Amédée Gordini, o reconhecimento

Clássicos 28 Jun 2019

Amédée Gordini, o reconhecimento

Por José Brito

Pela forma espalhafatosa como gastou os fundos amealhados em trabalhos anteriores nas suas incursões pela cidade parisiense, as circunstâncias obrigaram Gordini a estabelecer-se debaixo do amparo de Cattaneo, algo particularmente importante pois este era piloto e amigo pessoal do Commendatore (ainda que nesta fase Enzo ainda fosse oficialmente funcionário da Alfa Romeo), sendo que mais tarde seriam precisamente os automóveis de Enzo que Gordini venderia em Paris.
 
“Papa” Cattaneo toma rapidamente consciência da perícia e habilidade de um jovem Gordini, sendo que muitas vezes o encontrava fora do horário de trabalho a dar forma às suas próprias preparações. Pouco a pouco os clientes da garagem exigiam que as reparações e alterações fossem concretizadas pelas mãos habilidosas do jovem mecânico prodígio de Cattaneo, especializado no trato de Fiat, Hispano-Suiza, Bugatti, e Isotta-Fraschini.
 
Tal o êxito, a mente de Gordini deambulava na ideia de se estabelecer em nome próprio, e tal era o vinco O ideológico que antes do final de 1926 tinha já a sua licença profissional, e com o auxílio de Arduino Cipriano inaugura uma oficina precisamente em frente à de Talbot. A notoriedade rapidamente se seguiu, e a vida pessoal passa de novo a tomar um papel de relevo, estabelecendo de novo contacto com a sua mulher e filho, com o pensamento de lhes poder dar uma vida melhor em Paris. Aldo estabelecer-se-ia com o seu pai, aprendendo o ofício passo a passo e acabando por competir com as cores da Gordini.

 
De entre todos os clientes regulares de Gordini nos anos que se seguiriam, há um cujo nome deverá ser destacado, o Maharajá de Kapurthala. Colocá-lo-ia em contacto directo com a Fiat, muito em parte pelas soberbas alterações que levou a cabo no seu Balilla para a Coppa d’Oro. Tal foi a satisfação do Maharajá que rapidamente colocou nas mãos de Gordini diversos automóveis que possuía, incluindo um Bugatti Type 37 em 1929 com o qual teve autorização a viajar de Paris a Bolonha. Esta viagem a Itália culminou com uma visita à sede da Fiat em Turim, para solicitar um ponto de distribuição em Paris. A marca italiana era há altura comercializada em França pela Pigozzi, mas Gordini estava convencido em negociar directamente com a central, e a sua entrada com pompa e circunstância ao volante de um Type 37 certamente terá ajudado nas pretensões. Neste mesmo ano, Gordini adquire nacionalidade francesa e altera o seu nome para Amédée.
 

 
O seu sócio Cipriano acaba por abandonar a sociedade pelos interesses empresariais que possuía na Venezuela, regressando a Itália anos mais tarde. Pelo desejo de continuar com o negócio e o objectivo de o fazer crescer o máximo possível, Amédée elabora uma estratégia de marketing com o intuito de dar a maior notoriedade possível ao seu negócio, estratégia essa que passava pela construção de automóveis de competição para vencer (trato similar ao implementado por Carlo Abarth).
 
Gordini executou as suas primeiras experiências com um Fiat 514 com objectivo de participar no Rally Paris-Niza. Terminaria esta primeira prova na 28ª posição, mas alcançaria a sua primeira vitória em 1933 na rampa de Suresnes.
 
A representação da Pigozzi para a Fiat em França limitava-se à montagem de automóveis, que acabavam por ser comercializados sob o apelido do proprietário da empresa. A política de importação francesa dificultava imensamente a importação, e como tal Pigozzi fundaria a Société Industrielle de Mécanique et de Carrosserie Automobile (SIMCA). Esta criação coincide com a falência da Donet-Zédel, acabando a sua moderna fábrica em Nanterre por se tornar a sede da SIMCA. O negócio seria tripartido, com a inclusão de Gordini para o propósito de providenciar a “magia” necessária para diferenciar os automóveis SIMCA-Fiat dos restantes.
 
Como demonstração inicial, empreende-se na alteração de um Fiat 508S Balilla para a prova de resistência Coppa d’Oro de 1935, similarmente ao que havia anteriormente feito para o Maharajá de Kapurthala. O pequeno automóvel de 995 centímetros cúbicos termina na 6ª posição à geral, vencendo na categoria até 1100 centímetros cúbicos às mãos do próprio Amédée Gordini. Seguia-se a vitória no Grand Prix d’Orleans. As vitórias contribuíam para a notoriedade que o mesmo almejava, além de darem um impulso ao início da SIMCA. Seguiam-se as 24 Horas de Le Mans.
 

 
Pela popularidade alcançada, muita esperança caía sobre o pequeno 995 centímetros cúbicos, mas falhas sucessivas na admissão resultaram no abandono de Gordini.
 
Relutante em manter o Balilla em competição depois do sucedido, Gordini altera o seu foco para um SIMCA-Fiat de 1500 centímetros cúbicos, que leva à vitória geral no Grand Prix de Marne no circuito de Reims, apenas um mês depois do abandono em Le Mans.
 
Com passos firmes Gordini estabelecia-se como sinónimo de um exímio preparador, sabendo-se à partida que a presença de um qualquer bólide por si preparado numa grelha de partida era sinal de luta acesa pela vitória.


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