Citroën Traction Avant “Arrastando” Multidões

Clássicos 10 Mai 1996

Citroën Traction Avant “Arrastando” Multidões

Entre 1934 e 1957 o Citroën “Traction Avant” tornou-se popular em muitas estradas, sendo dos modelos que mais se consagrou durante a Segunda Guerra Mundial. Com o tempo mudaram certos detalhes mas o estilo manteve-se, cheio de carácter. Um famoso modelo francês que deixou lugar a outro famoso Citroën, apresentado em 1955. O vanguardista DS.

Com o Citroën “Arrastadeira”, como ficou conhecido em Portugal, vinham a inovação técnica da tracção dianteira, baixo centro gravidade sinónimo de estabilidade e “tenue de route” notáveis sobretudo em percursos sinuosos, muito espaço interior e excelente conforto. Atributos da “rainha da estrada” que vem “arrastando” multidões até ao dia de hoje.

Foi o modelo Rosalie, lançado em Outubro de 1932, produzido até Outubro de 1933 e definitivamente retirado de fabrico no Verão de 1934 que deu à marca de André Citroën a transição necessária para que o “traction avant” entrasse em cena. 



O desenho do novo Citroën foi criado pelo estilista Flaminio Bertoni num projecto proposto em 1933 à marca francesa. Com personalidade e estilo muito próprios, marcantes para suscitar a imediata adesão do público. Contudo, na fase de produção, surgem determinadas dificuldades que quase lhe arruínam o futuro. 

A Citroën atravessava um período muito difícil devido à concorrência de outras marcas e problemas de tesouraria. André Citroën apostava tudo no seu novo e revolucionário modelo em que as inovações da tracção dianteira e da estrutura monocoque, muito avançadas para esses dias, ditavam um renovo na indústria automóvel mundial de fabrico em grande série. Ao longo de 23 anos o modelo confirmaria os porquês do seu sucesso, apesar de um início em que as coisas não foram fáceis…

A dificuldade de colocar os “Traction” no seu estado óptimo de produção, o retardar da saída do novo modelo e os problemas financeiros, colocaram André Citroën numa posição altamente precária, quase em pré falência da marca e com a dificuldade da perda das suas fábricas. Mas, com dificuldades ou não, os 7CV “Traction Avant”, estavam destinados a dar que falar, quando os irmãos Michelin apostam neles… 

Com a nova gerência dos Michelin à frente da grande marca de André Citroën, os “Traction” viram finalmente a luz do dia, mas os primeiros passos continuaram difíceis, sendo que os primeiros 7CV fabricados a partir de 1934 e os seus seguidores os 7A e 7B apresentavam bastantes problemas de fiabilidade que apenas seriam colmatados com a saída dos 7C. Sobre as evoluções da popular “arrastadeira”, contamos de seguida algumas histórias… 

O primeiro “Traction”, único e genuíno 7CV, foi o Type 7A com motor de quatro cilindros e 1298cc. A sua potência cifrava-se nos 30cv e o peso rondava os 900 quilos. Diversos problemas de fiabilidade foram surgindo, detectados na estrutura monocoque, no motor e nos acabamentos o que levaria a que estes modelos tivessem de ser reforçados, fazendo deles automóveis muito lentos e algo massivos, em comportamento estradista. 

Em Junho de 1934, para ser mantido o objectivo dos “100km/h”, foram aplicadas alterações neste modelo, surgindo a versão 7B que, embora bastante mais viva, apresentou quase todos os defeitos da versão substituída. 

Foi dotada de um motor com 1628cc e 35cv de potência enquanto que uma versão Sport, a 7S, vinha provida de um bloco com 1911cc para 46cv que a tornava bastante mais preformante. Este motor seria a base mecânica que passaria a equipar as “arrastadeira” Type 11 e 11L. 

Nessa época, no Verão de 1934, era grande a azáfama na Citroën na procura de soluções para tornar o novo modelo mais fiável – nomeadamente em termos da estrutura monocoque, transmissão (cardans), suspensão, direcção, travões e aspectos motores tais como alterações no radiador, no sistema de escape e na ventilação – que permitissem tornar apto o novo Citroën, uma vez que se aproximava o Salon de Paris, previsto para a sua apresentação pública. 

