La Voiture Noire: A engenharia, o design e o preço

Modernos 12 Mar 2019

La Voiture Noire: A engenharia, o design e o preço

Por Hélio Valente de Oliveira


 
A apresentação de La Voiture Noir, pela Bugatti, no último salão de Genève, parece ter gerado uma onda de admiração, por um lado e de quase estupefacção, por outro. No entanto, a principal fonte de tal ter acontecido parece ter sido o preço. Bom, acho completamente redutor e de uma vulgaridade sem limites olhar para tal obra de engenharia, ou design, como quiserem, só por esse prisma. É que estamos a deixar de fora o mais importante, mas já lá vamos.
 
Sobre o preço, a minha opinião é:
 
Seria um factor importante se estivéssemos a falar de um bem imprescindível e que tivéssemos de o adquirir obrigatoriamente. Tanto quanto sei, a Bugatti não obriga ninguém a comprar e ninguém precisa de um Bugatti para viver, portanto este problema não existe. Depois, o preço torna-se importante, mais para quem vende do que para quem compra, se estivéssemos a falar de um produto que fosse disponibilizado comercialmente, com a inevitável concorrência de outros produtos. Como é um exemplar único, feito por encomenda, este detalhe só importa a duas entidades, a quem o vendeu e a quem o comprou… e ponto final.
 
Acho espantosa também a reacção de algumas pessoas do ramo que acham quase insultuoso um automóvel novo custar tanto dinheiro, mas acham normal alguns clássicos valerem quatro ou cinco…ou dez vezes mais. “Não tem valor histórico”, “Não se sabe o factor de valorização…” foram as frases que ouvi mais. A minha pergunta é: “E então…o que é que isso interessa?”. Com certeza terá outras mais-valias, pelo menos para quem o comprou… e com uma questão importante: quem gasta este montante num automóvel, acham que está preocupado com desvalorização? Não me parece.
 

 
Arrumado este pequeno detalhe, vamos ao que realmente interessa.
 
O design pretende ser uma homenagem ao 57 Atlantic, mais concretamente à unidade utilizada por Jean Bugatti e que desapareceu misteriosamente antes da eclosão da II Grande Guerra. Acho que muita gente esperava ver um modelo algo retro, um Atlantic modernizado. Era uma maneira de o fazer, embora ache que estes modelos retro são uma perda de tempo tendo em conta que há imenso para inovar e uma marca como a Bugatti, mesmo com o passado rico que possui, tem que olhar forçosamente para o futuro. A génese do Atlantic original foi precisamente essa…era brutalmente avançado para a época!
 

 
A outra maneira de o fazer era partir do pressuposto de que se o Atlantic fosse produzido hoje, quais seriam as exigências, com certeza diferentes do original, e o aspecto geral? Recorrendo a alguns elementos que caracterizam o 57 Atlantic, devidamente modernizados (note-se o formato do pára-brisas) e levando em conta o potencial de performance disponível, o cuidado posto na execução e no design da carroçaria evidenciam que quando falamos de um automóvel com uma velocidade de ponta de no mínimo 380km/h (se for igual ao Divo) todos os detalhes contam. Uma curva fora do lugar pode gerar problemas graves a alta velocidade. Observando a frente com mais atenção, não será difícil notar que está concebida como um deflector…as enormes entradas de ar, ao lado da grelha, disfarçadas para fins de uma certa continuidade, e as saídas no capot frontal mostram precisamente isso.
 

 
A traseira parece ser completamente aberta, para favorecer não só o arrefecimento do motor, mas será interessante perceber também como o fluxo de ar é conduzido e utilizado para fins de sustentação negativa do eixo traseiro.
Ainda sem estudos ou dados técnicos disponíveis, aguardemos a explicação de como é que todas estas soluções se harmonizam. Detalhes como estes, estudados para uma viatura única, oneram exponencialmente o custo final. Não é um simples caso de um Chiron com uma carroçaria diferente, bom… até é, embora a distancia entre eixos tenha sido aumentada em 250 mm, mas para conseguir que tudo funcione e seguir os elevados padrões da marca o que este simples facto (a mudança de carroçaria) envolve é que é interessante…diga-se caro, muito caro.
 

 
O designer, Etienne Salomé, consegue ainda dar-lhe uma volumetria que disfarça a arquitetura típica de um motor central traseiro e que parece levar o design deste tipo de produto, numa direção muito diferente, pelo menos quando comparado com as propostas de outros fabricantes presentes no certame. E tudo dentro do espírito de uma marca habituada a fundir, a amalgamar, ou mais simplesmente, a fazer desaparecer a fronteira entre a Engenharia, na concepção dos seus produtos, e a Arte…
 

 
Ensinaram-me há alguns anos, que há duas maneiras de fazer um produto: tendo em vista o preço final ou tendo em vista um padrão de qualidade. Parece-me óbvio o caminho seguido aqui…
 
Mas para mim, o detalhe mais importante deste exercício é a colocação no mercado da marca. A meu ver, a Bugatti já estaria completamente isolada no segmento, bastante acima da Ferrari, Lamborghini ou McLaren, e mesmo a Koenigsegg ou a Pagani já não acompanham, se é que alguma vez o fizeram. Após a introdução do Chiron, a fasquia foi de tal modo elevada que muitos observadores quase que pediam a introdução de um modelo de base. Depois de alguns estudos, a berlina Galibier é um exemplo, a marca decidiu seguir o seu próprio caminho… e parece que vai ser precisamente o oposto do que toda a gente estava à espera. Com o lançamento do Divo, e agora com La Voiture Noire, o Chiron, afinal, é o modelo base.
 
Como diria Ettore Bugatti: “Se é comparável, já não é Bugatti!”


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