Os improvisos e o vinho da vitória

Competição 06 Set 1996

Os improvisos e o vinho da vitória

Existiram circunstâncias nas corridas de automóveis em que a sofisticação tecnológica conviveu de mãos dadas, seja com a simplicidade de algumas soluções empíricas, seja através de meros expedientes de ocasião.

Um dos episódios mais incríveis no domínio da improvisação ocorreu em Vila real, tendo como pano de fundo, a corrida de 500km para carros de Sport, que ali se realizou em Julho de 1970. Os belgas Teddy Pilette e Gustav Gosselin estavam inscritos pelo Team VDS, com o Lola T70 Mk3B que havia pertencido antes ao malogrado John Woolfe. É quase escusado lembrar que este carro fazia figura de autêntico espantalho, com o seu motor V8 Chevrolet de 5 litros alimentado a carburadores e preparado na Suíça por Louis Morand.

Esta equipa belga, já no ano anterior havia estado presente em Vila Real, na corrida das 6 horas, e na ocasião representara oficiosamente a Alfa Romeo, trazendo para o efeito duas T33 construídas em 1968 e dotadas de motores V8, uma de 2 litros e outra da versão “Tasman” de 2 litros e meio. Essa participação nas 6 horas havia sido um completo fiasco pois, ao fim de 15 minutos de corrida, Teddy Pilette já havia atirado para dentro da paisagem, o carro de 2,5 litros que deveria compartilhar com o holandês Rob Slotemaker, e volvida mais uma hora o carro de 2 litros de “Taf” Gosselin e Claude Bourgoignie, teria de ser retirado com o fluido de refrigeração a ferver…



Para tornar o fiasco ainda mais completo, o próprio patrão da equipa, o Conde Georges Van der Straeten, tinha sofrido durante o fim-de-semana uma intoxicação alimentar. O organismo do Conde não terá provavelmente reagido bem à mudança para uma alimentação claramente superior à de Bruxelas… O certo é que, apesar da má experiência de 1969, o Conde, que era também um dos acionistas da fábrica de cerveja Stella Artois, decidiu regressar no ano seguinte, até por que, o cronometrista e responsável pela logística de equipa, era agora um português. De facto Hélder de Sousa havia encontrado junto do Team VDS, uma outra forma de acompanhar intensamente as corridas por dentro e havia prometido ao Conde aconselhá-lo na escolha dos melhores restaurantes.


Glicol, não há!

Mais tarde, Hélder continuaria em Angola a carreira de piloto de competição, que ali havia iniciado uns tempos antes de vir para a Europa. Durante os treinos, aproveitados para fazer a rodagem a um conjunto novo de coroa e pinhão da transmissão e debaixo de um calor ambiente absolutamente fora do comum, embora habitual em Trás-os-Montes naquela época do ano, Teddy encostou nos stands com o ponteiro da temperatura do motor a chegar-se para a direita de forma preocupante. Complicando ainda mais a situação, a equipa não tinha trazido qualquer aditivo para misturar no circuito de refrigeração. O diretor técnico da equipa chamou então Hélder de Sousa e disse-lhe: “Fizemos o terceiro tempos dos treinos, mas o motor aquece demasiado ao fim de poucas voltas e não vai aguentar a distância da corrida. Está a trabalhar a uma temperatura demasiado elevada. Preciso que encontres glicol, que é uma substância que permite diminuir a temperatura do líquido de arrefecimento.”

Hélder percorreu todas as farmácias e drogarias de Vila Real, e procurou mesmo no Aeródromo da cidade, mas sem sucesso. Não havia glicol em parte nenhuma. Talvez houvesse no Porto, mas não havia tempo para procurá-lo e ainda por cima, trazê-lo. O diretor da equipa optou então por outra solução: “Vai procurar e traz, todo o vinho que puderes. Vamos precisar de bastante, e vinho parece ser coisa que há por aí em abundância. E arranja também alguns quilos de açúcar.” Hélder continuou o resto da tarde a percorrer o comércio da cidade, comprando vinho em garrafões de 5 litros. Do branco e do tinto, tanto fazia. Ao fim do dia, na Garagem Loureiro, o agente da Sacor onde a equipa se havia instalado mercê da habitual boa vontade de José Pereira Júnior, os garrafões começaram a ser cuidadosamente despejados para dentro de um bidão de 200 litros, que antes havia sido limpo com todo o cuidado.

