Os Meus Brinquedos da Rua do Ouro

LifeStyle 01 Set 1996

Os Meus Brinquedos da Rua do Ouro

Ao ler o artigo sobre o Museu do Brinquedo, voltei atrás no tempo e, assim com quem não quer a coisa, decidi-me a refazer o percurso daquela época em que estava a entrar na adolescência – quando as lojas que nos faziam a felicidade se chamavam “bazar” e, no meu caso especial, “Bazar do povo”, em Lisboa.

Já não se apanha o “5”, o autocarro que, parando mesmo à porta de minha casa, fazia a carreira entre os Restauradores e o Areeiro. Não faz mal agora – agora até há mais, Metro e tudo. E a verdade é que cheguei à Rua do Ouro, como de costume – e sem ser assaltado! Aqui, impõe-se um esclarecimento, para que não surjam mal-entendidos; as lojas aqui referidas eram especializadas em brinquedos, com as miniaturas (e a sua clientela de coleccionadores) a constituir apenas uma parte do negócio. Possivelmente havia mais gente a comprar bonecas, por exemplo, ou piões com música, do que propriamente miniaturas. Mas estas, tal como os comboios eléctricos, sempre tiveram os seus admiradores muito especiais e recordo que, quando era dia de chegarem novidades, nada nem ninguém me podia impedir de ir até ao “Bazar do Povo” buscar aquilo porque tinha esperado tanto tempo e que me achava com todo o direito de conseguir – as novidades Solido, Mercuri, Corgi e por aí fora…


Há uma atmosfera esquisita, nos dias de hoje, no Bazar do Povo. O encantamento, a magia dos brinquedos, testemunha frases de certo modo desgostadas em relação ao ambiente actual deste tipo de lojas. Que continuam a ter os seus clientes fiéis, como aconteceu com o jovem senhor que procurava jogos de família (do tipo Monopólio), ou com o senhor menos jovem que veio saber das novidades da Bburago… Ou clientes infiéis, como eu, que no fim de todos estes anos acabei por trazer uma estação para o comboio eléctrico HO do meu filho…O Bazar do Povo ficou assim conhecido, muito, mas muito antes das conotações de “povo” de 25 de Abril, sendo uma loja centenária; não tão antiga como a dos carimbos que quase lhe fica defronte. Essa datando de 1891, mas diz-se que remonta a pouco depois… no entanto, a escritura oficial data de 1905, com o nome que a casa teve no início, bem como os que se seguiram, sempre na família Thadeu – tal como hoje, já que é explorada por sobrinhos-netos. E – desfaçam-se as dúvidas – do Bazar Thadeu (da Rua Augusta) apenas há ligações familiares.

“Tenho postais de 1893 em que já apareceu a casa”, diz um destes sócios. Ao longo de todos estes anos, a casa sempre teve do que melhor existia em brinquedos, num tempo que não havia importadores: “A Schuco, por exemplo, era importada directamente; em comboios eléctricos vendemos Marklin, Lima, Jouef, Lilliput, Tri-ang… agora vendemos mais Lima. Tivemos muita coisa da Chad Valley – o que se vendia mais eram os bonecos – os bebés, eram o artigo número um da Chad Valley…” – Mas tenho um tractor deles e… – “Tractores eram os da Merit… e uns muito bem feitos, da Brittains”. Todas as coisas têm a sua “febre”. Na década de 60, a “febre” grande foi para os comboios eléctricos e pistas de automóveis. Foi a grande loucura. Depois entrou-se mais no campo dos brinquedos técnicos – como o Mecano, que antigamente era o mais vendido. E que também era importado directamente pelo “Bazar do Povo”, tal como os Dinky Toys – e não só: “Como as miniaturas… fomos o primeiro importador em Portugal da Quiralu… a Norev tal como a Heller, foi nossa”. Havia clientes que iam até ao Bazar do Povo só por causa dos modelos: “Ainda hoje temos gente que vem apenas pelas miniaturas”.


