Nürburgring 1957: Fangio e os outros

Competição 30 Nov 2019

Nürburgring 1957: Fangio e os outros

Por Bruno Machado

Há corridas assim, em que um piloto parece estar numa dimensão à parte e os restantes deixam de ser concorrentes para serem meros espectadores. O que aconteceu nesse Grande Prémio da Alemanha de 1957, no circuito de Nürburgring, é exemplo disso.
 

 
Nessa época, Fangio e o seu Maserati 250 F dominam a concorrência, com vitórias em Buenos Aires, no Mónaco e em Rouen. No Nürburgring, Fangio conquista a pole position em 9’25”6, batendo até o próprio recorde da época anterior de 9’51”2. Fica mais perto de uma nova vitória, mas, mesmo assim, há que definir uma estratégia para a corrida do dia seguinte.

 

 
É que enquanto os rivais da Ferrari, Mike Hawthorn e Peter Collins, equipados com os pneus duros Englebert, irão percorrer as 22 voltas da prova (22,810 km cada volta) sem qualquer paragem, o Maserati terá de mudar os Pirellis, mais macios. Então já que terá de parar nas boxes, Fangio e o seu director de equipa, Nello Ugolini, decidem iniciar a corrida com o depósito a meio, aproveitando-se a troca de pneus para abastecer. A estratégia consiste então em tirar partido do peso menor para se distanciar ao máximo dos rivais até à paragem, e assim, conservar o primeiro lugar à saída das boxes.
 
No domingo, a corrida não começa bem e Fangio vê-se logo ultrapassado pelos Ferraris de Mike Hawthorn e Peter Collins. Mas o argentino consegue recuperar a primeira posição na terceira volta e distanciar-se da dupla da Scuderia.
 

 
Fangio segue um bom ritmo e já vai longe, com uma vantagem de 27,8 segundos. E tal como previsto, à 11ª volta Fangio entra nas boxes para abastecer e mudar os pneus. Enquanto os mecânicos se encarregam do Maserati, Fangio aproveita para descer da sua máquina e beber uma garrafa de água.
 
Mas a paragem que não devia durar mais de 30 segundos, dura cerca de 55 segundos que parecem intermináveis! O avanço que Fangio tinha conseguido conquistar está perdido e falta a segunda metade da corrida.
 

 
Quando Fangio sai finalmente das boxes, atrás de Collins, segue um ritmo relativamente calmo. Os pilotos da Ferrari têm uma vantagem de cerca de 45 segundos chegando mesmo aos 48 na 14ª volta, o que leva a equipa a pedir-lhes para apenas gerir esse avanço, já que Fangio parece ter desistido da vitória…
 

 
Só que, quando é dada essa indicação, já Fangio tinha iniciado a sua “remontada” com um ritmo de outro mundo, recuperando vários segundos por volta e batendo, sucessivamente, o recorde da volta mais rápida.
 
Na 16ª volta, a distância já derreteu para 33 segundos, 25 na volta seguinte, para chegar aos 13,5 segundos na 19ª volta.
 

 
Na 20ª volta, Fangio faz um tempo de 9’17”4 e já aparece nos retrovisores de Peter Collins, que nada consegue fazer face ao ritmo endiabrado do seu antigo colega de equipa, sendo ultrapassado pouco depois, tal como Hawthorn mais à frente. Fangio conquista assim mais uma vitória, decisiva para a obtenção do seu 5º título, impressionando ainda Hawthorn e Collins, que, num acto de fair-play, não deixam de o felicitar no pódio.
 

 
Fangio deu tudo nessa corrida. Mesmo tudo. Até psicologicamente, essa vitória acabou por afectar a sua confiança, sentindo que tinha atingido (ou ultrapassado?), os limites.
 
Terá sido inconsciência? Maestria do Maestro? Não sabemos. Só sabemos que foi a última e, provavelmente, a mais bela vitória do grande Juan Manuel Fangio.


TAGS: Juan-Manuel Fangio Nürburgring


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