Era para ser

Clássicos 07 Jul 2019

Era para ser

Por Irineu Guarnier

Tornei-me antigomobilista muito jovem – sem o saber. A palavra “antigomobilismo” nem mesmo existia – ou pelo menos eu não a conhecia – no final da década de 1970, quando adquiri meu primeiro automóvel. Era um Volkswagen SP2 usado, modelo esportivo de dois lugares que a montadora alemã só fabricou no Brasil, de 1972 a 1975, e assim mesmo apenas 10.122 unidades. Por ocasião do seu lançamento, foi considerado pela revista alemã Hobby “o Volkswagen mais bonito do mundo”, embora seu motor boxer refrigerado a ar de quatro cilindros, 1.700 cc e apenas 75 cv não fosse grande coisa.
 

 
Tinha 18 anos, recém havia tirado minha carteira de habilitação, e a primeira coisa que fiz quando juntei alguns trocados foi comprar a “máquina” – financiada em 24 prestações. Um sonho de infância, realizado com a ajuda de minha mãe, que pagou a entrada, e de um tio generoso, que custeou a funilaria e uma nova pintura.
 
Acontece que o carrinho, comprado da esposa de um vizinho de meu tio, estava muito mal conservado. Com amassados distribuídos por toda a carroceria, a pintura desbotada, o interior maltratado e a mecânica sem manutenção, aparentava acumular bem mais do que os 50 mil quilômetros que de fato teria. Era, no entanto, o que cabia no meu bolso.
 
Comprei o SP2 mesmo detonado porque não me conformava com a ideia de guiar um veículo “comum”, como o Fusca (Carocha), a opção óbvia de qualquer jovem brasileiro que adquiria seu primeiro carro naquela época. O SP2 ainda não era antigo, naturalmente, embora já estivesse fora de produção há algum tempo e poucos se interessassem por ele. Mas, devido ao seu lamentável estado, implorava por uma boa restauração – como ocorre com clássicos encontrados em celeiros.
 

 
Antes mesmo que eu pudesse desfruta-lo, foi para uma oficina, onde recuperou suas formas lindamente arredondadas e sua brilhante cor azul-caiçara original. Tapeçaria nova e consertos mecânicos vieram na sequência. Muito me diverti com o carrinho: numa estrada deserta daqueles tempos, levei seu velocímetro aos 200 km/h por mais de uma vez…
 
Ingressei, assim, no universo automobilístico restaurando de cabo a rabo – por necessidade – um esportivo que hoje é um ícone nacional. Tal como faria, décadas mais tarde, com outros exemplares – aí, sim, por hobby. Mas acredito que, de alguma forma, a escolha de um primeiro carro incomum e carente de tantos reparos já revelava uma vocação: o gosto por ver um veículo renascer das cinzas que caracteriza todo verdadeiro antigomobilista.


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.



PARTILHAR:

Deixe um comentário

Please Login to comment