A clientela foi fugindo, ou foi-se mantendo? Bem, aqui saímos um pouco da loja especializada em brinquedos (a lutar com os grandes hipermercados, com as lojas do “tudo a 300” – até brinquedos) e entramos no problema dos lojistas da Baixa Lisboeta, não só de brinquedos, mas em geral. “Aqui não há estacionamento nem nada… Nem se pode parar; se vier aqui com uma pessoa de idade, para fazer compras na baixa – nem pode parar o carro…. Lá fora, as grandes cidades têm zonas marcadas a amarelo, em que os carros param, as pessoas saem e o carro vai embora. Só pára para a pessoa sair e entrar. Aqui não há nada disso. E depois falam em desertificação da Baixa” … Quando se começou isso a notar mais? Desde que houve o incêndio – “Desde que mataram o Chiado”. Em relação aos grandes espaços, concretamente os hipermercados, “nota-se uma diferença abismal”… Você vai para um centro comercial, leva a mãe, o pai, os avós, os filhos, o periquito… come uma sandes, os miúdos entretêm-se com os computadores e, quando chega às seis e meia, vão embora para casa, está na hora do jantar. Passou-se a tarde por ali, há autocarro de borla e tudo… em comparação com a Baixa, veja o estacionamento – lá nem se paga, chega lá e deixa o carro… mas aqui na Baixa, o que é que tem?

Os tempos são nitidamente outros. Saído do Bazar do Povo, a volta era sempre a mesma – uma olhadela regalada às novidades inatingíveis dos kits técnicos nas montras da Biaggio Flora, meia volta (de modo a passar nas novidades de calças de boca de sino, casacos tipo hippie e derivados nos Por-Fí-Ri-Os Contraste), depois a passagem pelo Bazar Thadeu, da Rua Augusta, pelo Paraíso Infantil, na Rua da Prata, escala técnica no Rossio para comer um bolo cheio de chantilly na pastelaria Suíça e passagem, com entrada obrigatória para verificação das montras de miniaturas, na Kermesse de Paris. Depois, até porque para o autocarro voltar a casa era para aquele lado, uma confirmação rápida à exposição da Pinóquio. E, de novo no “5”, havia de chegar a casa com as ultimas novidades – e com o catálogo, vitória maior deste então muito jovem coleccionador…até porque era tão difícil de conseguir.


Agora diz-se que o Biaggio Flora vai ser mais um banco, o Bazar Thadeu tem mais gente a ver o pedinte com o show de periquitos ali na frente do que propriamente as suas montras, a Kermesse de Paris é uma loja de roupa radical… e o Pinóquio é mais um skack bar tipo “come em pé”. Mas tudo bem – os colleccionadores-modelistas não têm que inventar nada, está tudo inventado. Basta chegar à prateleira do hipermercado e, tal como se tira o detergente com super-enzimas para a máquina de lavar ou o pack de seis rolos de papel higiénico (agora com cheiro a alfazema) também se tira, por exemplo, o Mercedes 300 SLR vencedor das Mil Milhas com Stirling Moss e Dennis Jenkinson em kit para montar na escala 1/24 – mesmo que ninguém saiba o que isso é… e pior, não tenha um comerciante especializado no ramo – e que adora o que faz – para lhe explicar.

É para lhe contar umas histórias, porque apesar de tudo a boa disposição continua a existir no Bazar do Povo, já que tanto José João Thadeu como Joaquim Manuel Pires, os sobrinhos-netos do fundador têm sempre uma brincadeira ou um diboche pronto a sair. E histórias que ficaram na história: “A primeira coisa que aqui se vendeu foi uma chaminé de candeeiro – e o dinheiro ainda ali está dentro”, diz com um sorriso José João Thadeu, recordando o tamanho grande da moeda. Bem vindos ao ano 2000!

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