A Fórmula 1 que amávamos

Clássicos 06 Fev 2019

A Fórmula 1 que amávamos

Por Irineu Guarnier

A cada primeiro de Maio, os fãs do automobilismo no mundo inteiro relembram, com tristeza, o inacreditável acidente no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, que tirou a vida de um dos mais espetaculares pilotos da Fórmula 1.

 

Hoje, não restam dúvidas sobre o que causou a saída de pista da Williams, na curva Tamburello, nem sobre o que matou o mágico Senna. Uma emenda precária na barra de direção, feita às pressas pouco antes da corrida, não suportou a violenta carga G lateral da curva de alta velocidade e quebrou. Sem direção, o carro de Senna passou reto na Tamburello e se chocou em ângulo fechado com uma parede de concreto, a mais de 200 km/h. Um braço da suspensão dianteira se soltou, atravessou a viseira do capacete, e perfurou a têmpora do piloto como uma lança. Morte quase instantânea diante das câmeras de TV.

 

Senna morto, a F1 nunca mais seria a mesma. Foi o fim da era de pilotos audazes e românticos, como Juan Manuel Fangio e Gilles Villeneuve. Nem o “extraterrestre” Michael Schumacher, com seus sete impecáveis campeonatos, conseguiu ofuscar o brilho do tricampeão brasileiro. Poucos grandes nomes surgiram após a Era Schumacher. Só mais recentemente novos talentos, como Sebastian Vettel, Lewis Hamilton e Max Verstappen reanimaram um pouco a F1.

 

Pessoalmente, sempre gostei mais de Nelson Piquet do que de Senna. Talvez pela irreverência de Piquet, do seu jeitão desencanado de bon vivant, mais chegado aos prazeres da vida. Mas, claro, também pela sua extraordinária sensibilidade para acertar um carro de corrida, sua inteligência ao volante, e por ultrapassagens sensacionais. Como a que impôs ao próprio Senna, naquele inesquecível GP da Hungria de 1986. Pista travada, sem pontos de ultrapassagem, Piquet jogou seu carro de lado, à frente do de Senna, no final da reta, como se fosse um kart, e foi-se embora.

 

 

Mas também jamais esquecerei os grandes momentos de Senna – principalmente na chuva. Estou lembrando da “volta mágica” de Donington Park 1993. Ele realmente foi demais. Mas, sua obsessão quase religiosa pela vitória nunca me pareceu muito, digamos, saudável. Nem a mim, nem a um de seus grandes amigos, o médico que atuou na F1 entre 1978 e 2005, Dr. Sid Watkins (falecido em 2012).

 

Conta-se que um dia, após uma corrida em que Senna fazia volta mais rápida sobre volta mais rápida, já muito à frente do segundo colocado, o Dr. Watkins teria aconselhado ao brasileiro que, para vencer, não fazia diferença colocar 10 segundos ou apenas 1 sobre o segundo colocado. Seria mais inteligente correr o suficiente para chegar em primeiro lugar, apenas. Sem correr riscos desnecessários. Claro que Senna não lhe deu ouvidos. Hoje, os dois amigos devem sorrir, melancólicos, ao lembrarem desta conversa em alguma outra dimensão, na qual nada mais pode feri-los.

 


Irineu Guarnier Filho é brasileiro, jornalista especializado em agronegócios e vinhos, e um entusiasta do mundo automóvel. Trabalhou 16 anos num canal de televisão filiado à Rede Globo. Actualmente colabora com algumas publicações brasileiras, como a Plant Project e a Vinho Magazine. Como antigomobilista já escreveu sobre automóveis clássicos para blogues e revistas brasileiras, restaurou e coleccionou automóveis antigos.


TAGS: Ayrton Senna Fórmula 1 Gilles Villeneuve Juan-Manuel Fangio Lewis Hamilton Max Verstappen Michael Schumacher Nelson Piquet Sebastian Vettel


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