Até choras para andar de Lambretta

Clássicos 05 Abr 2013

Até choras para andar de Lambretta

Este era a frase que mais se ouvia quando a Lambretta foi lançada nos anos 50. Com opções de crédito que até então nunca tinham sido apresentadas, a marca criada por Ferdinando Inoccenti, depressa se intrometeu na luta pela primeira posição no sector das scooters. O modelo LD, apresentado inicialmente em 1951, foi um dos responsáveis pela fama da casa italiana.

Parece que é em Itália que se escreve as linhas mestras da História da indústria motorizada e que foi aproximadamente há coisa de cinquenta anos que as grandes marcas transalpinas começaram a despoletar, em parte devido ao término da Guerra. Foi o caso da Ferrari na região dos Apeninos, da Vespa em Pontedera e da Lambretta na região metropolitana de Milão, depois de estar sedeada em Apuania. No entanto, se a marca fundada por Enzo Ferrari sempre serviu uma linha mestra orientada essencialmente para os automóveis e a competição, já a Piaggio teve que alterar a sua posição, o mesmo sucedendo com a sua congénere Inoccenti que passou a ter em meados da sua história a Lambretta como principal fonte de receita. Era a altura em que a guerra tinha terminado e que as pessoas procuravam novas formas de mobilizar-se condignamente, deixando de lado as desconfortáveis e cansativas bicicletas. Ferdinando Innocenti já se tinha inteirado do mundo industrial, quando em 1942 a sua fábrica de tubagens estava no auge da produção. Porém, quando a Inoccenti empregava cerca de 500 operários, o funcionamento da plataforma industrial era assegurada pelo Ingenheiro Alberto Calmes.

O pós-guerra

A Itália no período pós-guerra estava devastada, em termos de infra-estruturas. No entanto, a vontade geral de retomar a vida quotidiana fez com que o país das três cores revigorasse rapidamente. Na mente de Inoccenti estava a criação de um veículo de baixo custo, dirigido essencialmente à classe trabalhadora, uma vez que as prioridades logísticas deviam ser dadas a estes. A ideia de criar uma scooter não foi completamente proveniente da mente de Innocenti, já que este italiano tinha ficado maravilhado com as pequenas scooters que eram lançadas de pára-quedas pelas tropas britânicas. Denominadas de “Welbikes”, estes pequenos veículos eram lançados de aviões em pequenos tubos cilíndricos, de modo a que os soldados pudessem se deslocar nos terrenos de guerra, ao mesmo tempo que se encurtavam as distancias.
No entanto, as ligações de Innocenti ao universo das grandes indústrias siderúrgicas continuavam a valer mais alto e as suas intenções quanto ao projecto inovador de mobilidade urbana conheceu alguns retrocessos. Mesmo assim, Ferdinando Innocenti realizou diversos contactos para desenvolver a sua máquina. Uma das personalidades abordadas foi Corradino D’Ascanio, que, devido a visões técnicas contraditórias às de Innocenti, não se integrou no projecto da Lambretta. Veio mais tarde a ser o mentor do desenvolvimento da Vespa, uma criação da Piaggio, que se viu também obrigada a abandonar o fabrico de material bélico e de aviação, optando assim também por entrar no capítulo dos transportes.

Início atribulado

As primeiras versões da Lambretta foram apresentadas aquando da Exposição de Paris: tratava-se de duas scooters e um veículo tipo de carga, que mais tarde veio a dar origem ao Lambro. Nesta altura, a Lambretta contava com diversos agentes espalhados por 33 províncias e o certame francês recebeu qualquer coisa como 3.300 encomendas da nova scooter. Estas deveriam ser entregues até Março de 1948, já que a unidade fabril estava a funcionar em pleno nos materiais de construção de alumínio e de fundição. No entanto, a vertente económica da Inoccenti não estava famosa, apesar de ter recebido 100 mil dólares de um banco americano.
Porém, em vez das 150 unidades de Lambretta que deveriam ser construídas diariamente, a cifra não ultrapassava as 10 unidades. Tudo devido a uma má gestão de recursos e naturalmente de problemas financeiros. Valeu a astúcia de Calbiani, para que a casa italiana atingisse os seus propósitos rapidamente e no final de 1948 a Lambretta M era fabricada a uma cadência de 80 unidades diárias. Entretanto a fábrica começava a conceber o modelo B, de modo a colmatar as falhas encontradas no pioneiro motociclo. Estes problemas incidiam essencialmente na frente, uma vez que a suspensão utilizada era satisfatória, mas não o suficiente para realizar grandes trajectos. Além do mais, a ausência da suspensão traseira era uma falha que tinha de ser rapidamente ultrapassada. Também o sistema de mudança de velocidades foi alterado. Do pedal de transição das mudanças de relação de caixa, passou-se a adoptar um sistema instalado no lado esquerdo do guiador. Ao mesmo tempo, as dimensões dos pneumáticos foram aumentadas de modo a conferir aos passageiros uma maior sensação de segurança.

