Os desencontros românticos de um aviador

Arquivos 29 Abr 2019

Os desencontros românticos de um aviador

Por José Correia Guedes

Chamemos-lhe apenas “Luís”. Era comandante de Airbus A340 da TAP à altura dos factos e andaria já perto da idade da reforma, talvez 58 ou 59 anos. Nesse tempo os pilotos eram obrigados a deixar de voar aos 60 anos, hoje podem continuar até aos 65. Mais dia menos dia vão ficar até aos 70, vai uma aposta? Ufff, do que eu me safei!
 
Mas vamos então à história.
 
Proveniente de Lisboa o meu Airbus A340 acabara de aterrar no aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Tinha sido uma viagem longa e cansativa, especialmente na parte fina. Havia uma enorme tempestade sobre o aeroporto e os cumulonimbos eram tantos que o Controle de Tráfego Aéreo até deixava os pilotos escolherem a pista que lhes parecesse mais favorável para a aterragem. Claro que isto gerou o caos nas aproximações e, em consequência, houve até quem alternasse para o Rio de Janeiro, mas nós lá conseguimos aterrar sem sobressaltos de maior. Aterragem de comandante, como mandam os livros em caso de dificuldade máxima.
 
À saída do avião já só pensava na caipirinha que me esperava no Bar do hotel, de resto bem merecida, mas acabei por ter que atrasar um pouco esse momento tão desejado. Passo a explicar.
 
Na altura era relativamente frequente, em qualquer aeroporto operado pela TAP, as tripulações que chegavam cruzarem-se com aquelas que iam partir. Davam-se abraços e trocavam-se saudades com os/as colegas mas no caso dos pilotos esse momento era também aproveitado para partilhar algumas informações de ordem técnica relativas ao avião.
 
Depois de abraçar fraternalmente o Luís disse-lhe:
 
“O avião está impecável. Não estraguei nada. Vê lá se levas isto direitinho para Lisboa.
 
“Está bem, obrigado, mas aguenta aí um bocadinho. Deixa-me contar o que ontem me aconteceu. Ainda custa a crer.”
 
“Mas que te aconteceu?”, perguntei. “Foste assaltado?”
 
“Assaltado? Sim, de certa forma. Mas já te conto”.
 
Intrigado sentei-me numa cadeira e dispus-me a ouvir. O meu amigo parecia preocupado, o caso era sério.
 
A partir de agora é o Luís que fala:
 
“Tu sabes, Zé, como eu gosto de relógios antigos. Tenho uma boa colecção e sempre que posso compro mais. Desta vez aconselharam-me a visitar uma loja da especialidade em São Paulo, ali para os lados da Rua Augusta, e foi isso mesmo que ontem fiz.
 
Quando cheguei à dita loja fui recebido por uma empregada que estava ao balcão, ainda muito jovem e linda de morrer. Disse ao que ia e ela logo se dispôs a mostrar-me tudo o que pudesse interessar-me deste Breitlings a Rolex, passando por TAGs, Breguets e Pateks em quantidade apreciável. O mostruário era interessante mas eu tinha dificuldade em concentrar-me; a garota era mesmo bonita e, sabes que mais, a partir de certa altura parecia que se estava a atirar a mim. Pensei que era ridículo; eu à beira dos sessenta anos e ela com menos de trinta, seguramente, o mais provável é que estivesse a gozar comigo. Não estava.
 
O tempo ia passando, ela sorria e eu também e cada vez mais me convencia que o meu velho charme estava de volta. Sem grande convicção resolvi passar ao ataque e perguntei se aceitava tomar um drinque (bebida) comigo quando saísse do trabalho:
“Pois não”, respondeu.
 
Sabendo eu que na versão local isso quer dizer “pois sim” corri para o hotel, tomei um duche, vesti a minha melhor roupa e borrifei-me com Armani. À hora combinada estava pronto para a aventura.
 
Lá nos encontrámos e fomos tomar o drinque num boteco de rua, sugestão dela. Conversa puxa conversa o tempo ia passando e quando chegou a hora de jantar decidi fazer a investida fatal:
 
“Você aceitaria jantar comigo?”
 
“Claro que sim, meu bem!”
 
Meu bem??? Estava no papo. O velho charme tinha feito mais uma vítima e esta era algo verdadeiramente especial. Tinha mais uma história para contar, não aos netos mas aos amigos, parte fundamental de qualquer aventura do género.
 
Para impressionar a minha amiga levei-a a um dos restaurantes mais “In” de São Paulo, ali para os lados da Haddock Lobo onde só havia coisa chique a valer. O jantar custou uma fortuna mas quem pensa nessas coisas quando se perde trinta anos assim da noite para o dia?
Terminada a refeição o último assalto já não deixava grandes dúvidas:
 
“Você quer tomar um drinque no meu quarto do hotel?”
 
“Pois não, meu bem!”
 
Assim aconteceu. Passámos a noite juntos e de vez em quando dava comigo a beliscar-me e a perguntar a mim próprio se aquilo estava mesmo a acontecer. Estava. Acabei por adormecer já a noite ia alta.
 
De repente, um sobressalto:
 
“Acorda, Luís!”
 
“Ein???”
 
“Acorda, Luís, por favor!”
 
“Mas … Aconteceu qualquer coisa? Um sismo? Que se passa?”
 
“O que se passa é que tenho que ir para o trabalho e preciso de dinheiro para o táxi.”
 
“Sim, claro – respondi. E quanto você precisa, meu bem?”
 
“Duzentos dólares.”
 
“Duzentos quêêê????”
 
Só aí percebi o que me tinha acontecido. Ainda arrisquei um “você está morando longe páca” mas não tive outro remédio: paguei. A alternativa era o escândalo e toda a gente sabe que um comandante da TAP tem que manter a compostura em qualquer circunstância”
 
Era esta a história que o Luís tinha para me contar. Passei dois dias a gozar com o assunto e por vezes durante a viagem de regresso ainda dava comigo a rir à gargalhada no cockpit. O copiloto deve ter pensado que eu já estava “fora do prazo” mas ficou sem saber do que ria o parceiro do lado.
 
Palavra de aviador
 
Fotografia do CS-TOD em Guarulhos, da autoria de “Jaka”

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