O mais louco recorde

Arquivos 21 Fev 2020

O mais louco recorde

Por Ricardo Grilo

Do sonho nasce a conquista. Do sonho, do acaso e de alguma dose de loucura, diríamos nós, no caso particular de Robert Timm quando decidiu bater o recorde mundial de voo sem interrupções. Ou, no original, o “World Endurance Flying Record”.
 
Em 1956, Doc Bailey, um empresário norte americano, decidiu construir o primeiro hotel e casino de Las Vegas pensado para ser frequentado por famílias. Por qualquer razão que desconhecemos, o espaço foi baptizado de “Hacienda”. No entanto, devido à sua localização numa zona pouco recomendável de uma cidade já de si infestada por “Gangsters”, o Hacienda nunca se desenvolveu como seria suposto, tendo um problema de imagem difícil de contornar devido à sua localização.
 
Consciente disso, Bailey tentou diversos expedientes, incluindo contratar mulheres bonitas para distribuir folhetos promocionais a camionistas, mas rapidamente percebeu que teria que apostar em algo mais ambicioso e imaginativo para promover o seu empreendimento.
 
No entanto, Bailey tinha o bom hábito de ouvir e considerar ideias, independentemente da sua origem. Assim, encarou com o maior interesse a proposta de um mecânico das suas “slot machines”, de seu nome Robert Timm.
 
De enorme estrutura, e descrito como tendo a aparência de um urso, Timm era um antigo e experiente piloto de bombardeiros da Segunda Guerra Mundial que mantinha bem viva a capacidade e a paixão por voar, tendo convencido Doc Bailey a apoiar uma tentativa de bater o recorde mundial de resistência de voo tripulado. Numa aeronave com o nome ‘Hacienda Hotel’ destacado na fuselagem, claro está. A visibilidade seria enorme e o sucesso garantido.
 
A escolha do aparelho para a arrojada proeza foi o primeiro passo. Tim pediu ajuda a Irv Kuenzi, um amigo do tempo da guerra que era mecânico da Alamo Aviation em Las Vegas. Juntos optaram por um improvável Cessna 172 com 1500 horas de voo que tinha já instalado um sistema de navegação avançado e um piloto automático. Ainda assim, os dois amigos passaram um ano a alterar a aeronave de modo a poder cumprir a missão requerida.
 
A lista de modificações foi extensa: montaram um depósito extra de 95 litros sob a fuselagem, juntamente com uma bomba eléctrica que pudesse transferir o combustível para os depósitos das asas. O sistema de lubrificação foi modificado de modo a permitir mudar o óleo e substituir os filtros sem parar o motor. A porta lateral direita também foi removida e substituída por uma porta flexível tipo “acordeão” que se podia abrir em voo. Montou-se uma pequena plataforma para ajudar as operações de reabastecimento em voo, uma verdadeira loucura acrobática realizada com a colaboração de uma “Pickup” GMC 100 com um tanque de combustível na caixa de carga e colocada a rodar numa pista à velocidade do Cessna. Por fim, o interior do Cessna foi modificado de modo a ter um espaço para descanso onde dormiria um piloto de cada vez.
 
O co-piloto para a tentativa de recorde seria John Cook, piloto comercial que com bons conhecimentos de mecânica.
 
Com as modificações concluídas, a equipa pediu um novo motor de seis cilindros à Continental Motors, mas esta unidade iria ceder ao fim de poucas horas de voo de um primeiro ensaio. Aborrecidos, os aventureiros optaram por reconstruir o antigo motor do Cessna e lá foram ensaiar uma nova tentativa de recorde.
 

Imagem colorida por Ricardo Grilo

 
No dia 4 de Dezembro de 1958 descolaram do aeroporto McCarran, começando logo por sobrevoar a pista a baixa altitude para uma equipa de pé na “Pickup” de apoio pintar de branco a faixa de rodagem dos pneus, de modo a garantir que não pousariam algures, para repousar. Depois, com reabastecimentos regulares de combustível a partir da GMC 100 ou recebendo embalagens diversas e géneros alimentares a partir de um belo Ford Thunderbird cor-de-laranja, os dois tripulantes mantiveram o Cassna a voar até ao dia 7 de Fevereiro de 1959. As histórias vividas durante o voo foram muitas e por pouco que não acabou em tragédia, mas no final o recorde era mesmo dos dois americanos e do pequeno Cessna 172.
 
Tinham estado no ar durante, pasme-se, 64 dias, 22 horas e 19 minutos, percorrendo nesse período 240.000 quilómetros!
 
Um recorde que permanece invicto na actualidade, ao contrário do hotel Hacienda que foi vendido e demolido em 1996.



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