FERRARI Meio século de sonho!

Arquivos 09 Mai 1996

FERRARI Meio século de sonho!

Raramente visto na História Automóvel, a Ferrari é um dos exemplos mais prefeitos de como a vida de um homem se reflecte na máquina por si criada.
Enzo Ferrari era a imagem das suas convicções. Vivendo entre a polémica ou sem ela, buscava metodicamente a perfeição na mais alta craveira técnica, no rigor que exigia a todos os que se ligavam aos seus projectos.
Cria um estilo, uma “escola” e ” filosofia” vincadas de tal forma na sua visão e ideais desportivos, implusos da sua personalidade esculpidos na obra automóvel que, para além da morte ocorrida a 14 de Agosto de 1988, a ideia prevalece intacta e pura, no primeiro como no mais recente dos Ferrari, e com a ideia o nosso sonho, um sonho de 50 Anos


Simbolismos Ferrari 
A cor vermelha, símbolo de Itália na competição e Desporto Automóvel não é exclusivo da marca do “Cavallino”. No entanto, sempre se associou o vermelho à Ferrari, sobretudo porque este nome invoca o desporto automóvel à flor da pele. 

Simbolismo que invoca o seu emblema, baseado na forma original de um escudete amarelo com um negro empinado, símbolo outrora pintado na fuselagem de um caça biplano, avião de combate pilotado por um aviador italiano e “ás” da I Guerra Mundial, Francesco Barraca. Enzo havia conhecido seus pais, condes de Barraca, quando era jovem piloto de corridas de automóveis nos anos 20. A Condessa Barraca, vendo que Enzo ficara fascinado com aquele símbolo pintado no Avião que estava retratado numa pintura, sugeriu que Ferrari o usasse como amuleto de boa sorte nos seus carros… o que veio a acontecer anos mais tarde, cerca de 1930 nos Alfa da escuderia, na forma brasonada de escudete primeiro, mais tarde em anos 40 passando a rectangular… 

Cavallino Rampante” negro em fundo amarelo, a cor da cidade de Modena, cores da bandeira de Itália encimando o conjunto… identidade de uma marca em que se viveria mitológicamente uma atitude inseparável, entre o automóvel e a competição, que Ferrari prefigurava em si, assim moldando os seus carros, mesmo quando modelos de estrada. 

O supra simbolismo do Desporto Automóvel em meio século, correndo a velocidades incríveis movidas por fantásticos motores obra-prima sob magistrais formas esculpidas no vermelho, a Ferrari ultrapassou a ideia de Enzo seu criador que desde novo vivia apaixonado por carros… mas nada teria sido assim se Enzo não estivesse lá. 

O primeiro “Cavalinho” num manual Ferrari de 1946-47, de um modelo 125S


O homem, antes da máquina 
Nascido a 18 de Fevereiro de1898 na cidade de Modena, de condição humílde desde cedo apaixonado por mecânica e sobretudo por automóveis, acompanhava seu pai sempre que haviam corridas. Vítimada a família pela Primeira Grande Guerra que mata seu pai e seu irmão mais velho, destruindo o negócio de serralharia mecânica de que a família dependia, Enzo muda-se para Turim, procurando trabalho. 

Fotografia histórica. A primeira prova com um automóvel Ferrari. Piacenza, 11 de Maio de 1947, uma Ferrari 125 com Franco Cortese ao volante.


Trabalha em pequenas empresas ligadas ao negócio automóvel, e é em Turin que Ferrari consegue o primeiro grande passo da sua vida ao ser contratado pela Alfa Romeo. 

Na casa milanesa esboça-se o “brilho” do homem e da sua paixão Automóvel. Mecânico primeiro, depois encarregado de testes e de ensaios, passa a piloto de corrida e finalmente chefe de Marketing Alfa Romeo na região de Emilia-Romagna. Sendo difícil datar com precisão o momento ou a época em que Enzo cria “cerebralmente” a sua marca automóvel ou o seu conceito-ideal de automóvel desportivo, existe quase a certeza de ter raízes no período em que persuade o grande designer Vittorio Jano a mudar-se da FIAT para a Alfa Romeo tornando lendários os Alfa de competição desse período, ou também um certo descontentamento como resultado do seu desempenho como piloto de competição criando-lhe eventualmente uma crise de identidade… 

Mas, a “semente” estava lá… e germinaria com todo o vigor. Estava-se em 1929 quando Enzo Ferrari cria um novo conceito de formar equipa para a competição, uma escuderia, agrupando “gentlemen drivers” como um team, tornando-lhes mais fácil competir em corridas de automóveis. 