A explosão

Com as diversas melhorias realizadas o longo da oferta da casa criada por Inoccenti, a Lambretta conseguiu sobreviver ao exigente mercado italiano e mesmo internacional. Estava instaurada a eterna guerra transalpina Vespa-Lambretta que deu origem ao movimento das scooters em massa um pouco por toda a Europa., tanto a nível comercial, como no plano desportivo.
Em Janeiro de 1951 são apresentadas as Lambrettas 125 C e a 125 LC, numa altura em que a fábrica planeava a construção de 60.000 scooters por ano, uma cifra que era a do dobro conseguida no ano anterior. Para isso a Innocenti teve que construir uma nova plataforma fabril, uma decisão que se veio a revelar como acertada pelos analistas da época, já que as rupturas de stock da casa transalpina não cobriam as exigências dos diversos mercados. Em Dezembro de 1951, por exemplo, a Lambretta toma a decisão de lançar os modelos D e LD, sendo que a primeira era vendida a um custo inferior, devido à simplicidade das suas linhas e acessórios. Note-se que o sucesso conquistado pelo modelo D levou a que a Innocenti produzisse 8.000 unidades daquela proposta por cada mês que passava. Falando uma vez mais em números, os registos revelam que a fábrica italiana lançava em 1952 para o mercado cerca de 96.000 scooters, dos quais 16.000 eram destinados à exportação.

Apresentada a LD125

A Lambretta LD 125 foi apresentada em Junho de 1951, numa altura em que a marca italiana estava já bastante enraizada no mercado internacional e que havia uma clientela fiel à casa italiana que estava agora definitivamente implantada em Milão. No fundo a LD não era mais do que o modelo D um pouco melhorado em diversos aspectos. Os engenheiros da casa italiana “vestiram” esta Lambretta com linhas mais elegantes, passando as medidas a serem de 960mm de comprimento. Também ao nível do propulsor as coisas foram revistas. No bloco com 123cc, habitam agora uns salutares 5hp que se expressam melhor às 4.800 rpm. Mas para isso foi necessário alterar o carburador desta unidade. Assim a LD 1ª série monta um Dell’Orto designado tecnicamente de MA18B2. Mas também o conforto é palavra de ordem, especialmente quando comparamos a LD com o modelo D. É que as suspensões dianteiras são agora do tipo forquilha, o que diminui consideravelmente as indesejáveis vibrações
Além, do mais, o sistema de mudanças é feito apenas através de um cabo tipo teleflex. De referir que apesar das parcas performances da LD125, em meados de Maio de 1953 contavam-se 78.468 unidades vendidas deste modelo nas cores cinzento e beije. Um ano mais tarde, surge a LD com 150cc de capacidade, em que o sistema de mudanças já é por cabos tipo tradicional e onde se nota mais a força do bloco motriz. A LD esteve em produção até 1957 com a Série III, altura em que a fábrica decidiu avançar com o projecto Li.

Lambretta LD 125 1953

Ficha técnica:
Ano: Junho 1951 – Novembro 1956
Produção Italiana : 131.665
Dezembro 1951 – Maio 1953 (1ª série) 53.197
Junho 1953 – Novembro 1956 (2ª série) 78.468
Capacidade : 125 cc
Refrigeração: forçada a ar
Diâmetro X Curso: 52 x 58 mm
Carburador Dellorto MA 18 B2 / MA 18 B3
Caixa de 3 velocidades – trocas na mão Teleflex
Potência: 3.8 cv às 4.600 rpm
Velocidade máxima: 70-75 km/h
Tamanho dos pneus: 4.00×8
Panela de freio em alumínio aletado
Capacidade do depósito: 6.3 litros. Reserva: 0.7 litros
Consumo 50 Km/l
Peso 85Kg
Comprimento médio 1.770 mm
Altura média 960 mm
Largura média 740 mm, com guiador
Cores da 1ª série: cinza e bege
Preço na época: 158.000 Liras

Texto e fotos: Classic Press Center/ TCA



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