Foi em Outubro de 1934 que os franceses e o mundo assistiram à grande “premiere” do novo Citroën “Traction Avant”, os modelos 7 e 11 (os primeiros exemplares com esta sigla) propostos para o ano de 1935 e onde os 7C se apresentaram com motor de 1628cc (72 x 100mm) e 35cv numa carroceria totalmente em aço, incluindo o tejadilho que anteriormente se apresentava em couro “simili”. Posteriormente a 1934, todos os defeitos dos “traction” viriam a ser gradualmente suprimidos. 

O facto implicou um enorme esforço da fábrica Citroën que, vivendo desde inícios de 1935 com apertadas medidas de racionamento, ia introduzindo transformações sucessivas nos modelos ao mesmo tempo que se davam instruções a agentes e concessionários da marca no sentido destes encorajarem a clientela dos “Traction” iniciais a optar pelas alternativas de reforço de estrutura e outros melhoramentos de fábrica, que tornavam o novo modelo mais fiável. 

Grande metamorfose foi a que surgiu durante o Salon de 1935 nos “Traction” 7, 11 e 11L (Légêre). Muito frugais em apresentação, virado para um aspecto muito prático mas extremamente funcional, traziam um equipamento mínimo mas com uma política essencial de funcionamento: Tudo impecável. As Berline, vinham dotadas de mala traseira para bagagem. 

Durante a Primavera de 1936, conjugam-se as três novas introduções que fariam das “Traction” modelos cada vez mais apetecíveis: A suspensão do motor Pausodyne, direcção por cremalheira e a nova posição dos comandos de bordo, sob o volante. 

Referência especial dentro das “arrastadeira” de anos 30, merece o protótipo estudado na Citroën desde finais de 1934 e que restaria como modelo único, depois reconvertido. 

Tratava-se da “Traction” 22cv com um motor de oito cilindros em V, duas vezes o motor das 11cv, que chegou a estar na fase experimental, nunca passando à fase de produção, posteriormente reconvertido num modelo 11cv e assim vendido. Apesar de ter sido abandonado, o 22cv abria portas, dentro em breve, ao “ex-libris” das arrastadeiras Citroën: As muito famosas 15 CV/ Six, seja, modelos de maiores proporções que as 11CV, dotados do motor destas mas com um acréscimo de dois cilindros. Lançadas a partir de 1938, estas “grande estradistas” dariam muito que falar… 

Quando foram apresentadas, mostravam os seguintes detalhes, mantidos até 39: Para-choques dianteiros encurvados ao centro e, nos para-choques traseiros, a pequena placa Citroën. A grelha frontal pintada com o simbolismo das rodas dentadas – o emblema da marca de André Citroën, simbolizando dois dentes de uma roda de engrenagem industrial – em frisos de alumínio fazendo ângulo elevado para o alto por dentro da grelha enquanto o motivo de emblema pintado identificador de 15 6CYL – sem as asas que surgiriam posteriormente – era colocado ao centro-baixo, “mascarando” o orifício da manivela. Uma única luz vermelha na rectaguarda, no suporte de matrícula na traseira esquerda, “setas” ou “flechas” de direcção entre as portas. Logo 15 6cyl. colocado sobre a asa traseira direita. Os faróis dianteiros cromados, e pequenas luzes de presença sobre os guarda lamas dianteiros. Rodas marca Pilote de cor marfim, carroceria negra. Estofos em veludo castanho ou cinza – este tom raro – e nos bancos dianteiros encimando as costas, barras cromadas para apoio dos passageiros. Painel de bordo castanho ou cinza com duas pequenas barras verticais ao meio, comandos do starter e arranque de forma oval, numeração romana na disposição gráfica das velocidades, topo da manete de velocidades “marmoriada”, painel de instrumentos sob fundo negro com conta-quilómetros graduado até 150Km/h, manómetro de gasolina 70 litros, e relógio. 

