Andrew Cowan, o senhor Ralliart

Arquivos 07 Nov 2019

Andrew Cowan, o senhor Ralliart

Por José Brito

Desde que me recordo que a atracção pelos ralis é incontornável e capaz de gerar tal motivação que, tal como ocorre com muitos que lerão as minhas palavras, centenas de quilómetros se fazem sem reflexão, ou não fosse tal a ânsia de ficar empoeirado, de sentir o premente odor a borracha queimada e de vislumbrar um qualquer automóvel a alta velocidade num fino equilíbrio entre controlo/descontrolo tingir a vertente mista de paixão/sonho.
 
Talvez a adição da supramencionada paixão com memórias joviais de uma infância com miniaturas à escala 1:43 tenha contribuído para uma marcação tão vivaz, particularmente pela associação de um qualquer automóvel de competição mítico com as cores dos patrocinadores que se lhe coligaram: é impossível dissociar um 037 Rally da Martini ou Alitalia, um Metro 6R4 da Rothmans, um Subaru da 555 ou um Mitsubishi da Marlboro. É precisamente no último que foco, e nas vitórias de Tommi Makinen aos comandos das diversas gerações do Lancer Evolution no mundial de ralis com a Ralliart, com a tal decoração da Marlboro que, enquanto criança, tanto apreciava, pelas mãos do homem que fundou a equipa e que elevou a Mitsubishi aos píncaros do desporto motorizado.

Vida e Carreira

Andrew Cowan nasceu a 13 de Dezembro de 1936, e quereria o destino que, na pequena cidade de Duns, se tornasse amigo de Jim Clark desde cedo, também um jovem agricultor. Segundo relembra Cowan: “Mal ambos tivemos capacidade, adquirimos os nossos primeiros automóveis. Conduzíamos pelos campos e por todas as estradas sinuosas que havia por aquela zona, onde praticamente não circulavam automóveis naqueles dias. Certamente esses momentos auxiliaram naquilo que foi o refinar das nossas capacidades, dando-nos vantagens que outros pilotos não tinham.”
 
Durante a década de 50, ambos foram muitos activos no Berwick and District Motor Club, mas ao invés da atracção de Clark pela competição em monolugares, Cowan tomava preferência pela competição em pisos de terra, acabando por tornar o RAC Rally de 1960 como a sua primeira prova, onde terminaria em 43º de 200 participantes com um Sunbeam Rapier, Rapier este que era também o seu automóvel de dia-a-dia.

 
Impressionado com o seu sucesso (e motivado pelo estado em que o Rapier havia ficado após a prova), o pai de Cowan substitui-lo-ia por um Rapier Mark II, mais recente e com mais potência. Este momento seria chave para o que foi a vida e carreira de Andrew Cowan, tendo sido com este segundo Rapier que Cowan venceria o Rali da Escócia de 1962, um feito mais tarde declarado pelo próprio como o momento mais alto da sua carreira.
 
No ano seguinte revalidaria o título, e seria contratado pela Rootes Group enquanto piloto, mas não antes de vencer a Tour de France em 1964 com um Ford Mustang na companhia de Peter Procter, demonstrando a sua polivalência. Na sua primeira prova pela Rootes seria co-piloto de Keith Ballisat num Hillman Imp no Rali de Monte Carlo de 1964, uma combinação algo improvável pela insatisfação de Ballisat com a rapidez das notas de Cowan e pela insatisfação de Cowan por considerar Ballisat lento nas especiais.
 

 
Tal como Jim Clark, Cowan tinha também bastante apreço por provas em circuito, de tal forma que em 1965 participaria no seu primeiro Driver’s Meeting em Ingliston, onde terminaria na 2ª posição. Tal performance chamou a atenção de David Murray, proprietário da Ecurie Ecosse, o que levaria Cowan a competir com os Tojeiro-Buick e Tojeiro-Ford Coupés da sua equipa, destacando-se uma vitória em Silverstone no ano seguinte.
 
Pela mestria demonstrada, o seu bom amigo Jim Clark convenceu Colin Chapman a dar a Cowan uma oportunidade num monolugar, ao caso um Lotus de Fórmula III. Ambos concordaram que Cowan era adequadamente rápido, pretendendo que integrasse os quadros da Lotus. Contudo, e após a sua segunda prova em Goodwood, Cowan decide que os monolugares não eram o que almejava, rejeitando o convite de Colin Chapman e concentrando-se nos ralis.
 
Extremamente apto na relação velocidade/manutenção mecânica, era também um verdadeiro piloto de equipa, como demonstrariam as suas acções no Rali RAC de 1972 em que permitiria a Roger Clark vencer após ceder uma das jantes equipadas no seu próprio Escort RS1600 na etapa final.
 

