Foto Ávila, 20 anos a fotografar automóveis

LifeStyle 08 Mar 1996

Foto Ávila, 20 anos a fotografar automóveis

Entre 1955 e 1975, uma casa comercial despontava na coberta e reportagem fotográfica de tudo o que acontecia com o automóvel em Portugal: A Foto Ávila.

Fundada em 1949, permanece desde esse ano na Avenida Duque d` Ávila Nº 2 C e foi com o seu fundador, José Amado dos Santos, que mantivemos uma deliciosa entrevista onde, pelas fotos, nos fomos recordando de outro tempos em que, numa imagem, nos surgiam muitas histórias.

A Foto Ávila existe à cerca de 46 anos e o Sr. Santos foi desde sempre o seu fundador, mantendo a casa aberta neste mesmo local da Av. Duque d’ Ávila? 



Sim. A casa é, como o prédio, desse tempo. Vim para aqui no final da década de 40 . 

Veio abrir a Foto Ávila com que idade? 

Tinha 28 anos. Hoje conto 75 e nem mesmo eu esperava que a minha vida viesse até tão longe. 

Como iniciou o gosto por fotografar automóveis e pela competição? 

Bem. Eu gostava, sempre gostei de automóveis, gostava de acelerar se me entende e então, ao ir para as corridas era uma forma de fazer, à minha maneira, a corrida também. Era o primeiro a chegar lá, muito antes dos pilotos e dava-me gosto, bem cedo, contactar com o ambiente. 

José Amado Santos e a sua Linhof Tecnika.


Para ir ter com esses cenários, para ir ver e fotografar automóveis, com que veículo costumava fazer os percursos? 

Sempre com os meus automóveis. Primeiro, em 1955, era como Volkswagen “Carocha” e depois vieram outros, desde os Fiat 1100 até a um mais moderno Ford Capri

E o ambiente que rodeavam as corridas e os ralis, lembra-se disso? 

Então não lembro! Era uma festa. Entre mecânicos e pilotos, jornalistas e pessoal nas boxes, comissários e directores de prova todos se respeitavam uns aos outros, era uma família, cheia de boa disposição, uns verdadeiros pândegos e o público era mais interessado, mais ordeiro e estava ali porque gostava de automóveis e de os ver correr, sem confusões. Hoje, tudo é diferente, os tempos estão confusos e, por isso, desde 1975, que deixei de ter interesse em me deslocar às corridas. 

O que lhe interessava sobre fotografar? 

Interessavam-me as fases de competição, os movimentos nas boxes e, claro, quando os automóveis saiam de pista ou da estrada, momentos em que a emoção era maior. 

Passou, portanto, pelos mais famosos locais onde o automóvel foi rei nesses 20 anos e criou laços e contactos firmes com as gentes dos automóveis de então? Quer recordar alguns nomes? 

Olhe, recordo-me de Monsanto, de Montes Claros, do Porto e de Boavista ou de Vila Real e Vila do Conde, da Granja do Marquês ou de Cascais, enfim, dos bons tempos e de muitos, muitíssimos, ralies e rampas que, fundamentalmente, eram a base principal dos meus trabalhos fotográficos. Lembro também alguns nomes a que a memória, hoje um pouco abalada, me deixa chegar, como sejam os de Basílio dos Santos, Lopes Gião, Baptista dos Santos, Heitor de Morais, Vasco Corrêa Mendes, Carlos Faustino, António Herédia, Fernando Mascarenhas, Jorge Moura Pinheiro, Filipe Nogueira, César Torres, Romãozinho, Lampreia, Martorell, António Peixinho ou Daniel Magalhães, entre tantos outros…

Ernesto Neves e António Peixinho e um Ford Escort


Sobre Daniel Magalhães, parece que tem uma história gira, daquelas que a gente dos automóveis tanto gosta de ouvir e de contar entre amigos.