Haviam as versões longas, de seis janelas e três variantes: Limousine sem strapontins ( pequenos bancos rebatíveis que podiam alojar pessoas extra). Familiale de oito lugares (dois strapontins) e de nove lugares ( mais um banco rebatível). Para finais de anos 30, desde Outubro de 1939, os frisos em ângulo agudo e símbolo do duplo “chevron” ou dentes de roda dentada, continuam aplicados na grelha dianteira mas agora colocados exteriormente. Dentro em breve, as 15/Six seriam apelidadas de “Rainha das Estradas”… 

Consideram-se os anos decorridos entre 1937 e 1939, “Anos de Ouro” do Citroën “Arrastadeira”. Embora emblemáticas como êxito automóvel francês até 1957, as populares “Traction” depois de 1939 nunca puderam igualar, em charme ou qualidade, as irmãs de uma época dourada a que nem a Segunda Guerra Mundial conseguiu retirar brilho, antes pelo contrário. 

Dos modelos automóveis celebrizados durante o conflito, um deles foi sem dúvida muito célebre: O Citroën “Arrastadeira”. A silhueta “Traction” fez parte integrante da paisagem e das imagens da Segunda Guerra Mundial e assim permaneceu, não podendo ser dissociados uma de outra. Primeiro em França, depois um pouco por toda a Europa. Com as dificuldades dessa época, com a escassez de combustíveis, tornou-se característico ver automóveis movidos com recurso a um aparelho, o gasogénio (alimentado a lenha ou a carvão) e as “Arrastadeiras” não fugiram à regra. Entre diversas marcas e patentes, contava-se a “Le Gazauto” (sistema L. Libault) ou a Facel (criada por Jean Daninos, mais tarde construtor dos Facel Vega) que, entre muitas outras marcas, permaneceram ligadas ao automóvel no imediato pós-Guerra. 

Foi sobretudo como veículo de combate e oposição aos Nazis que a “Arrastadeira” teve um dos seus momentos de maior glória. Ela era a eleita dos elementos da Força da França Livre que, nas cidades ou nos campos de um país mártir e ocupado, combatiam tenazmente as barbaridades impostas pelas forças militares às ordens de Hitler. Surgiram diversas variantes camufladas em apoio aos exércitos. Aliados e as “Traction” deixaram-se com gosto “fardar” militarmente, requisitadas para levar de vencida os invasores.  No dia da Libertação de Paris, na capital e por toda a França, as “Traction” aguentaram tudo… com gosto! 

O Mundo em crise em termos globais, as “Traction” permanecem inabaláveis, com personalidade, mais fiáveis, na sua sedutora presença “devoradora de estradas” com conforto, sem esforço de condução. 

Hábeis (e ágeis) em percurso de montanha, com excepcional “tenue de route” e maneabilidade – Falava-se que a Citroën oferecia um modelo novo a quem conseguisse fazer capotar uma “Traction” mas não sabemos se se falava a sério ou se o dito popular correu mundo pela fama que era apanágio de um modelo de se “agarrava à estrada” como poucos – as “Traction” aventuravam-se nos anos 50 com o à vontade típico dos grandes automóveis de sempre, convivendo em estrada com as novas modas ditadas pelo factor aerodinâmico e as impressivas aventuras de estilo automóvel vindo de uma América vitoriosa. 

Desde as mais modestas 7CV, às 15/6, as “Rainhas da Estrada” integraram-se no quotidiano francês com a sua única e bem desenhada silhueta, firmando-se cada vez mais como o grande e popular modelo automóvel no mundo. Em 1946, surge uma nova caixa de velocidades e, desde 1952, nova mala traseira salienta-se no desenho, renovando espaço a um estilo que permanece. 

Foram modelos de eleição entre as duas faces do poder, o instituído e o marginal. Charles de Gaulle, presidente dos franceses e “citroenista” confesso, utilizou as topo de gama na mesma proporção que os gangues armados de metralhadoras o fizeram, espalhando o pânico com roubos e assaltos estradistas num automóvel onde o acesso de pessoas era muito facilitado (em fuga apressada, sobretudo!) pela amplitude de abertura das portas e a proximidade da carroçaria ao solo. 