 
Mal se estabeleceu como piloto profissional, Cowan alcançou múltiplos sucessos com a Rootes e subsequentemente com a Mitsubishi, por quem assinaria contracto no final de 1972. Para além das suas duas vitórias no Rali da Escócia, Cowan venceria as duas primeiras maratonas de rali entre Londres e Sidney em 1968 (cerca de 17 mil quilómetros com passagem pelo Afeganistão, Bombai, e uma viagem de barco até à Austrália com o intuito de fazer a ligação Perth-Sidney) com Colin Malkin e Brian Coyle num Hilman Hunter e em 1977 (cerca de 30 mil quilómetros) com Malkin e Mike Broad num Mercedes-Benz 280E, cinco Southern Cross Rallies consecutivos entre 1972 e 1976 com Mitsubishi Lancer (lentos, mas viáveis segundo Cowan), o Bandama Rali da Costa do Marfim de 1977, e o rali mais longo do mundo (mais de 32000 quilómetro), o South American Rally Marathon em 1978. Foi também muito competitivo no Rali Safari onde alcançou por quatro vezes um top 4 em cinco anos e no Paris-Dakar, em que participaria nove vezes, alcançando como melhor resultado um 2º lugar em 1985. Retirar-se-ia da competição em 1990.
 

 
Pelos seus feitos em 1977 e pela noção geral de que era o melhor piloto britânico de ralis de longa distância, receberia o prémio de Piloto do Ano pela União Britânica dos Jornalistas Automotivos, o prémio memorial Jim Clark por “feitos extraordinários por um piloto Escocês” e o troféu John Cobb pelo Clube de Pilotos Britânicos por “sucesso extraordinário por um piloto britânico”.

Relações Nipónicas

Pela excelente relação que tinha com a Mitsubishi, Cowan foi capaz de convencer o fabricante nipónico a fundar uma equipa própria com base Europeia. Em 1983, Cowan fundaria a Andrew Cowan Motorsports (ACMS) com apoio da Mitsubishi e base em Rugby, Inglaterra, acabando esta por se transformar na Mitsubishi Ralliart Europe. O sucesso da equipa no Campeonato do Mundo de Ralis com Cowan como Director Geral seria inquestionável (ainda mais se considerarmos o apertado orçamento da equipa), com Tommi Makinen a conquistar 22 vitórias em ralis entre 1996 e 2001 e quatro títulos de pilotos consecutivos entre 1996 e 1999 e com a Mitsubishi a conquistar o campeonato mundial de construtores em 1998: um domínio no WRC enquanto Grupo A. Foi também Cowan quem concedeu a primeira oportunidade ao futuro campeão do mundo (2001) Richard Burns no Mundial de Ralis, com o Britânico a vencer o Rali Safari e o Rali da Grã-Bretanha em 1998, numa estadia de 3 temporadas com a equipa.
 

 
Em 2003 a Mitsubishi Motors tomaria o controlo definitivo da equipa, com Cowan a manter-se como Conselheiro Interno até à sua retirada, com 69 anos de idade, regressando à sua terra natal onde voltaria ao ofício que o viu crescer.
 
Na sua quinta, e com a permanência da sua paixão pelo desporto motorizado, Cowan construiria um museu onde é possível visionar alguns dos seus automóveis vencedores assim como múltiplas peças de memorabilia. Apesar da existência do museu, existem também veículos de Andrew que foram vendidos, destacando-se um dos Mitsubishi Lancer com que venceu o Southern Cross Rally. Agora na posse de Bob Watson, este recorda vivamente o momento da compra do automóvel, em que Andrew insistiu que apenas vendaria o automóvel se este fosse acompanhado do trofeu, pois certas coisas são indissociáveis.
 

 
A paixão de Cowan era tal que em Setembro de 2008, e já com 74 anos de idade, participaria no Colin Mcrae Forest Stages Rally em memória ao mítico piloto escocês, falecido um ano antes, assim como marcaria presença na abertura do Museu Jim Clark em Setembro passado, uma presença crucial na homenagem ao falecido piloto e amigo próximo.
 
Cowan faleceria no passado dia 15 de Outubro por doença prolongada, restando o desabafo de que o desporto automóvel ficará certamente mais pobre sem o Sr. Ralliart. Uma das primeiras vozes audíveis acerca do sucedido foi Makinen, confidenciando a enorme influência de Cowan na sua carreira não só como piloto, mas também actualmente como gestor da Toyota GRMN, e aditando a relação próxima que mantinha com Cowan até ao presente.
 
Andrew Cowan nunca procurou enaltecer o seu nome, mas os seus esforços em prol do desporto automóvel em geral e do rali em particular tornaram-no num verdadeiro ícone e num embaixador do desporto motorizado para a Escócia, sendo certamente recordado por muitos e saudosos anos.


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