Um certo cheiro a adega…

Lentamente, foi sendo adicionado o açúcar e com a ajuda de uma comprida vara de madeira o líquido ia sendo pacientemente misturado no fundo do bidão e o açúcar dissolvido o mais possível. O cheiro do ambiente começava a ser insuportável. Durante várias horas Hélder e um mecânico alternavam-se na tarefa. Entretanto, os outros mecânicos esvaziavam todo o circuito de refrigeração e limpavam cuidadosamente o radiador e todas as canalizações. A meio da noite começou a tarefa consistente em vazar e filtrar simultaneamente o líquido para dentro de jerrycans, e finalmente despejá-lo para dentro do radiador do Lola. A filtragem destinava-se a prevenir que quaisquer partículas de açúcar que não se tivessem dissolvido, fossem causar alguma obstrução no circuito.

Nos treinos livres de manhã, Pilette, que não estava ao corrente das maquinações vinícolas da equipa ocorridas durante a noite, deu algumas voltas com o carro e voltou aos stands: “Parece que está resolvido o problema do sobreaquecimento. Noto, no entanto, um cheiro diferente no habitáculo. Não parece o cheiro habitual a óleo ou a gasolina”. “Não te preocupes Teddy, vamos já ver se se passa alguma coisa, mas não deve ser nada importante” – responderam-lhe. A equipa achou inútil explicar aos pilotos antes da corrida, que o radiador estava cheio com vinho. E explicar que o álcool que faz parte da sua composição, melhora a capacidade de dissipação térmica do líquido. E também que, o açúcar lá dissolvido, ao incrementar o teor alcoólico, aumenta ainda mais aquele poder de dissipação do calor.


Quatro voltas de avanço

Debaixo de um calor absolutamente infernal, tudo se preparava para o início da corrida que, pela primeira vez a RTP iria transmitir em direto desde Vila Real. Na grelha de partida instalou-se a confusão quando o Chevron B16 de Ian Skailes que tinha obtido nos treinos um prometedor 5º tempo, teve de ser retirado com uma rotura nos tanques de gasolina. Enquanto o carro esteve imobilizado mais de quatro horas ao sol, no parque fechado do Jardim da Carreira, o combustível expandiu-se de tal maneira no interior dos depósitos, que estes acabaram por se romper inundando o habitáculo. Dada a partida, Pilette saltou na frente mas Craft passou-o na 3ª volta e comandou a prova até a bomba de gasolina do motor Cosworth DFV deixar de colaborar.

A partir daí o Lola do Team VDS iria liderar sempre até final sem estar sujeito a qualquer sobreaquecimento, graças sem dúvida, à superior ajuda da vitivinicultura nacional. Quem não aguentou muito foi “Taf” Gosselin. Sofrendo talvez do mesmo mal que o Conde no ano anterior, não se sentia bem durante todo o fim-de-semana e conduziu apenas durante os últimos 20 minutos da corrida, fazendo sempre tempos piores que os de Pilette, mas sem pôr em perigo a posição da equipa, que terminou com quatro voltas de avanço sobre o Chevron BMW de John Bamford, ao fim de 3 horas e 18 minutos de prova. As condições de Gosselin eram agravadas pelos enjoativos vapores de vinho que se faziam sentir no habitáculo, já de si bastante abafado, pois o Lola T70 não possuía um isolamento eficaz entre o cockpit e o compartimento do motor.


Os seguidores

A ideia acabou naturalmente por ter outros seguidores. No ano seguinte, um piloto amador inglês, Mike Coombe, trouxe a Vila Real um Lola idêntico, equipado com um motor Chevrolet V8 preparado por Mathwall, que tinha pertencido anteriormente à escuderia de Sidney Taylor. Como sabia que a solução tinha resultado com êxito, adotou-a também, embora a corrida tivesse uma distância muito inferior. Mike retirou-se ao fim de 12 voltas e duas semanas depois, foi correr no Aeródromo de Wunstorf, na Alemanha, numa prova de sprint dominada por carros de sport de 2 litros. John Burton, que conduzia o Chevron B19 da equipa Canon Cameras, acercou-se do Lola durante os treinos e disse para Mike Coombe: “Noto um estranho aroma de vinho quente sempre que me aproximo do teu carro!” “É natural.” Respondeu Mike. “Ainda não tirei do radiador o vinho que meti em Vila Real…”

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