Renault 4CV: O utilitário do pós-guerra

Clássicos 26 Out 2018

Renault 4CV: O utilitário do pós-guerra

Por Adelino Dinis

Sendo o representante francês dos utilitários pós-guerra, o 4CV desempenhou o seu papel a par do Volkswagen, do Morris Minor e do Fiat 600, na reconstrução da Europa.

 

O Renault 4CV foi quase um projecto secreto durante a Segunda Guerra Mundial, levado a cabo por Fernand Picard e Edmond Serre, à revelia do próprio Louis Renault. A discrição era essencial também porque a França estava sob controlo alemão. Apesar disso, foi ao Volkswagen, projecto já iniciado antes da guerra por Ferdinand Porsche, que os técnicos franceses foram buscar inspiração, depois de abandonarem outras combinações da colocação do motor e tracção. Mais tarde, já na fase avançada de prototipagem, Ferdinand Porsche terá sido consultado sobre o projecto, mas não é muito provável que, nesta fase, a sua intervenção tenha condicionado o produto final.

 

Simples e eficiente

 

O Renault de que a França e os outros mercados tradicionais do construtor francês precisavam seria um modelo utilitário, com motor e tracção traseiras, quatro portas, quatro lugares e quatro cavalos fiscais, característica que obrigava a ter um motor de até 760 cc e que daria o nome ao modelo. Outras condicionantes decididas por Picard e Serre seriam relativas à velocidade máxima (80 km/h), caixa de três velocidades, 450 kg de peso e um comprimento total de 3,7 metros, limite que, na época, proporcionava custos mais reduzidos de estacionamento. O primeiro protótipo rodou em 1943 e Louis Renault não gostou. Mas, o seu tempo à frente dos destinos da marca com o seu nome estava contado. Após a libertação da França pelas tropas aliadas, Renault foi acusado de colaboracionista e morreu na prisão a 24 de Outubro de 1944, um mês depois de ser detido, quando se encontrava já bastante doente. Três meses depois, a Renault foi nacionalizada e a nova direcção, encabeçada por Pierre Lefaucheux daria luz verde ao 4CV.

 

Uma cor carismática

 

Foi apresentado em Outubro de 1946, naquele que foi o primeiro Salão Automóvel do pós-guerra. Ao princípio, não encantou o público – chamaram-lhe mesmo “motte de beurre”, que podemos traduzir por “Pacote de Manteiga”, mas tal era devido à cor amarela de algumas das primeiras unidades, pintadas com tinta que sobrou da utilizada em veículos militares para o deserto… Em pouco tempo, o 4CV mostraria que era, de facto, o modelo certo na altura certa, económico e muito fiável. A par do Citroën 2CV e do Peugeot 203, o “quattre pattes”, como era chamado no seu país de origem, foi um dos protagonistas da reconstrução da indústria automóvel francesa.

 

O 4CV declinou-se em versões diferentes, com níveis de acabamento também diversos, indo do Normale ao Grand Luxe, depois chegou o Sport. As versões para o trabalho, como o Comercialle (com vidros traseiros em chapa e sem bancos posteriores, para transporte de mercadorias) e Affaires, com revestimentos e equipamento simplificado. Mais tarde surgiu também uma versão Decouvrable, com tejadilho de lona, com base nas versões Luxe e Grand Luxe.

 

Motor com potencial

 

Quanto ao motor, inicialmente com 760 cc, passou para 748 cc, a partir de Outubro de 1950. O motivo era poder participar em competições na categoria de até 750 cc. De início, a potência era de 17 cavalos e a velocidade máxima era de 90 km/h. Em Fevereiro de 1949 o tejadilho passou de direito a arredondado, com vantagem estéticas, mas também aerodinâmicas. Em 1950 dá-se a redução de capacidade do motor, mantendo a potência nas versões Normale e Luxe, mas subindo para 21 cavalos no Grand Luxe, permitindo uma velocidade máxima de 100 km/h. É também por esta altura que surgem os primeiros exemplares da raríssima série 1063. A designação é uma evolução lógica dos tipo 1060 e 1062, as designações dos modelos de série. O 1063 for produzido para a competição, com dois amortecedores por roda atrás e motor com 32 cavalos. Fizeram-se apenas 80 exemplares.

 

Em 1951, os amortecedores de alavanca foram substituídos por amortecedores telescópicos. A partir de 1952 passam a existir apenas duas versões: Affaires e Sport. Em 1954, a secção dianteira com seis barras passa a contar apenas com três. E somente uma, no 4CV Affaires. Todas as versões dispõem agora do motor de 21 cavalos.

 

31 anos de carreira

 

Em 1956 chega um novo tablier e surge a embraiagem automática Ferlec, em opção. Em 1958 as bonitas jantes em estrela são substituídas por jantes de prato pleno do Dauphine. A potência passa para 26 cavalos, o que permite uma velocidade superior aos 100 km/h. Em 1960 chega a caixa de velocidades mais evoluída do Dauphine. Em 1961 chegou ao fim a produção do Renault 4CV, depois de 1 089 918 exemplares. O 4CV foi ainda produzido na América do Sul (Argentina) e no Japão, através da Hino, sob licença da “Régie”. O 4CV foi o primeiro automóvel francês a atingir o milhão de unidades e lançou a base para uma longa série de modelos Renault “tudo atrás”, do Dauphine aos Renault 8 (e 10), cuja carreira só terminou em 1977, 31 anos após o lançamento do “Joaninha”. Curiosamente, com a nova geração Twingo, com motor e tracção traseiros, a Renault criou um interessante sucessor do 4CV. Mas com motores de três cilindros…

 

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Uma curiosidade: no Brasil o 4CV ganhou o apelido de Renault ‘Rabo Quente’, por causa do motor traseiro.