Cápsulas do Tempo: Bugatti Type 57 SC Atlantic (Parte III)

Clássicos 29 Jan 2019

Cápsulas do Tempo: Bugatti Type 57 SC Atlantic (Parte III)

Por Pedro Pais Cardoso

Na terceira parte do artigo que dedicamos ao Bugatti Type 57 SC Atlantic, e cuja segunda parte poderão revisitar aqui, debruçamo-nos sobre o chassis n.º 57473 que é seguramente o que mais controvérsia tem levantado ao longo dos anos. Para os puristas da marca, devido às alterações que sofreu desde a sua construção até aos dias de hoje, é unanimemente considerado o menos original dos três Atlantic sobreviventes.

 

A história deste veículo ficou indelevelmente marcada pelo acidente que sofreu numa passagem de nível em Gien, França, corria o ano de 1955.

 

Recuando um pouco no tempo, este terceiro Atlantic foi encomendado por Jacques Holzschuch em 1936, e por ele foi recolhido da fábrica em Dezembro desse mesmo ano.

 

Na primavera do ano seguinte partiu de Paris onde residia, acompanhado pela sua mulher, a Sra. Yvonne Holtzschuch, aos comandos do seu Atlantic, tendo como destino a Riviera Francesa, onde participou no Concurso de Elegância de Juan les Pins.

 

A fotografia que se segue foi captada nessa ocasião, onde podemos observar a Sra. Holtzscuch em frente ao Atlantic, galardoado com o Grande Prémio de Honra daquele certame.

 

 

O veículo ficou na família Holtzschuch até 1952, porém, durante aquele período, o Atlantic sofreu alterações estéticas, atribuídas à Figoni et Falaschi – carroçadores franceses de enorme renome naquela época – bem como mecânicas, com a introdução de um turbocompressor em 1939, neste caso, pelos artesãos da fábrica, em Molsheim.

 

É aqui que começa a discórdia quanto à originalidade deste terceiro Atlantic, já que, são notórias as diferenças estéticas em contraponto com a sua configuração original, nomeadamente na parte traseira do veículo, bem como ao nível da cor e interior do veículo.

 

Originalmente, este terceiro Atlantic de produção era preto com um interior de pele de porco bege. Em 1951 quando surge novamente numa prova em Nice, o mesmo estava já pintado de azul, cor utilizada pelos franceses nos veículos de competição.

 

O automóvel não só tinha sido repintado, mas também sofrido um restyling, por dentro e por fora. Estas alterações, de acordo com os historiadores da marca são atribuídas à Figoni et Falaschi a quem eram frequentemente encomendados projectos de carroçarias por algumas marcas protagonistas daquela época, Delage, Delahaye, e também Bugatti.

 

Embora não haja registos na empresa que indiquem ter sido um trabalho efectuado pela Figoni et Falaschi, já que os trabalhos de personalização não eram registados, há traços distintivos daqueles artistas que indicam ter sido obra dos mesmos, nomeadamente as tampas das rodas e certos elementos do tablier.

 

Em 1952 o Atlantic é vendido a René Chatard, um entusiasta da marca e proprietário da conhecida boutique “Fashionable” em Paris.

 

 

O Sr. Chatard era um bon vivant, proprietário de três outros Bugatti, e à época da aquisição regista o veículo em nome da sua amante, a Sra. Béatrice Schneider, quiçá para esconder a compra de mais um automóvel, da sua mulher e filha.

 

O que sabemos ao certo é que, no dia 22 de Agosto de 1955, o Sr. Chatard, acompanhado por outra companhia feminina, de seu nome Jeanine Vacheron (fotografia seguinte), sofre um aparatoso acidente contra um comboio em andamento. O acidente ocorreu numa passagem de nível sem guarda perto de Gien, França, tendo resultado na morte de ambos os ocupantes, bem como na destruição quase completa do famoso Atlantic.

 

 

Até que fossem apuradas responsabilidades sobre o acidente, o que restava do Atlantic foi imediatamente apreendido pela polícia local de Gien e reservada num armazém dos caminhos-de-ferro da localidade.

 

A culpa pelo acidente foi atribuída a René Chatard, porém, ao longo de oito anos correu outro processo que visava solucionar a titularidade do veículo, neste caso entre a legítima esposa do falecido e a Sra. Béatrice Schneider (em nome da qual o mesmo foi registado). As instâncias judiciais decidiram, por fim, em favor da última e, no ano de 1965, o que restava do veículo foi finalmente adquirido pelo Sr. Paul Andre Berson, um famoso coleccionador da marca.

 

O Sr. Berson procedeu à reconstrução do veículo, optando por substituir as peças danificadas pelo acidente, guardando, no entanto, as originais, para que as pudesse utilizar num outro projecto que o mesmo desenvolvia em paralelo.

 

O processo de restauro do Atlantic demorou cerca de uma década e, assim que concluído, foi vendido a outro coleccionador, o Sr. Nicolas Seydoux, corria o ano de 1977. O Sr. Seydoux, por sua vez, e enquanto proprietário do Atlantic, encomendou um outro restauro a André Lecoq, outro famoso carroçador francês.

 

É em face destes consequentes “enxertos” sofridos pelo chassis n.º 57473, que os puristas da marca afirmam não se tratar já de um veículo original, proibindo o mesmo de se candidatar a concursos tão exigentes e exclusivos quanto o Amelia Island nos Estados Unidos ou  Villa d’Este em Itália.

 

Como referimos, o Sr. Berson guardou algumas peças danificadas do Atlantic original, para que as pudesse posteriormente recuperar ou reconstruir de acordo com as especificações, e utilizar as mesmas na recuperação de outro veículo. Felizmente essas peças e painéis danificados foram posteriormente adquiridas pelo actual proprietário para que fossem adicionadas ao Atlantic, aquando do último restauro de fundo efectuado em 2010 pela conceituada oficina de Paul Russell em Massachusetts e cujo resultado final podemos apreciar nas fotos que se seguem.

 

 

Independentemente das questões de originalidade que impendem sobre este automóvel, sou da opinião – desculpem-me os puristas da marca – que os trabalhos de recuperação realizados sobre este terceiro Atlantic, permitiram só por si, que o mesmo sobrevivesse ao longo de oito décadas, e que ainda hoje o possamos observar como uma das belas obras de Art Decó automotiva.

 

 

No próximo e último artigo que dedico ao modelo irei contar a história do último Atlantic produzido, talvez o mais conhecido dos quatro, e que continua a ser a piéce de resistance da fabulosa colecção do seu feliz proprietário, o estilista americano, Ralph Lauren.


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