A rir-se diz. É verdade! Um dia, quando fui entregar matéria para o Diário de Notícias alguém me entrevistava e pediu para identificar Daniel Magalhães que era industrial e que fabricava um produto que ainda existe e que é um elixir dentário, marca Oratol, desculpem-me a publicidade. Como me não recordava o nome, no meio da confusão disse, “Olha pá, é o, como é que ele se chama? Olha é o Oratol”. Não é que na notícia publicada no Diário das Notícias com as classificações, apareceu, no lugar de Daniel Magalhães o tal incómodo Oratol! E eu que depois fiquei com a fama, quando fui aqui visitado pelo próprio Magalhães, sem lhe poder explicar a gaffe e ele, claro, furioso.

São piadas inesquecíveis de como era o meio automóvel na época, a imprensa, as reportagens e as memórias fotográficas. Também se recorda das peripécias com as saídas de pista ou de estrada? 

Lembro, lembro. Um dia tirei uma série de fotos seguidas a um despiste que ficou famoso durante uma prova complementar na Praça do Império perto de Belém onde muitos acontecimentos de automobilismo sucediam, fossem partida ou chegada de ralis, como por exemplo a Volta a Portugal. Um automóvel, por sinal um Volkswagen Carocha, conduzido por um senhor que era presidente de Câmara e de que me não recordo o nome, despista-se e dá seis cambalhotas vertiginosamente parecendo nunca mais querer parar. O piloto saiu ileso mas, do veículo, pode-se dizer que deve ter ido para a sucata. Outro episódio foi numa ribanceira por onde se despistou um concorrente que eu fotografei lá do alto com o seu exemplar de pernas para o ar. Eu, lá do alto, ria da posição em que ficara o automóvel, ele, ao lado do automóvel e sem apresentar grandes nódoas negras, ria para mim. Recordo ainda um extra competição quando, tirei uma foto a um polícia que estava de serviço, de chapéu de chuva aberto, o que era proibido na época. Foi durante um rally, chovia a cântaros e embora o Chefe da Polícia me tivesse pedido para identificar o seu homem, nunca o denunciei, podia custar-lhe a carreira.

Quem lhe encomendava mais serviço? 

Era sobre tudo a imprensa, olhe o Diário de Notícias muitas vezes e, claro, os jornais e revistas de automóveis. Uma delas, o “Mundo Motorizado” salvo erro, que ficava ali para a Rua do Alecrim – ainda existe? – que era do Vieira, essa então era um dos meus melhores clientes, sempre pagando a tempo e horas.

A “Mundo Motorizado” desse tempo foi toda alterada. Na Rua do Alecrim já nada existe, o Sr. Vieira faleceu o ano passado, enfim… são os tempos. Mas, falou dos pagamentos…  

Isso foi um dos grandes problemas da Foto Ávila e meus. Havia quem encomendasse bastante trabalho e, depois, o pagamento é que era bonito. Muita gente me ficou a dever largos contos de réis, até hoje. Creio mesmo que tudo somado dá umas largas centenas de contos, quase a chegar aos milhares. Era, nesse tempo, muito dinheiro que hoje bem me faria muito jeito, porque o negócio não vai bem. Não esqueça que cada foto ampliada rondava os 20 escudos e que a maioria ia à cobrança. Foram imensas as devolvidas por não pagas aos CTT e, já se vê, trabalho de ampliação de revelação e gastos de envio deitados à rua. 

Os pilotos ou os clubes, também lhe pediam trabalhos. Lembro-me de algumas fotos, por exemplo do Clube 100 à Hora, onde vinham o emblema do clube, o símbolo da Foto Ávila e o nome da prova. 

Sim. Mas esses eram em menor escala. Os particulares foram até aqueles que me encomendaram mais trabalho sem mo retribuir. Os clubes foram sempre correctos, pilotos, na maioria também. Dava muito trabalho era imprimir os emblemas dos clubes, o símbolo da casa, tinha de ir várias vezes à máquina.

Cascais, 1964 pilotos, movimento nos box, espectadores e, claro, a objectiva do ” Sr. Santos – Foto Ávila sempre atenta.


Agora, tem boas memórias desses tempos, mesmo assim, passados tantos anos? 

A memória nunca se apaga de um fotógrafo. Foram muitos anos, tempos óptimos, a correr atrás dos automóveis e muitas imagens. Um dia vou pôr tudo isto e em ordem porque ainda tenho os negativos de milhares de imagens que todos vocês adoram. 

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