Novo filme sobre Le Mans é uma boa surpresa

LifeStyle 14 Nov 2019

Novo filme sobre Le Mans é uma boa surpresa

Por Adelino Dinis

Ontem fui à antestreia do filme “Le Mans 66: o Duelo” — “Ford v. Ferrari”, nos EUA — uma grande produção de Hollywood sobre a temporária rivalidade entre a Ford e a Ferrari nas 24 Horas de Le Mans.
 
Os filmes sobre corridas (ou desporto em geral) têm a enorme dificuldade de agradar aos especialistas, ao mesmo tempo que procuram um público mais alargado. Se entram profundamente nos detalhes técnicos, afastam o espectador mais ligeiro. Se descuram os pormenores ou apresentam erros factuais, perdem o apoio dos entusiastas hardcore.
 
O filme realizado por James Mangold apresenta um raro equilíbrio entre ambos. O argumento apoia-se sobretudo em factos e personagens reais, que foram muito respeitados na dramatização. “Le Mans 66: o Duelo” não é um documentário. É um filme de qualidade, que nos empurra a conhecer as personagens, a vibrar com a acção em pista, a sofrer ou rejubilar com o destino dos intervenientes.
 

 
É aqui também que reside uma das principais qualidades desta fita, graças aos dois actores nos papeis principais. Muitos dos filmes sobre o automobilismo sofrem com a qualidade mediana dos actores. Aqui, era difícil pensar em alguém melhor do que Christian Bale para representar Ken Miles. Ainda que seja um pouco esquisito, de início, vê-lo a falar com um sotaque inglês bastante carregado (era um traço distintivo de Miles). Matt Damon não precisa de se afastar tanto da sua zona de conforto, porque ser um “All American Hero”, como Carroll Shelby, é a sua praia.
 
Destaque ainda para mais três actores: Josh Lucas, o vilão do marketing (haha), Tracy Letts, como Henry Ford II e Remo Girone (Enzo Ferrari).
 
Ainda assim, sem um argumento que conferisse profundidade às personagens, os actores estariam de mãos atadas. E é nesse capítulo que “Le Mans 66: o Duelo” emerge bastante acima da média, com as duas personagens principais, Ken Miles e Carroll Shelby. Ambos são bem enquadrados de início, evoluindo ao longo das 2h30 do filme.
 

 
Para quem conheça a história da rivalidade entre o gigante americano e o pequeno construtor de Modena, não há surpresas. No início dos anos 60, a Ford queria envolver-se na competição a nível global, para apelar a um público mais jovem. Tentou comprar a Ferrari, que passava por dificuldades financeiras. Esta utilizou o interesse da Ford para obter melhores condições da Fiat. Henry Ford II, despeitado, utilizou os amplos recursos à sua disposição para construir um automóvel que pudesse vencer a Ferrari no maior palco de todos: Le Mans.
 

 
Para além do choque de egos entre Ford e Ferrari, há todo o contraste entre um construtor de automóveis global e generalista e um especialista. Entre a produção em grande escala e a manufactura com autógrafo. Entre um fundo de maneio milionário e recursos mais escassos. Entre um processo de decisão por comité e uma cadeia de comando mais directa. Entre as preocupações de imagem (lá está, o malvado do marketing) e a paixão pelo automobilismo no estado mais puro.
 

 
A qualidade deste “Le Mans 66: o Duelo” também está nestes detalhes, que entretêm, mas ensinam como ainda hoje funciona o mundo das corridas de automóveis. Ou mesmo, como funciona o mundo…
 
Quanto às cenas de acção, as imagens geradas por computador não dominam o ecrã e quando surgem, não são exageradas. Diria que a maioria parece ser filmagem real, sem artificialidade supérfluas. Há alguns pormenores tontos, de diálogo entre os pilotos durante as corridas (em carros diferentes!). Ou o uso da caixa de velocidades como se fosse um sistema de “overboost”. É pouco frequente e não chega para estragar, mas lembra-nos desnecessariamente de que estamos a ver um filme.
 
Os automóveis representados são muito interessantes, desde os vários Ford GT40, aos AC Cobra e outros modelos contemporâneos. Até temos direito a assistir à apresentação inaugural do Ford Mustang. Mas os mais belos são sem dúvida os Ferrari P3. Ken Miles diz a Carroll Shelby: “Se fosse um concurso de beleza, já tínhamos perdido”. Shelby responde: “A beleza não é tudo.”
 

 
O meu conselho a todos os entusiastas é que vejam Le Mans 66: o Duelo, de preferência, num ecrã grande — a antestreia foi na sala IMAX dos cinemas NOS Colombo.
 
A minha avaliação é muito positiva, um sólido quatro estrelas como filme e uma entrada directa para o Top 5 dos melhores filmes de automobilismo, na companhia do “Grand Prix” e do “Rush”, e no Top 10 dos melhores filmes de automóveis (onde estão o “Vanishing Point” e o “Il Surpasso”).
 
O filme mais próximo em termos de temática é o Le Mans, de 1971. Com um tema fantástico e uma fotografia assombrosa, é um filme de que nunca gostei particularmente. O argumento é muito fraco, as personagens são unidimensionais e a representação, sofrível. Além disso, tem um crime lesa-majestade, com a aceleração artificial das cenas de acção reais. O leigo pode não valorizar, mas eu tenho pesadelos com Porsche 917 e Ferrari 512 que vibram nas rectas como um Opel Corsa A com 300.000 km e amortecedores de origem…
 
“Le Mans 66: o Duelo” está noutro nível em termos de arte cinematográfica. Credível e proporcionando bastante entretenimento, já tem espaço reservado na prateleira onde guardo os DVDs dos outros filmes todos…


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Gonçalo MoraisDaniel Fernandes Recent comment authors
Gonçalo Morais
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Gonçalo Morais

Nem mais uma palavra – isso mesmo. Obrigado

Daniel Fernandes
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Daniel Fernandes

Bom filme, retrata bem para aquele aficionado das corridas da época e ligação condutor máquina tão real no período.