A primeira vez

Arquivos 22 Abr 2019

A primeira vez

Por José Correia Guedes

Abril de 1971. Tinha acabado há pouco o curso de comissário de bordo da TAP (só ao fim de nove meses “saltei” para o curso de piloto) e a minha primeira viagem foi para… Nova Iorque! Para quem nunca tinha saído de Portugal, Angola incluída, o choque cultural não podia ter sido maior. Ao longo da carreira voltei dezenas de vezes à Big Apple mas as impressões da primeira vez foram – e continuam a ser – as que mais perduram.
 
Mandam os bons costumes que se visitam os lugares turísticos quando da primeira vez em qualquer lado, seja em Nova Iorque, em Lisboa ou em Ouagadougou. O Empire State Buliding (na foto) não podia escapar e lembro como se fosse hoje o que me passava pela cabeça enquanto alguém me tirava a fotografia. Estava “esmagado” com a paisagem urbana e definitivamente impressionado com muitas outras coisas: a velocidade dos elevadores, o “estalar” dos ouvidos durante a subida, as grades de segurança no Observation Deck e os estabilizadores aerodinâmicos no exterior do edifício que eram reguláveis consoante a direcção do vento para que o conjunto não “abanasse”. Fiquei de boca aberta. Em Vila do Conde não havia daquilo nem nada que se parecesse.
 
O que também não havia era motoristas de táxi indianos com mau feitio. Um belo dia (as estadas eram de cinco dias, bons tempos…) sentindo-me cansado e meio perdido apanhei um táxi para regressar ao Hotel Roosevelt. À chegada olhei para o taxímetro, contei os dólares um a um e entreguei ao homem a importância exacta. Tanto bastou para que ele desatasse aos gritos e se virasse para mim em tom ameaçador: “Give me a tip! I work for tips, you son of a bitch!!!” (Tip = Gorjeta. O resto não traduzo). Aprendi rapidamente a lição e muitos anos depois, quando uma das minhas filhas foi estudar para Nova Iorque e arranjou emprego num restaurante para equilibrar o orçamento, era eu que lhe dizia: “Não aceites nunca menos de 15% de gorjeta. Até aos 20% ninguém reclama principalmente se a empregada for bonita e eficiente”.
 
Outro choque cultural aconteceu na celebérrima 42d Street. Depois de assistir a um espectáculo na Broadway (outra coisa que se faz sempre na primeira vez) fui tomar o pulso à noite na chamada “rua dos teatros”, por esse tempo cheia de luz e actividade. Durante algum tempo senti-me uma espécie de Paul Newman tais e tantas eram as mulheres que se metiam comigo. Choviam piropos de todo o lado: “Hello, my love!”, “Hi, handsome!”, “C´m on, baby boy!”. Só mais tarde percebi que eram prostitutas a “atacar” fortemente o deslumbrado provinciano que lhes aparecia pela frente. Resisti.
 
Prostitutas? Se alguma delas aparecesse na minha terra por aqueles dias não iriam faltar pedidos de namoro e propostas de casamento, tão elegantes, bonitas e bem apresentadas elas eram.
 
“Oh New York, New York! If you can make it there, you can make it anywhere”. Assim falava (cantava) o bom velho Frank Sinatra e estava cheio de razão.
 



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