De Lisboa ao Cabo Norte: A poucos quilómetros do objectivo

Clássicos 03 Jan 2019

De Lisboa ao Cabo Norte: A poucos quilómetros do objectivo

Por Rui Pedro Albuquerque

Olho para o relógio e decido que é tempo de retomar a viagem. Continuo a melhorar do pé e decido tomar as rédeas da condução. O GPS manda-nos sair da Suécia, entrar na Finlândia, e subir por uma estrada paralela à fronteira sueca. Abandonamos assim o Mar Báltico e vamos quase a 100% em direcção a norte… assim é que é, em direcção ao objectivo!

 

 

Entretanto, e como já deve estar perto, começamos a pesquisar por onde passa o Círculo Polar Árctico… é o ponto onde no Solstício de Verão os raios de Sol chegam directamente, não apenas a sua claridade. Está realmente perto e atingimos esse marco ainda antes de almoço. Junto à estrada há placas e um monumento alusivo ao facto. Paramos para tirar a foto da praxe e atrás de nós param outros automóveis e motas. Existe um traço pintado no chão no ponto onde passa o Círculo e toda a gente quer tirar fotos em cima dele. É realmente um sítio cheio de simbolismo que não passa despercebido a quem não é destas bandas. 

 

 

É claro que também tem uma loja de recordações, com coisas desta zona tais como carne de rena, peles, casacos, luvas, etc, tudo feito com pele de rena. Por aqui é um animal abundante tanto no estado selvagem como em criação e é perfeitamente legal e normal matá-las para serem usadas não só para alimentação mas também todo o tipo de artefactos. Até fazem mini-esculturas dos ossos, sendo depois usadas como porta-chaves! Fico com os olhos numa pele, é linda, sedosa, e uma oportunidade única de ter uma verdadeira pele de rena, mas consigo resistir.

 

 

Chego cá fora e vejo dois italianos de volta dos autocolantes da Espace. Vieram de mota e também se dirigem para o Cabo Norte. Isso relembra-me que ainda falta bastante. Arrancamos. Ainda tenho esperança de hoje ficarmos perto do objectivo. A estrada é boa, com pouco trânsito, com muitos radares mas todos com aviso. Reparamos que a vegetação tem uns aglomerados de árvores mas de resto é bastante rasteira. Quero avançar o mais possível mas começamos a ver que o cansaço começa a vencer a luta e que o melhor é arranjar um sitio para dormir, visto que a ultima noite foi passada na Espace. Depois de filtrar os preços incomportáveis típicos da zona descobre-se um sitio onde até se consegue ficar. É num camping no meio do nada mas junto a um lago.

 

 

Ficamos instalados numa cabana de madeira a dez metros do dito lago. Quando pergunto pelo wi-fi o dono do camping vira-me as costas, vai buscar um router, e entrega-mo ao melhor estilo português: “desenrasca-te”!  Depois de atravessar uma cortina cerrada de mosquitos, vamos jantar no interior da cabana.

 

No final, o nosso fotógrafo de serviço, o Ricardo, resolve ir tirar umas fotos lá fora, seguido pela Sandra. Pego no telemóvel, visto uma t-shirt, e saio para apreciar e tirar fotos. Quando passo pela porta sinto que a temperatura é a que estamos habituados nas noites mais frias de Inverno! Estava fascinado pelo ambiente, com o sol a brilhar no horizonte e completamente espelhado no lago, mesmo passando da meia-noite! Completamente surreal!

 

 

Lá fora está um Sol do melhor e não é nada fácil adormecer. Mas embalados pela Internet e ajudados pelo cansaço lá acabamos por conseguir.

 

Acordamos tarde, e quando nos aventuramos na muralha de mosquitos vemos que o tempo está nublado e portanto com muito menos luz ás 9h00 do que estava às 00h30… olhamos uns para os outros, encolhemos os ombros e seguimos viagem. Se tudo correr bem, esta é  a nossa ultima etapa antes de atingir o Cabo-Norte. Estamos a mais de 300 quilómetros, peanuts para nós! Resolvemos passar por Alta, a ultima cidade grande antes do cabo. A caminho reparo que simplesmente não há nada nem ninguém; não há casas, não há qualquer trânsito, podemos andar 15-20 minutos sem ver qualquer outro carro! É espectacular a sensação de comunhão com a natureza mas também grande a solidão e o receio de falta de apoio se algo acontece…

 

 

Chegamos a Alta, uma cidade como qualquer outra tirando o facto de ser a junção de duas rotas de viajantes para o Cabo-Norte: a nossa-quem vem mais a sul, e a quem vem por Oslo e continua pela costa norueguesa, típica pelos seus incontáveis fiordes. À saída da cidade fico todo contente: pela primeira vez vejo uma placa com a indicação do nosso objectivo e da distância que falta, 240 quilómetros.

 

Entretanto numa área de serviço um rapaz vem ter comigo e pede para lhe dar um encosto de bateria com cabo. É claro que vim prevenido, mas acho caricato um português com uma carrinha com quase 30 anos estar a ajudar um norueguês na sua terra natal a pôr a trabalhar o seu automóvel semi-novo. Se calhar é normal eu estar mais preparado devido à dimensão da viagem e à antiguidade da viatura. Depois de estar desenrascado e de olhar para os autocolantes da Espace dá-nos conselhos para o resto da viagem. Alerta-nos principalmente para a presença quase certa de chuva e de muitas renas na estrada.

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