Estava criada a “scuderia Ferrari” onde qualquer piloto nesse tempo ambicionava marcar presença. Era a ideia de um homem, uma ideia que triunfaria, para lá das máquinas, para lá dos homens, para lá do tempo. Enzo Ferrari e os seus carros entravam na História… e os volantes da escuderia também. 

Enzo Ferrari ao volante dos Alfa Romeo da scuderia.


Ao Alfa da “scuderia” 
Enzo Ferrari prefigurava na década de 20, com um novo conceito de organização da sua equipa automóvel, aquilo que nos dias de hoje conhecemos como fórmula utilizada pela grande maioria das equipas profissionais. Para além disso, Ferrari encomendou Alfa Romeo construídos por grandes especialistas fazendo deles modelos especiais para serem corridos pelos pilotos da sua equipa. Os casos do Alfa Romeo construído por Bazzi ou o lendário Alfetta 158 que o próprio Enzo construiu quando ainda era responsável do team de competição Alfa Romeo em Modena, são alguns exemplos do génio de Ferrari para colocar os carros da sua equipa em lugar de destaque. Foi no ano de 1939 que se verifica a clivagem entre Ferrari e um dos directores da Alfa Romeo, o que leva a que Enzo saia da casa milanesa e se radique em Modena, onde permanece durante a Segunda Guerra Mundial fundando uma empresa de máquinas ferramenta, uma vez que, por contrato com a Alfa, estava impedido de construir automóveis com o seu próprio nome. Ferrari não desanima dado que a sua paixão por automóveis e pela competição era superior a qualquer contratempo e as simples máquinas-ferramentas não lhe tiravam o sonho, nem a ideia… 

O primeiro de uma nobre série 
Após duas tentativas automóveis, modelos Sport de 8 Cilindros com a designação Auto Avio Costruzioni 815, realizados em 1940 e a que se seguem diversos outros projectos, chega finalmente o ano de 1946 e com ele é verdadeiramente produzido o primeiro modelo da nova marca Ferrari: o 125, iniciador e fundador de uma família tão fabulosa como lendária… 

O 125, primeiro de uma série de modelos famosos, criado em 1946, lançou a Ferrari numa viagem que agora completa 50 anos como um dos maiores mitos da história automóvel.


Projecto inicial de Gioachino Colombo, o estilista-designer que havia criado para Enzo em 1937 o famoso Alfetta 158, o novo Ferrari era em si todo um imenso desafio nessa época, uma vez que conceber um motor tão complexo com 12 Cilindros em “V” no imediato pós-Guerra e num local tão modesto como era a oficina Ferrari nesses dias de Modena, exigia o “timbre” de um mestre. Mas, uma vez mais, a lendária admiração de Enzo pelos grandes motores em “V” ( Packard V12 Twin Six Indianapolis de competição de 1914 ou Delage de competição de 1924 que Enzo tinha visto deliciado em fotografia) deu o mote para construir tão ambicioso modelo Ferrari Sport. 

Com ele, Franco Cortese Ganha uma série de corridas nesse primeiro ano, com debute no Grande Prémio de Roma em 25 de Maio de 47. A partir desse momento o nome e a marca de Ferrari estavam em definitivo, lançadas no Desporto Automóvel. Começava o embrião do mito e da lenda Ferrari, a lenda dos seus grandes automóveis que o tempo se iria encarregar de preservar até aos dias de hoje, modelo a modelo, guardando ao som de motores de eleição em formas de uma beleza sem par, com o “Cavallino” empinado naquele escudete ou forma rectangular amarela, todo o carisma que só as grandes criações da humanidade transmitem. Ao fim de 50 Anos, tudo o que é Ferrari é o sonho. Onde o automóvel é tão perfeito que nos transporta para além do seu tempo… 

Todos os Ferrari Clássicos 1946 a 76 
Desde a fundação da marca e do seu primeiro modelo, nascido no período 1946-47, muitos foram os Ferrari construídos. Num trabalho em que é difícil falar de todas as inúmeras variantes, procuramos numa forma cronológica e abarcando o máximo de modelos até 1976, ano que na actualidade encerra o estatuto de clássico, sendo que na Ferrari tal estatuto será sempre um caso à parte uma vez que existem modelos de anos 80 e 90 que no acto da produção nascem clássicos em absoluto sem menor dúvida. 
Tentaremos mostrar as designações de modelos Ferrari década a década tentando que os leitores se situem no tempo através das latas de saída dos GT Competição/Estrada, Sport/Sport Protótipos competição, Especiais e Monolugares das Fórmula 1 e dois mais representativos. 
Os mais nobres representantes de uma das grandes marcas italianas de sempre como de hoje, emparceirando na galeria de honra com as Isotta-Fraschini, Alfa Romeo, Lância, Maserati, ISO, De Tomaso, Lamborghini Cisitalia ou Bizzarrini, tudo exemplos do melhor que a Itália automóvel deu ao Mundo. 


