Crónica de Francisco Santos: O nevoeiro em ralis

Arquivos 11 Mai 2012

Crónica de Francisco Santos: O nevoeiro em ralis

Outro dia, descendo a Serra do Mar, pela Rodovia Tamoios, no estado de São Paulo, em direção a Caraguatatuba, apanhei com bastante nevoeiro e uma “garoa” (chuvinha fraca). Pelo prazer que sempre tive de guiar – pilotar – na chuva, não pude evitar recordar um dos mais caros episódios da minha carreira de piloto – de ralis, neste caso – que retrata bem um dos mais emblemáticos pilotos de ralis dessa era (anos ’60 e ’70).

Zé Carpinteiro Albino, inultrapassável

Foi em Arganil, estou absolutamente certo; talvez no Rali do Sporting, não tenho a certeza. O mais importante foi o fato de, nessa noite de sábado, a Serra de Arganil estar emersa num profundo nevoeiro. Eu, no meu Ford Escort TC, e o José Carpinteiro Albino no seu tradicional Saab, a partir um minuto à minha frente. Normalmente – o saudoso Zé que me perdoe – o Escort e eu seríamos mais rápidos do que o Saab e ele, o que ficou demonstrado ao termos “colado” na sua traseira, creio que uns oito km depois da partirmos, ainda não atingida a zona alta, com mais nevoeiro.
Aí, assisti a uma das mais belas demonstrações de pilotagem. Mesmo com nevoeiro denso, seguindo de olhos grudados nos seus farolins vermelhos, teria boas hipóteses de o passar e não “perder tampo”. Mas, qual quê?
Tão depressa colei no Saab, ganhando-lhe um minuto no início do controle, com pouco nevoeiro, como agora, no cimo da serra, com visibilidade de pouco mais de uns dez metros, se tanto, não só não o consegui passar – como tentei, nas zonas que melhor conhecia – como ele “se foi embora”, deixando-me órfão da orientação dos seus farolins. Nunca mais o vi, tal a sua diferença de andamento no nevoeiro.
Claro a que nessa noite húmida não havia muita poeira. Mesmo assim, ao recordar mais essa lição de pilotagem do Zé Carpinteiro no nevoeiro, não posso deixar de ridicularizar os grandes profissionais dos ralis atuais que invocam a falta de segurança nos troços noturnos.
Acima de tudo queria aqui deixar a minha homenagem – como testemunha ocular – do comportamento genial de José Carpinteiro Albino ao volante do Saab no nevoeiro!

O “milagre” de Walter Rohrl

Lembram-se da “banhada” que Walter Rohrl deu ao seu companheiro da equipa Fiat (131 Abarth) em Arganil, em 1980, debaixo de intenso nevoeiro? O seu andamento, apesar de não ser o mesmo dos Loeb de hoje, não foi também o mesmo do Zé Carpinteiro ou do meu. A diminuição de segurança para Rohrl também existiu. Por quê, agora, tanta preocupação, apesar do indubitável aumento de performance dos carros?
Tudo depende da postura – e capacidade de sacrifício – do piloto. Em 1980, prevendo nevoeiro em Arganil, Rohrl e Christian Geistdorfer, seu navegador, decidiram fazer o troço de Arganil cinco vezes, em vez das habituais duas ou três passagens em treino. Resultado: “Foi a única vez na história dos ralis, que os adversários foram batidos por mais de cinco minutos”, lembrou Walter ao AutoFoco, em 2009.
Mais, a lembrar Senna na sua pole de Monaco no mesmo ano: “Aquilo não teve nada a ver com pilotagem. Foi outra coisa qualquer…naquele dia, a cada momento eu tive a sensação que conhecia cada pedra; eu tinha a certeza do ponto onde estava, mesmo ser ver nada. Depois da quinta passagem em treino, quando fiz 38 minutos naqueles 42km, fui para o hotel e percorri mentalmente todo o troço com os olhos fechados, falhando aquele tempo em apenas quatro segundos.”
Será que os pilotos de hoje se dariam ao mesmo trabalho mental e físico? Ou, será mais fácil criticar as ideias de Jean Todt e Michèle Mouton de fazer reviver esses tempos?
Estes foram, sem dúvida dois momentos clássicos dos ralis aos níveis nacional e internacional. Para reviver e nos “lambuzarmos” de prazer nas nossas memórias.

Texto: Francisco Santos
Imagens: Francisco Santos



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