“Rush” ou a conversão de novos fiéis

LifeStyle 21 Out 2013

“Rush” ou a conversão de novos fiéis

Por Pedro Branco

Hoje em dia, nós, adeptos do desporto automóvel, queixamo-nos que as bancadas dos autódromos estão às moscas. Mais deprimidos ficamos quando se fala com alguém que não partilha do mesmo credo e constatamos que essa pessoa não sabe o nome do campeão do mundo em título. Claro que se falarmos em Schumacher, Prost, Piquet ou o sacrossanto Senna, irão logo responder “ah sim, pois, esses é que eram tempos, grandes pilotos e tal”. Não é bem assim.
 
Os tempos mudam mas o essencial da competição está lá, sobretudo com os actuais incentivos à ultrapassagem como o KERS e o DRS a permitirem maior espectáculo e os realizadores de televisão a serem muito mais argutos que os seus colegas dos anos 80 e 90.
 
Contudo, com o fim da transmissão da F1 em canal aberto, os portugueses ouvem falar desta categoria mais “lá ao fundo” (isto para não falar de outras modalidades automobilísticas). Daí que, se ainda forem a tempo, levem o marido, mulher, filhos, amigos, pessoas que não liguem nenhuma aos carros de corrida, a uma sala de cinema para ver “Rush” (se já não forem a tempo, haverá sempre o DVD/Blu-ray…).
 
Este filme é uma excelente oportunidade para todos! Para nós que ouvimos falar, lemos os relatos (uns contemporaneamente, outros anos depois), assistimos na TV em directo (bem hajam aqueles que o puderam fazer em 1976) e vimos clips e documentários no Youtube, havia a curiosidade de ver como é que se iria transpor para o grande ecrã aquela época. Sim, que o automóvel tem sido algo maltratado em Hollywood, como se pode ver pelos inúmeros “Velocidade furiosa” e “Driven” o filme produzido por Sylvester Stallone sobre a F. Indy, depois de não ter conseguido avante com o projecto de fazer algo sobre a F1 (e depois de se ver “Driven, podemos concluir que ainda bem).
 
Felizmente que Ron Howard, realizador de créditos firmados (“A beautiful mind”, “Cinderella man”, “Frost/Nixon” e o argumentista Peter Morgan (“The Queen”, “Frost/Nixon”) souberam ir pelo exemplo dos clássicos de corridas na sétima arte, “Le Mans” e “Grand Prix”, focando a atenção no âmago das motivações de cada um dos personagens principais. Ambos os actores conseguem transmitir os sentimentos que todos julgamos inerentes a James Hunt e Niki Lauda. No caso do britânico, a exuberância o “swagger” e a perspectiva aberta do risco e no que se refere ao austríaco, o calculismo, a frieza e a concentração. De ressalvar que tinha muito medo da prestação de Chris Hemsworth enquanto Hunt, um pouco por força do seu historial de filmes, mas o australiano surpreende positivamente! Já Daniel Brühl teve a sorte de poder interagir com Niki Lauda para melhor construir o seu personagem, e fez render ao máximo essa experiência (não faltando já comentários a referirem a enorme semelhança entre os dois), com uma performance digna de galardões.
 
Quanto às restantes personagens, especial destaque para Alexandra Maria Lara a conseguir dar um forte dimensão humana a Marlene Knaus, a companheira, à altura dos acontecimentos, de Niki Lauda. É giro ver também os “bonecos” de Suzi Miller (Hunt(Burton)),do excêntrico lorde Hesketh, de Bubbles Horsley, Clay Regazzoni, Louis Stanley ou Alistair Caldwell.
 
OK, está visto que para os aficionados é bom, seja pela maneira como as personagens remetem para o imaginário que temos delas, quer pelas cenas de corrida, de uma coreografia irrepreensível e uma fotografia a acompanhar (especial destaque para o chuvoso GP do Japão). Então e aqueles que vinham connosco ver o filme sem perceber grande coisa destas corridas velhas?
 
Dá para eles também. A velha vontade humana da superação dos limites está lá, de forma ousada ou calculada, a sede de vitória está presente, mesmo o próprio amor e as inseguranças que arrasta também e as cadências de corrida conseguem preencher a sede de emoção de um habitual frequentador de salas de cinema. Ou seja, é a velha premissa: se a história é boa, todos gostam de ouvi-la (e vê-la).
 
Portanto, no final do filme, os seus leigos companheiros de sessão vão perguntar: “foi mesmo assim?”, “o Hunt era mesmo garanhão?”, “o Lauda mandou mesmo a família dar uma volta?”. O interesse ficou lá, agora é só trabalhá-lo. Vamos todos ser evangelistas do desporto automóvel, com este filme a seguir-nos de guia espiritual introdutório.
 
Há umas quantas imprecações factuais (por exemplo, Lauda e Hunt nunca correram juntos na F3, e é mostrado que Lauda entra para a F1 com a BRM) , mas nada que comprometa a história, não se preocupem.
 
Veja o trailer do filme em baixo.



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