O Karmann Ghia TC amarelo

Clássicos 30 Mar 2019

O Karmann Ghia TC amarelo

Por Irineu Guarnier

Encontrei o Karmann Ghia TC (modelo que a Volkswagen só fabricou no Brasil) 1973 amarelo na garagem de um posto de gasolina da Cidade Baixa, em Porto Alegre, no Sul do Brasil, onde vivo. Nos fundos, havia uma espécie de depósito, onde se amontoava uma tralha variada. Notei que, em meio aquele monte de coisas velhas, havia algo sob uma lona empoeirada que lembrava a forma de uma carro tipo fastback. Só podia ser antigo. Mas, que carro seria? Na garagem, ninguém sabia.
 
Não resisti à curiosidade, e levantei uma ponta da lona para espiar. Qual não foi minha surpresa quando deparei com um KG TC. Era igual ao que o meu pai tivera, novinho, nos anos 1970 (só que o dele era branco). E estava muito original, por fora e por dentro, apesar de abandonado ali por mais de dez anos.
 
Uma espessa camada de poeira escura cobria o carro. As rodas não eram mais as originais, e os pneus estavam imprestáveis. A pintura parecia muito feia, toda manchada, e havia pontos de ferrugem em partes da carroceria. Uma lanterna traseira não tinha mais a lente. O aspecto geral era desanimador. Meu pai, a quem consultei sobre a possibilidade de comprar o carro para restauração, me aconselhou a não embarcar nessa aventura.
 
Mas o fato é que, sob toda aquela sujeira, havia um carro íntegro, com todos os detalhes, lataria perfeitamente alinhada, cromados em bom estado, interior original e conservado – inclusive com o radinho AM de fábrica. O forro, encardido, era o único defeito visível. A mecânica, eu descobriria depois, também estava muito boa (pela documentação, o carro teria pouco mais de 60 mil quilômetros originais), com exceção de um pequeno problema no trambulador do câmbio.
 
A partir daquela “vistoria”, e já com o apoio de meu pai, localizei o proprietário e passei a cercá-lo com ofertas de compra. Mas ele se mantinha irredutível: não queria vender o KG TC. Encarreguei meu pai de continuar tentando convencé-lo, e fui tocar minha vida. De vez em quando, perguntava ao pai sobre o carro. A resposta era sempre a mesma: o dono não vende. O tempo passou.
 
Eis que, um belo dia, recebo um telefonema do proprietário. Ele precisava urgentemente de uma certa quantia – pela qual se dispunha a vender o KG TC. Era bem mais do que o carro valia naquele estado. Mas eu não iria perder a oportunidade. Vendi meu carro seminovo de uso diário, e comprei o TC. Eu e meu pai comemoramos o negócio – mesmo sabendo que teríamos muitos problemas pela frente.
 
O KG TC não andava. Foi preciso chamar um antigo mecânico de Volkswagen, já aposentado, para revisar o motor e a caixa de câmbio, trocar óleo, velas, mangueiras ressequidas, fluidos, lonas de freio, carburador e uma infinidade de pequenos mas importantes componentes. Depois, fomos atrás das rodas e calotas originais, da lente da lanterna e da lâmpada da placa traseira. Internamente, apenas o forro do teto precisou ser substituído. Com todas as peças em casa, restava eliminar pontos de ferrugem e providenciar uma nova pintura. Todo a função durou cerca de seis meses. Não foi uma restauração completa, porque o carro estava muito bom – mas mesmo assim deu trabalho.
 
O Karmann Ghia TC é atualmente um clássico em acelerado processo de valorização no Brasil. O design, ainda hoje muito elegante, lembra o do Porsche 911. Dizem que teve retoques do estilista italiano Giorgetto Giugiaro. Como a Volkswagen só fabricou o KG TC aqui no Brasil, isso o torna um modelo raro entre os veículos refrigerados a ar da montadora alemã em todo o mundo.
 
Uma boa oferta levou o meu KG TC para uma coleção particular no interior de São Paulo. O atual proprietário fez melhorias no carro. Mas instalou nele volante e rodas de Porsche que, a meu ver, descaracterizam o modelo. Eu preferia-o conforme o Manual do Fabricante. A verdade é que até hoje me arrependo de tê-lo vendido. Meu pai nunca esqueceu do velho KG TC. Quando ele faleceu, tentei recomprar o carro, como uma homenagem à nossa antiga parceria. Mas o dono me disse: NÃO. Restaram-me as fotos e as boas lembranças dos encontros de carros antigos em companhia de meu pai.
 

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Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.


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