inaugural do Rali de Portugal. No ano de 1980,em que se sagra campeão Europeu, Vudafieri faz equipa com o co-piloto Fabio Penariol , e alinha com o número #2 de porta, numa edição que em letras garrafais nos jornais foi apelidado de : O “ Inferno no Basalto “ dado o calor intenso que se registou a par com o frenético duelo , levado até ao fim , com o outro piloto italiano Maurizio Verini, ao volante de uma jóia milanesa: um Alfa Romeo “Alfetta”. O Vudafieri acaba por vencer esta edição do Rali Vinho Madeira .
 

Adartico Vudafieri e Fabio Penariol – Fiat 131 Abarth Rally #2 – Rali Vinho Madeira de 1980

 

Maurizio Verini – Alfa Romeo “Alfetta “ – Rali Vinho Madeira de 1980 – Num controle no empedrado madeirense.

 
Na XXII edição do Rali Vinho Madeira, realizada entre os dias 7 a 9 de Agosto de 1981 , Vudafieri regressa à ilha do Infante D. Henrique, mas desta vez navegado pelo Arnaldo Bernacchini, experiente co-piloto de provas do Mundial, agora nesta prova do Coef. 2 do Campeonato Europeu de Ralis. Trouxe um outro Fiat 131 Abarth Rally, chassis #G26 de matrícula TO R19729, este Abarth com grande palmarés, pois foi utilizado em inúmeras provas europeias e do Mundial, desde 1977 até fins de 1980,pelo piloto francês Jean Claude Andruet, e com este mesmo automóvel realiza vários ralis, destaco a vitória no Rali Sanremo a 4 de Outubro de 1977, contando para o Mundial de Ralis – por coincidência feliz, também Andruet participou neste ano no rali madeirense com um Ferrari 308 GTB com o #2 de porta, seguido pelo Fiat 131 Abarth que tinha sido sua propriedade, e ao volante do Ferrari, com o qual tinha ganho no mesmo ano, a mítica prova Targa Florio em Itália. Mas foi vitima também da dureza da prova insular, ou de outros factores, numa desistência envolta em mistério.
 

Jean Claude Andruet – assistência ao Rali de Monte Carlo, 1979 – com o mesmo Fiat 131 Abarth Rally, que em 1981 Vudafieri participa no Rali Vinho Madeira

 

Jean Claude Andruet e Emmanuelli Denise – Ferrari 308 GTB #2 – Rali Vinho Madeira de 1981 

Nessa saudosa edição da “festa do Rali” de 1981, a sua história, foi composta por vários pormenores, quase de argumento de um bom filme sobre automobilismo para uma matiné. Antes da partida, o favoritismo era direccionado aos dois potentes Ferrari 308 GTB conduzidos por Jean-Claude Andruet – especialista em ralis de asfalto e muito experiente – e Roberto Liviero, e aos dois Fiat 131 Abarth Rally de Adartico Vudafieri – campeão europeu de ralis em título – , vencedor da edição anterior, e o de Zanussi. E após as primeiras etapas existe a confirmação do favoritismo atribuído aos bólides de Modena, em especial a Andruet. Com Zanussi no seu 131 Abarth a desistir cedo, durante a segunda classificativa.
 
Aparentava ser vitória clara para o audaz piloto francês, ao início da 2ª etapa, com mais de dois minutos de diferença para Liviero e a oito minutos de Aly Kridel – Paul Dunkel em Ford Escort 1800 MkII , piloto luxemburguês pouco conhecido. Mas ocorre o abandono, por problemas de caixa de velocidades, do outro Ferrari 308 GTB de Liviero, ainda mais se afigurava a sua direcção aos louros de Andruet, caso a reviravolta madrasta , em que o francês é obrigado a parar o Ferrari 308GTB e a desistir, num dos episódios mais estranhos da história deste Rali.
 

Jean Claude Andruet e Emmanuelli Denise – Ferrari 308 GTB #2 – Rali Vinho Madeira de 1981. O Ferrari que esteve envolto numa desistência mal esclarecida.

 
Muito se falou, e ainda é assunto que é aflorado, pois a razão oficial do abandono foi uma suposta troca de bidões de combustível durante um reabastecimento, pelo staff da equipa vinda de França, e em vez de gasolina, foi atestado de mistura com água no depósito ! Mas para muitos foi sabotagem ? Acaso ? Fica o mistério. Esclarecedora foi a vitória final do rali e inesperada do Ali Kridel, beneficiando de todas as circunstâncias , mas provando que para vencer, basta acima de tudo ser regular. De destacar a desistência nesta etapa do campeão Vudafieri, por despiste, na Ponta do Sol, na zona do muro branco, quando faziam a sua prova, na estrada empedrada entre os Canhas e o planalto do Paúl da Serra. E, precisamente no local, onde eu estava a assistir à prova.
 

