O antigomobilismo em 2050

Modernos 13 Nov 2019

O antigomobilismo em 2050

Por Irineu Guarnier

Estamos em 2050. Turistas espaciais passam temporadas na Lua. As primeiras colônias em Marte estão crescendo. Robôs fazem quase todo o trabalho pesado, sujo ou repetitivo, e a Inteligência Artificial comanda tudo – no espaço e aqui na Terra. Com exceção das temperaturas mais elevadas, que mexem violentamente com o comportamento do clima no planeta, tudo continua mais ou menos igual ao início do século em nível sociopolítico. Guerras. Terrorismo. Os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Desemprego em massa. Superpopulação. Vendas recordes de antidepressivos… A escassez de recursos naturais preocupa os governos, mas eles pouco fazem para resolver o problema. A tecnologia digital, porém, alcançou patamares inimagináveis na distante virada do milênio.
 
Ao contrário do que previam os futurólogos da primeira década do século 21, no entanto, o automóvel não desapareceu. Pelo contrário, o número de veículos pelas ruas das megalópoles e das novíssimas auto-estradas eletrônicas – terrestres e aéreas – é cada vez maior. Verdade que são muito diferentes daqueles que os jovens de 2020 conheciam. Os automóveis movidos por fumacentos motores de combustão interna foram rapidamente substituídos por modelos híbridos. Depois, os híbridos foram superados pelos 100% elétricos. Em seguida, esses cederem lugar aos alimentados por células de hidrogênio. E agora já se diz que também essa tecnologia logo estará obsoleta. As coisas mudam muito rapidamente.
 
Os carros dos anos 2050 são completamente autônomos, não têm mais rodas, levitam e podem voar. Basta mentalizar para onde se quer ir que eles escolhem o melhor caminho e, em pouco tempo, nos deixam no destino almejado. O número de acidentes e mortes no trânsito reduziu-se praticamente a zero. A carnificina do início do século é um capítulo da história do automóvel que nenhum fabricante gosta de lembrar. Mas, o fato é que o transporte coletivo, por mais eficiente que seja hoje em dia, nunca conseguiu substituir a sensação de liberdade e independência que só a mobilidade individual proporciona. Por isso, muita gente ainda prefere ter seu próprio carro. Nem que seja um antigo.
 
Dirigir um veículo dos anos 2020, com motor a explosão, é algo que só alguns velhos saudosistas ainda teimam em fazer, em pistas especialmente preparadas para isso, cercadas de rigoroso esquema de segurança, e sob uma cúpula de plexiglas capaz de evitar o vazamento de gases de efeito estufa sem filtragem para a atmosfera. Não tem a mesma graça de quando se podia dirigir livremente pelas ruas e estradas, lamentam as senhoras e os senhores sexagenários que ainda se divertem com seus velhos carros nos fins de semana. Conseguir combustível para essas máquinas é algo extremamente difícil, porque o petróleo tornou-se uma substância indesejável, mas o pessoal sempre dá um jeito (com etanol, por exemplo). É a maneira que eles encontram de manter viva a sua antiga paixão pelos motores térmicos e, principalmente, o prazer de dirigir. Em 2050, como se vê, o antigomobilismo resiste.


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.

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