Crónica de Francisco Santos: Os pioneiros Zborowski

Arquivos 24 Mai 2012

Crónica de Francisco Santos: Os pioneiros Zborowski

Não só da minha memória e/ou experiência como piloto, jornalista ou promotor deve viver esta crónica. O que interessa é dar a conhecer aos leitores algo novo. Pode até ser uma análise de crítica ou, como esta semana, curiosidades históricas graças à pesquisa daquilo que mais interessante torna a história – casos singulares e extraordinários.

Motor Maybach de 23 litros

O Conde polaco William Eliot Morris Zborowski, piloto da equipa oficial Mercedes nas Grandes Épreuves do início do século passado, casou com Margaret Laura Astor Carey, da influente e milionária família norte-americana Astor. Em 1903, teve um acidente fatal na rampa La Turbie, perto de Nice.
Depois da morte da mãe, em 1911, o filho Louis, então com 11 anos, tornou-se o quarto jovem mais rico do mundo (£11 milhões – na época – em depósitos, e propriedades que incluíam 2,8 hectares em Manhattam e vários quarteirões na 5ª Avenida, em New York). Essa enorme fortuna Louis usou nas suas duas paixões – automobilismo e comboios.
Concebido e fabricado por Louis e seu engenheiro e co-piloto Clive Gallop para a temporada de 1921, nasceu o – Chitty Bang-Bang – que mais tarde inspirou Ian Fleming a escrever o seu livro infantil “Chitty-Chitty Bang-Bang”, origem de um musical de Hollywood e da Broadway. Baseado num chassis Mercedes de 1907, com transmissão por corrente, e tinha um motor Maybach de 6 cilindros com 23 litros, de um bombardeiro alemão Gotha. Na sua estreia em Brooklands venceu duas corridas em que atingiu 162,14 km/h. Louis queria dar ao seu carro o nome de Cascara Sagrada, marca de um poderoso laxante da época, mas os organizadores de Brooklands não aceitavam tal nome… Mesmo assim o nome final não era menos inconveniente pois falado em inglês tinha semelhanças a um termo menos próprio e cheiroso, além do som do escape…
Já nessa época os engenheiros pensavam nas brechas dos regulamentos. Para favorecer o seu handicap, esta primeira versão do “Chitty” tinha quatro lugares.
Foi transformado para apenas dois lugares e comum novo radiador e escape passou a atingir 190 km/h. Depois de violento acidente foi reconstruído e
vendido aos filhos de Arthur Conan Doyle, famoso criador de Sherlock Holmes.

Chitty 2 a 4

Outras versões sucederam-se. O Chitty 2 não foi tão bem-sucedido. Com motor Mercedes, de avião, com 18,8 litros montado num chassis mais curto, foi também usado em Brooklands.
O Chitty 3 – o “Mercedes Branco” –, com motor 6 cilindros Mercedes de 14.778cc era mais um carro de estrada e até levou Louis, sua mulher Viv, Clive Gallop, Pixi Marix e dois mecânicos reviveram em 1922 a famosa aventura Citroën. A provar a versatilidade das máquinas da época este modelo continuou a ser competitivo no anel de velocidade de Brooklands.
Outro carro produzido para Louis Zborowski por Clive Gallop – mais tarde um dos engenheiros dos “Bentley Boys” – foi o “Higham Special” V12 mais tarde conhecido como “Babs” – usado por J.G. Parry-Thomas na sua fatídica tentativa de bater o recorde mundial de velocidade, em Pendine Sands, em 1927 (273,6 km/h). A corrente de transmissão soltou-se e decapitou o piloto.
Todos estes Citty eram protótipos para correr em Brooklands já que os carros das Grandes Épreuves eram menores, mais leves e com motores de apenas 4.500cc.

Zborowski na Indy e em GPs

Nas 500 Milhas de Indianápolis de 1923, Louis pilotou uma Bugatti e no Grande Prémio de Itália, em Monza, o “American Miller 122” projetado pelo americano Harry Miller. No ano seguinte, o milionário Zborowski era piloto oficial da Mercedes, e morreu aos 29 anos quando chocou com uma árvore no GP de Itália, em Monza.

Mecenas da Aston Martin

Tão importante quanto os seus protótipos de gigantescos motores, Louis foi o principal suporte financeiro da Aston Martin para a qual também pilotou em Brooklands e no GP de França de 1923.

Pesquisador e engenheiro

Foi a pesquisa feita por Chris Bowen, engenheiro-chefe de projetos de aerodinâmica da equipa Mercedes de GP, com longa carreira na Fórmula 1, em que me inspirei e baseei para vos trazer a história desta semana.

Texto: Francisco Santos
Imagens: Arquivo



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