Aly Kridel e Paul Dunkel em Ford Escort 1800 MkII – O vencedor inesperado do Rali Vinho da Madeira de 1981

 
Passados quase 39 anos , ao longo do tempo , os vários desenvolvimentos e contactos com pessoas de vários países que este mesmo episódio proporcionou e, que acabei por conhecer. Um deles é a feliz coincidência na edição do Rali Vinho Madeira de 2017, participou como co-piloto o Giovanni Bernacchini, precisamente o filho do Co-Piloto Arnaldo Bernacchini de Vudafieri na edição de 1981, com o qual tive oportunidade e de uma forma simpática conversar, sobre este acidente sofrido pelo seu pai, em plena Avenida Arriaga, na cidade do Funchal, onde ocorre a partida de todas as edições do Rali. Confirmando que se recorda – ele na época da minha idade e acompanhava com a mãe o rali, e que achou fabuloso o relato que lhe fiz, sobre a minha experiência nesse dia.
 
Com o quem mantenho contacto regular até aos dias de hoje. Mais tarde, já em Itália, o próprio confirmou com o pai pormenores deste acidente. Arnaldo Bernacchini relata que lhe custou 6 costelas partidas após a queda por alguns metros do Fiat 131 Abarth Rally! E esclarece também sobre outro dos mitos sobre este Fiat 131, que após o acidente deixaram na ilha a carroçaria acidentada, retirando-lhe o motor e restante mecânica, para que fosse supostamente, depois para a sucata…Outras versões , inflamadas talvez em gasolina com altas octanas de imaginação, referem ter sido enterrada na zona da freguesia de Santo António no Funchal. O seu fim em concreto desconheço.
 

Em conversa com o Giovanni Bernacchini sobre o acidente do seu pai em 1981, na edição 2017 do Rali Vinho Madeira. Termina em 5º navegando o Simone Tempestini

 

Adartico Vudafieri e Arnaldo Bernacchini – Jolly Club # 1 – Fiat 131 Abarth Rally Gr 4 – Rali Vinho Madeira de 1981 Após o despiste, e embater nos eucaliptos, capotou durante a descida pela encosta de grande declive

 
Ao Giovanni, que achou imensa graça como o seu pai, impressionado, após eu revelar as pequenas peças que recolhidas após o acidente, em especial de uma bela jante Cromodora e o respectivo pneu original Pirelli P7 Corsa, o pneu de substituição que saltou na queda, com duas riscas brancas pintadas, para os diferenciar como era usual na época, do malogrado 131 Abarth.
 

A jante Cromodora e o pneu Pireli P7 Corsa original do 131 Abarth de Vudafieri/Bernacchini acidentado

 
Incrível que no mesmo ano de 1981, ao Markku Alén, na zona da Peninha, no Rali de Portugal, ocorre algo semelhante, num despiste no seu 131 Abarth Rally, partindo e perdendo todo o conjunto de uma roda frontal. Com uma jante cromodora e o mesmo tipo de pneu Pirelli. Anos mais tarde autografada pelo próprio, e que se encontra à venda na internet por mais de 18 mil libras, ou seja, mais de 21 mil euros! Provando a quase imortalidade destes Fiat 131 Abarth Rally, como aquele que vira a correr no distante 1981.
 

Fiat 131 Abarth Rally Gr 4 – Rali Vinho Madeira de 1981 – Após o acidente, na cidade do Funchal.


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Jose Miguel GonçalvesJPQueiros Recent comment authors
Jose Miguel Gonçalves
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Jose Miguel Gonçalves

Boas,

Penso que Vudafieri foi campeão da europa em Ralis em 1981 e não em 1980. Em 1980 ganhou o Antonio Zanini que veio fazer um último Rali ao Algarve no Escort da Diabolique para vencer o Europeu desse ano. O Bernard Beguin em Porsche era o grande adversário e foi desclassificado no Race em Espanha, numa decisão muito polémica.
Assisti ao vivo ao Rali da Madeira de 1979. ganho por Tony Fassina em Lancia Stratos.
O melhor português nesse ano foi o meu pai José Gonçalves, em Escort de grupo 1.

JPQueiros
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JPQueiros

Que bonito texto pleno de nomes e situações que me fizeram recordar o Rali Vinho da Madeira 1981, que também acompanhei, por estar de férias na ilha em casa dos meus avós! Como criança que lia e absorvia tudo o que tinha a ver com ralis, em particular o Especial sobre a “Volta” que saía no “Diário” (DN-Madeira), nomes como Jolly Club, Vudafieri, Zanussi, Jean-Claude Andruet, sempre acompanhado por uma navegadora, bem como do desconhecido Ali Kridel, fizeram-me recuar quase 40 anos atrás e pensar que foi nesses inícios dos 80 com o Ralis de Portugal e da Madeira que… Read more »