Os 10 objectos da minha vida: Ricardo Grilo

Arquivos 11 Mar 2019

Os 10 objectos da minha vida: Ricardo Grilo

Ricardo Grilo gostaria de ter sido piloto de automóveis ou pilotar aviões de caça. E os objectos que colecciona referem bem os sonhos que (pelo menos até agora) ficaram por cumprir. Mas tendo nascido numa família ligada desde 1936 à comunicação social, Ricardo Grilo estava condenado à nascença. Por isso, sem surpresa, trabalhou quase sempre ligado ao meio, quer como comentador do canal Eurosport, fotógrafo, jornalista, técnico de som ou mesmo apresentador de rádio e webmaster. Pelo meio arranjou tempo para escrever dois livros sobre dois grandes pilotos de automóveis, estando agora a escrever uma terceira obra, dedicada à sua prova de eleição.
 

1 – Taça “Volta à Ilha da Madeira de 1977”

 

 
Um dia, após ter concluído o livro sobre a carreira desportiva de Américo Nunes, o grande campeão virou-se para mim e disparou:
“Companheiro, o livro está pronto e ficou um bom trabalho. Por isso, agora escolhes uma taça da minha colecção que eu ofereço-ta!”
Fiquei sem saber o que dizer, tentando recusar de início qualquer presente dessa grandeza, mas Américo Nunes insistiu e acrescentou que costumava fazer ofertas assim aos amigos.
“Que taça escolhes?”
Pensei rapidamente e, tendo em conta o capítulo de abertura, referi a “Volta à Ilha da Madeira de 1977”.
“É tua! Vamos já buscá-la a casa”
E desde então, a taça da fantástica vitória do Américo e do João Baptista figura numa posição de destaque na minha sala de jantar, sendo sem dúvida um dos objectos emocionalmente mais importantes e valiosos que possuo.
 

2 – Tissot Automatic Navigator

 

 
Em 1972 foi lançado este Tissot Automatic Navigator, um cronógrafo de movimento automático e mecânica Lemania 1343 que também era comum nos relógios Omega (as três marcas pertenciam então ao mesmo grupo). A Tissot era então usada para ensaiar futuras tendências de Omega, o que justificará o facto de ter sido o primeiro cronógrafo do mundo a apresentar os ponteiros em laranja fluorescente, os quais se destacavam sobre o mostrador negro, oferecendo-lhe um ar desportivo até então inédito – e que em seguida foi copiado por quase todos os fabricantes de prestígio. Mas o mais importante é que este cronógrafo era do meu pai e que ele fez questão em oferecer-mo quando fiz 30 anos. Possivelmente o mesmo que irei fazer com o meu filho, quando ele chegar à mesma idade.
 

3 – Heckler & Koch HK270

 

 
Desde muito novo que gosto de automóveis, aviões caminhos-de-ferro e armas de todos os estilos. Por isso, quando terminei o SMO e comecei a ganhar algum dinheiro, a primeira compra importante que realizei foi uma carabina semi-automática Heckler & Koch HK270 de calibre.22, numa altura em que as regras eram muito menos draconinanas que na actualidade. Ou seja, diverti-me imenso em sessões intermináveis de tiro ao alvo e nas inúmeras experiências que realizava, como por exemplo, rebentar melancias com munição de ponta oca. Hoje é apenas uma peça de colecção, reminiscência de tempos que já não voltam.
 

4 – O “dossier”

 

 
Quando era miúdo, o meu tio Armando fazia parte da equipa de reportagem que o Rádio Clube Português enviava às 24 Horas de Le Mans. E todos os anos me contava histórias fantásticas e me trazia recordações inéditas. Uma delas foi este “dossier”, com as fichas de inscrição de todos os carros que participaram na edição de 1971. Fichas essas que eu praticamente decorei de uma ponta à outra. Por isso, ainda hoje essa edição das 24 Horas seria uma das que eu mais gostaria de ter assistido. E o “dossier” constitui uma das recordações relacionadas com desporto automóvel que preservo com maior estima.
 

5 – Livro “Time and Two Seats”

 

 
Todas as religiões têm o seu livro sagrado. Entre os aficionados das provas de endurance o livro mágico chama-se “Time and Two Seats” e conta tudo, mesmo tudo, sobre as provas de endurance internacionais disputadas entre 1953 (início do campeonato do mundo) e 1998 (data da edição da obra). Na realidade a obra divide-se por dois grandes livros que se vendiam em conjunto. E, gentilmente oferecida pela Mitó (que obviamente viria a ser minha Mulher) não só tenho a obra como ainda vim a conhecer o autor, János Wimfen, uma personagem verdadeiramente especial, não só pelo raro sentido de humor como por um conhecimento da matéria, com o tamanho do mundo
 

6 – Miniatura Porsche 919 Hybrid

 

