De cabelo ao vento num Lamborghini de 640 cavalos

Modernos 03 Ago 2017

De cabelo ao vento num Lamborghini de 640 cavalos

Por Hélio Valente de Oliveira

Inicialmente pensei por como título “On days like these… part III”. Mas antes que comece a procurar a parte I e II não o faça… não existem no Jornal dos Clássicos. O título prende-se com o facto deste Lamborghini ser a terceira variação do Murciélago que experimentei. Confesso que estava algo curioso por uma razão muito simples: embora seja um aficionado de roadsters, nunca encarei com bons olhos estas variantes abertas de supercarros. Sempre achei que o facto de serem abertos lhes poderia induzir algumas características dos descapotáveis mais mundanos, como vibrações e torções de carroçaria, características nada benéficas para automóveis com performances muito elevadas. O facto de a pureza de um coupé ser algo diluída é mais fácil de digerir, como vamos ver mais à frente…
 
A Lamborghini realizou um trabalho admirável nos reforços estruturais do Murciélago para esta versão sem capota. Ao que parece, a fatia de leão de tal integridade é a estrutura que existe no compartimento do motor. Uma peça bipartida única, com braços em fibra de carbono, que trava completamente o chassis, precisamente na zona mais crítica.
 
…e “sem capota” é a expressão correcta. Este automóvel foi pensado e construído para puristas, para ser sempre utilizado aberto. A única defesa que oferece, em caso de chuva, é uma capota de lona muito rudimentar que serve apenas para alguma protecção muito marginal. Os ingleses apelidaram-na de “guarda-chuva” e, de facto não passa disso. Aliás, a marca não aconselha velocidades acima de 160 km/h com este artefacto montado. Mas isto é detalhe.
 
O que interessa é que o Murciélago Roadster não perdeu rigidez estrutural e o prazer de condução, que toca a raia do vício, está intacto quiçá acrescido por um pormenor com muita importância: o facto de ser aberto permite aos ocupantes desfrutarem dos dotes vocais deste magnifico V12, ainda mais do que no Coupé! Se neste já é de um volume muito considerável, no Roadster é elevado à enésima potência e ouvimos todos os pequenos detalhes, como as pequenas detonações em desaceleração e o célebre urro que este V12 consegue produzir quando sobe de regime. É glorioso, para ser comedido nos adjectivos…
 
Em estrada é tão competente como o Coupé, ou seja, é fora de série. Não se nota qualquer decréscimo de potência ou prestações, apesar dos cerca de 100 kg a mais, com certeza ajudado pela muita generosa dose de binário disponível que este propulsor consegue produzir. É de facto impressionante, quase inédito arriscaria, como um motor que faz 8000rpm consegue ter tal docilidade e disponibilidade a baixas rotações. A unidade ensaiada estava dotada da caixa de seis velocidades E-Gear, que permite “sentir” o trabalho das engrenagens nas mudanças de velocidade, não é completamente asséptica como algumas outras…muito Lamborghini!
 
Como objecto de colecção faz todo o sentido. Embora não se possa dizer que um Murciélago seja comum, foi um êxito de vendas tendo sido produzidos mais de 3000 unidades na variante Coupé e menos de 900 Roadsters. Parece-me uma escolha óbvia.
 
Agradecemos a José Artur e José Manuel Campos Costa pela viatura disponibilizada.
 


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