Homens 
Para construir a Ferrari e o seu glorioso nome desde a fundação da marca, Enzo Ferrari necessitou de homens à altura da sua ambição automóvel. Directores, Engenheiros, Projectistas, Team Managers, Chefes de equipas mecânicas, a lista que se segue vai relembrar nomes fundamentais que, uns mais outros menos, mas todos importantes, fizeram carreira dentro da grande marca de Modena e Maranello… 

Guglielmo Amarotti, Luigi Bazzi, Stefano Meazza, Guiseppe Busso, Gioachino Colombo, Vittorio Jano, Aurelio Lampredi, Graziano D’ Angelo, Carlo Chiti, Vittorio Bellantani, Alberto Massimino, Andrea Fraschetti, Franco Rocchi, Giancarlo Bussi, Eraldo Sculati, Nello Ugolini, Luigi Parenti, Adelmo Marchetti, Romolo Tavoti, Dino Pignatti, Ener Vecchi, Martino Sevesi, Sergio Sighinolfi, Mauro Forghieri, Giulio Borsati, Eugenio Dragoni, Franco Lini. 


Estilistas e Construtores
A beleza das linhas Ferrari, a sua harmoniosa agressividade de grandes automóveis, não teria a expressão que atravessou a História Automóvel desde anos 40 à actualidade, se não fossem os magistrais trabalhos de estilo propostos pela mestria da escola italiana, vinda dos designer e estilistas automóveis que com a marca trabalharam. Por outro lado, certos afamados designer- construtores produziram modelos fabulosos nos seus especializados “atelieres”, onde se combinava superiormente o estilo e a forma Ferrari. Desses nomes grandes da história do desenho e estilo automóvel e da arte do fabrico em escassa escala, ressaltam entre outros aqueles que “foram” e “são” a Ferrari…também. 

Enzo e Pininfarina, uma inseparável ligação.


Stabilimenti Farina (Giovanni Farina) Carrozzeria Touring, Giovanni Michelotti, Alfredo Vignale, Mario Boano, Ellena, Carrozzeria Ghia, Carrozzeria Allemano, Carrozzeria Pininfarina (Battista “pinin” Farina) Carrozzeria Zagato (Ugo Zagato), Scaglietti. 


Pilotos

Pilotos FERRARI ao longo dos anos até meados da década de 70 
Cerca de 114 pilotos, retirados de uma lista interminável, são aqui relembrados na história Ferrari, desde os primórdios a anos 70. Período clássico e áureo da marca, estes nomes ajudaram a criar o mito que hoje em dia a Ferrari encerra. Por sua vez, aos comandos de Ferrari, eles consagraram os seus nomes, conquistando vitórias e feitos gloriosos no Desporto Automóvel em todo o Mundo. Alguns destes nomes perderam a vida competindo com o volante do “Cavallino” nas mãos e, a todos eles, dedicamos este Especial Ferrari 50 Anos.

FerrariTestarossa 250, 1959. Piloto – Jean Behra.


Uma menção muito especial para o único volante português que teve honras de ser convidado para a “Scuderia”, vindo a falecer em pista, prematuramente, quando conduzia um Ferrari em França: António Borges Barreto.

Nesta lista, inserimos os nomes de quem correu em nome da escuderia ou em equipas e teams privadas, ou particularmente, nas pistas, circuitos, ou em provas de estrada com Ferrari, nos GP de Fórmula Um, Corridas de Sport e Sport Protótipos, Corridas de GT, Maratonas estradistas ou provas de resistência. Se a memória não nos falhou, relembramos quase todos… 


Anos 20/30 
(Alfa Romeo “Scuderia Ferrari”) – Enzo Ferrari, Tazio Nuvolari 

Anos 40/50 
Tazio Nuvolari, Franco Cortese, Nino Farina, Raymond Sommer, Clemente Biandetti. Luigi Chinetti, Lord Selsdon, Jean Lucas. 

