François Cevert, um príncipe na Fórmula 1

Arquivos 09 Out 2019

François Cevert, um príncipe na Fórmula 1

Por Bruno Machado

Talentoso, bem parecido, culto, educado, carismático… Um actor de cinema americano? Um príncipe encantado? Não, um piloto de Fórmula 1. O homem que concentrava todas estas características: François Cevert.
 
O futuro piloto nasce em Paris, no dia 25 de Fevereiro de 1944, numa família abastada, mas no contexto particularmente adverso da ocupação nazi. O pequeno François recebe o nome da mãe e não o do pai (Goldenberg), que denunciava as suas origens judaicas.
 
Terminado o conflito mundial, o pequeno François, recebe uma educação exigente, típica das “boas famílias” parisienses. Mas o menino bem comportado que toca piano, tem também uma certa paixão pelos desportos motorizados e manifesta a vontade de ser piloto de Fórmula 1.

 
O patriarca, que já imaginava o seu filho continuar com a empresa familiar ligada à joalharia, não vê com bons olhos esta vocação, e por isso, recusa dar o seu apoio ao jovem François, considerando ainda que a Fórmula 1 não passa de “um desporto para milionários e gigolôs”.
 
Sendo assim, o jovem François vai trabalhar de modo a juntar dinheiro para financiar a seu ingresso no deporto automóvel. Falta-lhe o apoio familiar, mas pode contar com o apoio do seu futuro cunhado, Jean-Pierre Beltoise, igualmente piloto. Consegue a quantia necessária para se inscrever no Volant Shell de 1966 no circuito de Magny-Cours. Vence a prova, o que lhe permite aceder ao campeonato francês de Fórmula 3 no ano seguinte, com a equipa Tecno. Se a época de 1967 é particularmente decepcionante, com 16 abandonos em 22 corridas, Cevert conquista o título na época seguinte. Com este triunfo, sobe para a categoria superior, a Fórmula 2, conquistando o 3º lugar do campeonato europeu. Mas mais do que a classificação final no campeonato, foi uma corrida em particular que acelerou a carreira do já promissor piloto francês.
 
O Grande Prémio de Reims de Fórmula 2, disputado no dia 29 de Junho de 1969, conta com a participação de um piloto especial: Jackie Stewart, prestes a conquistar o título mundial de Fórmula 1 nesse mesmo ano. E é nessa prova que François Cevert se destaca ao vencer o guest star na última curva.
 
O piloto escocês, impressionado, recomenda-o a Ken Tyrell que o contrata na época seguinte, para substituir Johnny Servoz-Gavin, que decidira terminar a sua carreira, repentinamente, a meio da época. Assim, François Cevert consegue chegar ao palco principal do desporto automóvel, tendo como tutor Jackie Stewart.
 
Cevert comporta-se como um aluno exemplar, obedecendo às directivas de Tyrell e seguindo os conselhos de Stewart. Em 1971, na sua primeira época completa, Cevert mostra-se um colega de equipa eficaz, terminando o campeonato no terceiro lugar. Mas é sobretudo a sua vitória em Watkins Glen, em Outubro, que faz de François Cevert uma verdadeira estrela. O piloto, com carisma “hollywoodesco”, torna-se uma vedeta. Se os seus olhos azuis já seduziam inúmeras mulheres, a sua vitória ajuda-o a conquistar o respeito do meio.
 
A época de 1972 não é tão entusiasmante como a época anterior e Cevert termina em sexto lugar. Como prémio de consolação, conquista o segundo lugar nas 24 horas de Le Mans, ao volante de um Matra-Simca MS670.
 
É finalmente na época de 1973 que Cevert começa a mostrar-se ao nível de Stewart, o aluno chega ao nível do mestre. Depois dos Grandes Prémios da Holanda e da Alemanha, Jackie Stewart confessa a Ken Tyrell que Cevert podia tê-lo ultrapassado várias vezes se o quisesse, o que ilustra bem a integridade do piloto francês em relação àquele que lhe transmitiu tudo o que sabia. São famosas as histórias de rivalidade entre colegas de equipa, mas com Stewart e Cevert é o oposto: respeitam-se, são solidários, são amigos e até vão de férias juntos, como naquela semana que antecede mais uma corrida, em Watkins Glenn.
 
No sábado 06 de Outubro de 1973, ninguém imaginava que o palco da primeira e única vitória de Cevert seria agora o cenário de mais uma tragédia na Fórmula 1. Pouco antes do meio dia, já no final das qualificações, o speaker anuncia um acidente grave envolvendo um Tyrell. Espontaneamente, Stewart pensa no terceiro piloto, Chris Amon. Mas quando este chega às boxes, fazendo sinal de que não foi ele a vítima do acidente, Stewart percebe que acabara de perder o seu amigo. François Cevert morre, tragicamente, aos 29 anos.
 
E assim terminou uma das mais belas amizades entre dois pilotos de Fórmula 1. Terminou ainda a carreira de Jackie Stewart, que não chegou sequer a disputar o seu centésimo e último grande prémio, o que não impediu a conquista do seu terceiro título.
 
Muitos franceses (e não só), que viam em Cevert um futuro campeão do mundo, recordam, ainda hoje, o seu talento aliado à nobreza do seu carácter. Talvez por isso lhe tenham atribuído a alcunha de “le prince” (o príncipe).
 

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