Como as Familiale ou Limousine dos anos 30 e 40, reconhecidas pelas suas três janelas laterais e enorme espaço interior, bancos suplementares rebatíveis e uma capacidade de passageiros entre os oito a nove lugares. Fossem as 11 ou 15CV, as Familiale fabricadas entre 1936 e 1957 eram Citroën “Arrastadeiras” imponentes. 

A popular “Arrastadeira” fabricada em França foi produzida noutros países como a Bélgica ou a Inglaterra, na filial da marca em Slough, apresentado estas últimas um carácter “à inglesa” muito típico, conforme documentam as imagens. 

Com a sua proverbial “tenue de route” e comportamento excepcional em estrada sinuosa, participaram nas mais afamadas provas dos anos 50 confirmando presença nos famosos Coupe des Alpes, Paris-Nice ou Monte Carlo, onde sobretudo as mais potentes 15/6 se aventuravam também nos percursos difíceis, sinuosos e cobertos de neve de Maratonas ou Rallyes como por exemplo os Criterium Niege et Glace de que o registo, mais pungente, foi a edição de 1955 quando a equipa francesa de Grenoble Ricou-Prestail, em pleno traçado montanhoso do difícil Alpe d’Huet e debaixo de uma avassaladora tempestade de neve, consegue terminar a prova classificando-se em terceiro lugar da geral. 

Pilotos como Sjoquist da Suécia ou Lagier, Pouderoux, Bigoni, Gautrouche, Pouchol ou Morin, entre outros, participando desde meados da década de 40 e durante os anos 50, deram renome desportivo às “Arrastadeira” que, entre nós, também contaram com exímios pilotos, averbando excelentes resultados desportivos. Monte Carlo, edição 1952, inscreve-se uma equipa portuguesa ao volante da “arrastadeira” 15/6, matrícula HF-16-83. João de Lacerda/Jaime Azarujinha têm pela frente uma difícil prova em condições climatéricas rigorosas. Apenas 14 equipas chegam ao Mónaco após uma “razia” monumental entre os muitos participantes e, em 13º lugar, a 15/6 portuguesa. A dupla portuguesa atribuiria este feito aos participantes Louis Rosier e Maurice de Cortanze, cuja ajuda e companheirismo foram notáveis.

Austeros no que toca à apresentação, painel de instrumentos algo triste e contando apenas com o estritamente necessário, o estilo “Traction” mostrou sempre um habitáculo pobre, embora o conforto dos ocupantes fosse mantido de ano para ano pela utilização de tecidos agradáveis e amplo recurso ao veludo. A alegria interior no habitáculo das “arrastadeiras” nunca foi um ponto forte. Um dos enormes contrastes verificados nas “Traction inglesas”, com as suas tonalidades de pintura – em França as “Traction” só passaram a ser pintadas de cinzento ou azul em 1953 juntando-se ao imenso número de exemplares negros – interiores em madeira, estofos em couro e painel de bordo com mostradores menos utilitários ou larga profusão de componentes cromados no exterior. 

Apresentava uma curta distância ao solo na sua época e grande habitabilidade. O conceito “tudo à frente” dispensava o túnel da tracção traseira enquanto a transmissão e caixa de velocidades era acoplada à frente do bloco motor. A estrutura monocoque é aqui bem visível. O motor, com diversas designações ao longo dos anos entre as quais o “Perfo” de performance, fixado ao conjunto de forma a funcionar muito suave para evitar vibrações mostra-se “flutuante”, melhor dito em francês, flottant. 

Julho de 1957. Uma Limousine de seis janelas acaba de sair das linhas de montagem das fábricas Citroën e na matrícula encontrava-se a palavra FIN. Perto dos DS e ID 19 os “Boca de Sapo” a “Arrastadeira” está agora em franca minoria. 

Vira-se uma página gloriosa na história da marca, repleta com a memória dos 758.950 exemplares “Traction” entre diversas variantes fabricadas desde 1934, quando na fábrica Quai de Javel se produziam 300 veículos por dia. 

Como acontecera com os Rosalie no final das linhas de montagem “olhando” as “Traction” suas substitutas em 1934, em 1957 lia-se das “Traction” para os ID/DS igual mensagem. A Era da “Rainha das estradas”, que arrastou multidões terminava com a missão (mais que) cumprida e lugar aos novos. 

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