A onda retrô

Modernos 12 Mar 2020

A onda retrô

Por Irineu Guarnier

O século 21 começou bem para quem gosta de design automotivo autoral. Nos primeiros anos do novo milênio, grandes fabricantes mundiais de automóveis apostaram alto em projetos classificados pela imprensa especializada e pelo público como “retrôs”, ou seja, veículos com design inspirado em antigos clássicos, mas equipados com a tecnologia mais avançada disponível naquele momento. O melhor de dois mundos para os amantes do antigomobilismo que precisassem de um carro moderno para os deslocamentos cotidianos.
 
A Volkswagen lançou o New Beetle, uma graciosa reestilização do velho Fusca – mais adiante, atualizaria o seu retrô, com o modelo chamado de Novo Fusca no Brasil, maior e mais viril. A BMW resgatou do fog britânico o clássico Mini Cooper. A Fiat reestilizou o seu 500 (Cinquecento) do pós-guerra. A Ford trouxe de volta um ícone dos anos 1960, o Mustang e, mais tarde, outro, dos anos 1950: o Thunderbird. A General Motors reviveu o muscle car Camaro. E a Chrysler, na época em lua de mel com a Daimler, projetou o PT Cruiser.
 
O designer norte-americano Bryan Nesbitt (hoje chefe de design na General Motors da China) assinou o projeto do PT Cruiser, um hatch médio com cara de hot rod – talvez o design mais ousado de toda essa safra nostálgica. O carro não era a reencarnação de um modelo específico, mas uma síntese do desenho de picapes, sedans e furgões Plymouth dos anos 1930/40. O resultado dividiu opiniões: houve quem amasse e quem odiasse o autinho. Que foi comparado aos carros de gangsters dos tempos da Lei Seca nos Estados Unidos e até aos táxis londrinos. Mas, de modo geral, em se tratando de um veículo de nicho, vendeu muito bem – 1,3 milhão de unidades.
 
Montado nas plantas de Toluca, no México, e de Gratz, na Áustria, o PT Cruiser foi produzido por dez anos, entre 2000 e 2010, com pouquíssimas alterações no design. Para o Brasil, vieram duas versões, com motores de quatro cilindros 2.0 de 141 cv e 2.4 de 142 cv – o Classic e o Limited. Nos dois casos, como o carro pesa 1.366 quilos, a relação peso-potência não favorecia um desempenho mais animado, nem o consumo de combustível no trânsito urbano. Não deixava de ser curioso, no entanto, o fato de que, sob um capô da primeira metade do século 20, se abrigasse um moderno motor transversal.
 
As duas versões vendidas no Brasil traziam excelente acabamento interno e eram recheadas com a melhor tecnologia da época, como o câmbio de quatro marchas AutoStick (automático com opção manual), o controle de tração, a regulagem elétrica do banco do motorista e dos faróis, uma central multimídia bem completa, piloto automático, freios ABS a disco nas quatro rodas e quatro airbags. Em perfeita harmonia com as linhas externas, o painel – com instrumentos à moda antiga e um charmoso relógio analógico da Chrysler – completava o incomparável design do PT Cruiser. Com poucos exemplares sobreviventes em bom estado, e entusiasmados clubes de colecionadores espalhados pelo mundo, o retrô da Chrysler já pode ser considerado um futuro clássico.
 

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Fotografias: Eduardo Scaravaglione


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



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Bela crônica!