Escala de Lunda: O Hotel Mundial

Arquivos 23 Jul 2019

Escala de Lunda: O Hotel Mundial

Por José Correia Guedes

No início da década de 80 deixei os aviões de médio curso da TAP e “saltei” para o lugar de copiloto em Boeing 707. Outras viagens e outras emoções era tudo o que então me apetecia. O já velho e cansado 707 era o lugar certo para poder ter tudo isso e muito mais.
 
Luanda, por exemplo.
 
Na altura as tripulações da TAP ficavam alojadas no mais que modesto Hotel Mundial, ali para os lados da Mutamba. Além dos tripulantes, nunca mais de uma dezena, viam-se também alguns funcionários da companhia em trânsito para qualquer lugar e um ou outro empresário que ali teria ido parar por falta de alternativa. Não havia por onde escolher. Angola estava em plena guerra civil e as carências sentiam-se a todos os níveis, hotéis incluídos.
 
O vetusto Mundial ocupava pouco mais que um piso num já bem degradado edifício construído provavelmente na década de 50. À volta havia apartamentos, quase todos sem água ou electricidade.
 
A comida era boa (éramos nós que a trazíamos nos aviões) e os quartos decentes. Com uma excepção: o quarto do copiloto (a minha função, na altura) tinha uma cama redonda e como se tal não bastasse para instalar a confusão, pelo menos na fase inicial o colchão era de água.
 
Depois mudaram, tantas eram as queixas. Não sei onde foram buscar aquilo. Provavelmente eram restos de alguma loja de mobiliário saqueada no pós independência e depois vendidos no glorioso Roque Santeiro, na altura um dos maiores mercados a céu aberto do mundo.
 
Nunca me habituei à cama redonda. Os lençóis, obviamente rectangulares, eram totalmente incompatíveis com o resto e o glu-glu-glu do colchão de água provocava-me enjoos. Sentia-me no mar alto, logo eu que nunca tive vocação para marinheiro.
 
Depois eram as visitas guiadas. Toda a gente queria visitar o quarto do copiloto. Depois davam palpite e riam-se do infeliz.
 
As refeições eram tomadas no hotel. A cozinheira portuguesa era magnífica e servia-nos toda a espécie de petiscos. O vinho também não faltava. Nesse aspecto ninguém podia reclamar.
 
Um belo dia, alguém reparou num jovem empregado especialmente desembaraçado que atendia a mesa da TAP. Simpático e sorridente, ainda por cima.
 
“Como é que você se chama?”
 
“João Tournoit”
 
“Tournoit? Você é francês? Do Zaire, talvez?”
 
“Não, senhor. Eu sou de Angola”
 
“Então como arranjou um nome francês?”
 
O chefe de mesa, que assistia a tudo, resolveu intervir e deu a explicação:
 
“Ele é o João turno A, que é para distinguir do João turno B…”
 
Foi a gargalhada geral. Com que então francês???
 
O pior foi quando uma vez resolvi fazer o meu jogging até à Ilha. Era um percurso magnífico e abria o apetite para o jantar. Na altura toda a gente corria e os Nikes andavam sempre na nossa bagagem. Equipei-me a rigor e um pouco antes das cinco da tarde, quando o calor já se abatia, fiz-me à estrada.
 
Não tinha andado um par de quilómetros quando fui parado por uma patrulha milita, dois soldados, que se deslocava num jipe soviético.
“Documentos?”
 
Claro que não tinha. Quem é que leva documentos quando vai correr? O pior é que também não tinha dólares, a chave mágica que resolve qualquer problema em África.
 
Disse quem era e o que fazia em Luanda. Os militares não ficaram impressionados. Perguntaram se tinha dinheiro. A negativa deixou-os com cara de poucos amigos a conversar um com o outro. Receei o pior.
 
Prometi que no dia seguinte voltaria à mesma hora e não me esqueceria de trazer um “presente”. Olharam-se de soslaio e um deles respondeu-me com a estocada final:
 
“Camarada: são cinco da tarde, hora de trabalho. Em vez de estar a trabalhar você está a correr. Se te volto a apanhar a correr a esta hora, sem documento e sem dinheiro, vais preso. Entendido?”
 
Entendi muito bem. No dia seguinte voltei ao local do “crime”, como prometido, com o cartão da TAP e várias notas de 20 dólares no bolso, para o que desse e viesse.
 
A patrulha não apareceu, mas ficou-me de emenda: a partir daí nunca mais saí à rua em qualquer lugar de África sem ter um molho de dólares no bolso. Foram-me bem úteis em várias ocasiões.
 
Com agradecimentos a Paulo Maia de Loureiro


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