Ferrari 860 Monza Pininfarina, 1956. Piloto- Luigi Mosso


Anos 50/60 
Alberto Ascari, B. Bira, Felice Bonetto, Guiseppe Farina, Luigi Chinetti, Dudley Folland, Raymond Mays, Julio Pola, Ken Richardson, Nando Righetti, Dorio Serafini, Raymond Sommer, Roberto Vallone, Luigi Villoresi, Giannino Marzotto, Peter Whitehead, Giovanni Bracco, Jack McAfee, Efrain Ruiz Echevarria, Pablo Aguilar, Paco Ibarra, Froilan Gonzalez, Chico Landi, Piero Taruffi, Bobby Baird, Rudy Fisher, Mike Hawthorn, Peter Hirt, Roger Laurent, Louis Rosier, Roy Salvadori, P. Scotti, Sergio Sighinalfi, André Simon, Jacques Swaters, Barão de Tornaco, M. de Terra, Fred Wacker, C. Bucci, “Pierre Levegh”, Umberto Maglioli, Richie Ginther, Carroll Shelby, Robert Manzon, António Stagnoli, Mario Ricci, Guido Mancini, Porfirio Rubirosa, Roberto Bonomi, Franco Cornacchia, Alfonso de Portago, Reg Parnell, Harry Schell, Maurice Trintignant, António Borges Barreto, Eugenio Castellotti, Peter Collins, Paul Frère, Olivier Gendebien, Juan-Manuel Fangio, Masten Gregory, Luigi Musso, Cesare Perdisa, Duncan Hamilton, Wolfgang Von Trips, Cliff Allison, Jean Behra, Tony Brooks, Dan Gurney, Phil Hill, Willy Mairesse. 


Anos 60/70 
Giancarlo Baghetti, Lorenzo Bandini, Olivier Gendebien, Richie Ginther, Phil Hill, Innes Ireland, Willy Mairesse, Pedro Rodriguez, Ricardo Rodrigues, Ludovico Scarfiotti, Graham Hill, Jo Bonnier, Lucien Bianchi, Roberto Maglioli, John Surtees, David Piper, Wolfgang Von Trips, Andrea de Adamich, Chris Amon, Derek Bell, Jacky Ickx, Mike Parkes, Jonathan Williams, Tino Brambilla, Jean Guichet, Nino Vaccarella, Bob Bondurant, Jochen Rindt, Masten Gregory. 

Anos 70 (1976) e seguintes, em alguns casos. 
Mario Andretti, Jacky Ickx, Ignazio Giunti, Clay Regazzoni, Ballot-Lena, Ronnie Peterson, Tim Shenken, Brian Redman, Nanni Galli, Arturo Merzario, Niki Lauda, Giancarlo Martini. 


Coroas de Louro
Falar da Ferrari sem mencionar as suas proezas e vitórias no desporto automóvel, os pilotos que consagrou e que a consagraram como marca, não seria possível. Faz de tal forma parte integrante do carisma da sua história que imaginar a Ferrari sem automóveis seus a competir em pista parece ofensa. 

Entre 1952 e 76, a Ferrari conquistou 8 títulos mundiais no campeonato do Mundo de pilotos de Fórmula Um. Ascari, 2, Fangio, Hawthorn, Phil Hill, Surtees e Niki Lauda, 2, Os Laureados. 1983 foi o último ano, até à actualidade, em que a Ferrari se sagrou vencedora do campeonato do Mundo (construtores) cujas vitórias totalizam 14. 

Entre 1950 e 76, a Ferrari conquistou 63 grandes prémios de Fórmula Um. A primeira vitória num “Grand Prix” havia ocorrido no dia 24 de Outubro de 1948 no circuito de Garda com Nino Farina ao volante de um modelo com 12 cilindros e 1.500cc. sobrealimentado. 

A mais fantástica série de vitórias Ferrari entre 1948 e 1975, incorporou 9 vitórias nas 24 horas de Le Mans, nas 12 horas de Sebring, 8 nas Mille Miglia, 7 nos 1000km de Nurburgring, 7 na Targa Florio, 6 nos 1000km de Buenos Aires, 6 nos 1000Km de Monza, 4 nas 24 horas de Daytona, 4 nos 1000km de SPA e 1 nas 24 horas do mesmo traçado belga. 

Além disso, entre 1952 e 73, a Ferrari averbou vitórias na Carrera Panamericana (2) em 1952 e 54, uma vitória no Tourist Trophy, duas nos 1000km da Áustria e vitórias nas 4horas de Pescara, 12 horas de Reims, 1000km de Brands Hatch, 6 horas de Watkins Glen e 6 horas de Vallelunga. 

Uma longa e extensa lista de coroas de louro, apenas para 50 anos de existência. Uma vida cheia de vitórias a que nem os tempos mais próximos sem a pujança de outrora, retiram mérito. Afinal, mesmo não ganhando, a Ferrari continua a impôr respeito na competição e desporto automóvel. Tal como na estrada. O “Cavallino” ainda não descansou as suas patas empinadas. A força continua ali… 

Um original, livro de instruções e manutenção de modelos Ferrari de 1952.
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