Autoreconstrutora, Lda: Só para desportivos

Clássicos 11 Mar 1996

Autoreconstrutora, Lda: Só para desportivos

As garagens são como os chapéus – há muitos tipos e qualidades. Umas muito conhecidas outras nem por isso, nestas linhas, vamos levá-lo a visitar várias, desde a mais simples, onde alguém decidiu investir o seu dinheiro e o seu tempo para executar o seu hobby preferido, à mais complexa, que executa os mais difíceis serviços, com equipamento do melhor e materiais dos mais caros, restaurando o mais difícil modelo, por pior que seja o seu estado, passando pelas garagens que, de alguma forma, se dedicam a preparar veículos com uma certa idade, sejam antigos, históricos ou clássicos. Por trás de cada um, há um nome, uma razão…

Vamos a isso.

Não tem nada que enganar. Sobe-se a Calçada da Ajuda e vira-se à esquerda, para uma travessa igual a tantas outras em Lisboa. Só que esta vê passar uns Ferrari, uns Lotus… A fachada da garagem também não tem nada que enganar, com o nome escrito em letras enormes… mas, se ainda houvesse dúvidas, bastaria dar uma olhadela lá para dentro – de Lotus Elan a Alfa Romeo, há de tudo um pouco, com o aspecto bastante saudável para a idade. João Costa vem receber-nos à porta, para dois dedos de conversa sobre a Autoreconstrutora, o ponto mais alto de um ” vício” que já vem de longe .


“Estive muitos anos em Inglaterra, estou ligado a isto há 20 anos – tive uma oficina parecida com esta que embora assistisse automóveis modernos, também assistia modelos antigos havia quem participasse num campeonato de rampas para clássicos… entretanto, em 1989, regressei a Portugal, surgiu a oportunidade e comprei isto, dediquei-me só a este género de actividade. Julgo que devemos ser a única oficina que trata exclusivamente de automóveis antigos, pelo menos aqui em Lisboa”. 

Basta passear os olhos para ver que a Autoreconstrutora não é apenas mais uma oficina que se dedica a veículos de época. O asseio e a forma de trabalhar, muito “à inglesa”, misturam-se com um certo tipo de automóveis onde o idoso Rolls-Royce que ainda tem as placas “PR.” Da Presidência se torna bem mais altivo do que os coupés – e há vários, desde o Ferrari ao Lotus Elan 2+2. É que a vocação desta garagem é especial.

“Estamos vocacionados para modelos desportivos dos anos 60 e 70, essa é a nossa especialidade”- sem problemas para obter peças importadas e sem falar nada, além da mecânica -“efectuamos todo o tipo de trabalhos – bate-chapa, pintura, electricidade, estofaria, etc…”. 

Não tem um favorito, um automóvel especial entre os que recuperou? 

“Já recuperámos “N” veículos… e cada um tem as suas particularidades. Tudo o que há de melhor em Portugal já passou por cá, para recuperar, reparar ou afinar… Mercedes-Benz 300 SL, Ferrari, Lamborghini, Porsche, já passou de tudo por cá. E, como disse, cada um tem as suas particularidades”. 

Apesar da tendência para os desportivos, o Rolls-Royce está ali como que a olhar para nós… 

Bem, por vezes acontece uma ou outra situação especial… é o caso deste Rolls-Royce. Foi uma situação pedida por um cliente nosso, que estava com problemas em recuperar aquele exemplar, o representante já não tinha hipótese de o fazer e vieram ter connosco. Mas, já vai um pouco fora do nosso âmbito normal…

Portanto, se aparecer alguém com um Morris Minor, por exemplo, para recuperar, o que acontece?

Neste momento não podemos aceitar trabalhos. Temos um leque de clientes, normalmente são pessoas com vários automóveis entram uns, saem outros…há trabalhos bastante demorados, precisam sempre de manutenção e como não temos intenção de expandir mais do que isto, vamos mantendo assim.

São sete pessoas a trabalhar nas várias secções essenciais para o bom andamento dos trabalhos com uma ajudinha de João Costa, que sabe muito bem o que quer e o que faz.

Para a nossa capacidade de trabalho, tudo isto se desenvolveu e houve o componente do pessoal, que teve de levar um treino bastante intensivo – não porque seja difícil trabalhar nestes automóveis – mas porque é preciso ter “aquela” sensibilidade, que demora um bocado a atingir, para um bom nível de qualidade. E nós, portugueses, temos óptimos profissionais, o que falta por vezes é o brio necessário para se trabalhar nestas coisas. Custou um bocadinho, mas neste momento temos óptimos profissionais que têm tido bastante treino, tenho-os levado ao estrangeiro, tenho acompanhado bastante esse aspecto e o nosso trabalho, hoje em dia… – temos vários clientes estrangeiros, com modelos muito bons, que referem que o nosso trabalho é tão bom ou melhor do que o que se faz lá fora!

Curiosidade final: quantos veículos terá já recuperado a Autoreconstrutora Lda.?

Diria… mais de 20! Recuperações completas, porque logicamente, há muitos exemplares que entram aqui para pequenos ou médios arranjos. Sim, mais de 20! É obra! 

Nos encontros que a Associação de Clássicos efectua, João Costa lá está a fazer o gosto ao dedo, ao volante do seu Alfa Romeo Giulia, o mesmo com que participou na Taça dos Alpes, em 1995. Mas a “alta competição” nacional não está nos horizontes de João Costa, que se dedica a outro tipo de preparações.

“Alguns dos nossos clientes gostam de fazer normalmente ralis internacionais e preparamos os veículos para isso. De resto, fazemos aquelas brincadeiras no Autódromo, nas reuniões da Associação dos Clássicos Desportivos.”, comenta João Costa.

Soberbo, do alto do elevador, o Lotus Elan de Pedro Magalhães faz recordar que ficou em segundo (atrás de um Porsche ) na única prova de Clássicos que disputou, em 1995 no Autódromo do Estoril.

“Mestre” Raimundo, desde sempre ligado aos automóveis de competição, continua voltado para o Lotus Elan 26R, mas não só. Nas próximas edições damos a conhecer outros projectos. 

Nem só de oficinas abertas ao público vivem os clássicos. Por exemplo, há que ir ao Porto conhecer os irmãos Melo, mestres da bricolagem e auto suficientes, seja para fazer um “rollbar” uma caixa de velocidades ou o Fiat 600 que alinha nos ralis clássicos. 

Neste mesmo género, há mais, muito mais gente, chama-se Pio, trabalha num banco e é grande fã dos “Carochas”- a tal ponto de equipar completamente a garagem lá de casa.

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