 
Colecciono miniaturas de automóveis à escala 1/43 desde muito novo, tendo reunido umas largas centenas de peças, na sua maior parte representando carros que competiram nas 24 Horas de Le Mans e/ou no Campeonato Internacional de Construtores (actual FIA WEC). É por isso muito difícil escolher uma peça favorita entre o grupo das que estão no topo das minhas preferências. Mas este Porsche 919 Hybrid – que representa o vencedor das 24 Horas de Le Mans de 2015 – poderia ser o eleito, por três razões:
Marcou o regresso da Porsche aos triunfos em Le Mans, marcou a primeira vez que fomos fazer os comentários do Eurosport em directo do circuito (com o meu amigo e companheiro João Carlos Costa) e foi o carro mais impressionante que vi rodar em muitos anos de paixão pelas corridas. Um misto caça do futuro com “dragster” do passado. Impressionante e lindo de morrer. Aqui, exposto em cima da lista oficial de inscritos da edição de 2015 (bem mais completa e colorida que a de 1971…)
 

7 – Avião Mc Donnell Douglas F4B Phantom II

 

 
Como escrevia o Eng. Eurico da Fonseca, as mais belas peças de design industrial que o homem criou serão os aviões de caça e os sport-protótipos de Le Mans. Talvez por isso goste tanto de ambos e os coleccione compulsivamente desde novo. Ao longo da vida terei montado algumas dezenas de aviões, a maioria da segunda Guerra Mundial, mas também alguns aparelhos a reacção. Na sua maioria sucumbiram pelo caminho, vítimas das investidas das empregadas da minha mãe e dos seus temíveis espanadores. No entanto, teimoso como sou, nos últimos 20 ou 25 anos fui reconstruindo uma colecção com cerca de 60 exemplares de aeronaves de diversas épocas, agora devidamente resguardadas dentro de vitrinas. Entre estas, têm lugar os três únicos aviões que sobreviveram completos à difícil vida em casa dos meus pais, dos quais destaco este Mc Donnell Douglas F4B Phantom II que montei em 1977 para uma exposição de fim de ano na Escola Secundária da Parede (o tempo voa…).
 

8 – Locomotiva

 

 
Nasci numa casa onde já existiam comboios da Märklin. Por isso toda a vida coleccionei (e brinquei) com comboios em miniatura à escala H0. Mas só em meados dos anos 80 é que consegui descobrir e começar a adquirir os modelos que me encantam verdadeiramente. Que é como quem diz, as pequenas locomotivas, carruagens e vagões da Escala H0e, na realidade da mesma escala dos anteriores Märklin, mas reproduzindo material de via estreita, normalmente associado a linhas secundárias, mineiras ou industriais. A minha verdadeira paixão ferroviária. Na foto, a minha locomotiva a vapor favorita. Não é a mais perfeita, nem sequer é muito exacta na reprodução (julgo que se inspira num modelo indústrial da Orenstein & Koppel) mas acho que é uma gracinha e roda muito bem na sua pequena linha com 9 mm de bitola.
Ao que se soma a vantagem das maquetes para rodar com este material caberem em qualquer lugar…
 

9 – Fuji GA645

 

 
Comecei a fotografar relativamente cedo, mas apenas comecei a preocupar-me verdadeiramente com a qualidade quando comecei a colaborar com a revista Casa & Decoração. Assim, durante alguns anos, boa parte do dinheiro que auferia era reinvestido em equipamento fotográfico que – além da função profissional – usava alegremente para fotografar pessoas, comboios, barcos, automóveis de competição, aviões e aves (talvez o mais difícil) resultando num arquivo com milhares de fotos em papel e outros tantos diapositivos.
Uma das máquinas mais originais que adquiri foi esta Fuji GA645, que tinha a particularidade de ser a única máquina de médio formato que existia na época, com autofocus. Relativamente pequena e leve, era a peça ideal para reportagem profissional e, por isso, acompanhava-me sempre que saia em passeio, a par da inseparável Nikon F-90X.
 

10 – Porsche 944 S

 

 
Depois de ter sonhado toda a vida com as produções de Zuffenhausen e de muito ponderar sobre o tema, um dia, no começo na década de 2000, passei na Sportclasse e soube que tinham para venda um modelo parecido com um dos Porsche que desde jovem mais mexia comigo. Ou mais exactamente, desde que Jürgen Barth tinha alinhado com o seu 924 Carrera GTS vermelho no Rali de Monte Carlo de 1982. Neste caso não era um 924 mas sim um 944 da versão S já com o motor de 190 cv. Chegando a casa, comentei a descoberta com a minha mulher referindo o “timing” errado. Ela estava grávida do nosso segundo filho e estávamos no processo de aquisição de uma carrinha Subaru Impreza para encaixar a tralha suplementar que se anunciava. Mas, como sempre, a resposta da Mitó foi surpreendente: “Esqueçamos a carrinha. Encaixamos as coisas todas no outro carro. Vamos cumprir o sonho e comprar o Porsche!”
E assim ganhámos um novo membro da família e a peça favorita entre todas as que aqui apresentámos. Na actualidade é um clássico de pleno direito, encontrando-se como novo e devidamente certificado pelo Museu do Caramulo.



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Li com todo o gosto, desfrutei com “!facilidade” os prazeres do meu Amigo. Grande Abraço.