Restaurar ou manter a originalidade? Eis a questão

Clássicos 01 Nov 2018

Restaurar ou manter a originalidade? Eis a questão

Por Carlos Pinto

O casamento estava marcado, e para manter a tradição, o Ford A de 1929 tinha de fazer o seu segundo casamento. Em 1973 tinha cumprido a sua função e era do interesse da família que em 2012 continuasse o seu legado.

 

O automóvel tinha sido restaurado nos anos 70 pelo meu avô com os materiais e técnicas da época. Havia, portanto, um historial no tratamento a que o Ford tinha sido sujeito ao longo dos anos. O automóvel não estava obviamente a brilhar como se vê nos dias de hoje, tinha uma marca aqui e ali, mas estava bom, com aquela patine característica.

 

O mundo dos clássicos, nomeadamente automóveis e motas mudou consideravelmente. O modo de interpretar o objecto pode ser visto de diferentes maneiras e ter várias interpretações. Se quisermos vender um automóvel clássico a brilhar e anunciarmos como restaurado, à partida teremos um número considerável de pessoas interessadas no mesmo, então se for malta nova, aí as redes sociais falam por si, e um automóvel que brilhe tem sem dúvida outra projecção.

 

O que acontece então se tivermos o mesmo automóvel, que nunca foi restaurado, com a pintura de origem e em boas condições gerais? Será um clássico de valor inferior?

 

Como disse anteriormente, depende sempre do individuo que está interessado no automóvel. Deixo apenas algumas questões que devem ser valorizadas. Será que uma pintura da época, por exemplo realizada nos anos 70, não deve ser valorizada, ou mais, que uma pintura realizada nos dias de hoje? Um automóvel que tenha sido mantido mecanicamente, deve obrigatoriamente ser sujeito a um restauro de motor? No meu ponto de vista não.

 

Os amigos costumam dar bons conselhos (ou não). Lembro-me do engenheiro que veio certificar o Ford A a fazer a seguinte pergunta, “o automóvel estava mau de pintura?” Para o meu pai, que não queria de todo avançar com o restauro, foi como um engolir a seco. O amigo tinha-lhe dito tantas vezes para pintar o automóvel, que era o casamento do filho e que o automóvel devia ir a brilhar, como novo. Tanto insistiu que o automóvel foi para restauro. Hoje arrepende-se vivamente dessa decisão.

 

Actualmente há empresas nos Estados Unidos que se dedicam a dar alguns toques em automóveis que foram restaurados de forma a parecerem que têm alguns anos em cima. Um automóvel de 1960 não pode ter o aspecto de um automóvel de 2018. No meu ponto de vista só há duas explicações para que tal aconteça: ou o automóvel estava mau no aspecto geral ou o dono não se sente bem em ter um automóvel original que não brilha no meio dos outros. Quanto ao nosso “A”, foi realizada uma intervenção ao nível de carroçaria e pintura. O automóvel foi todo desmontado, o código da cor aplicado correctamente e montado novamente. Todas as peças são originais do automóvel de 1929 e os pneus ainda são os Pirelli feitos em Espanha, única e exclusivamente para este automóvel a pedido do meu avô na fábrica. Com um tipo de piso especial para ter mais tracção. É caso para dizer, outros tempos….

 


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João Pedro Peixoto
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Sinceramente sempre preferi ver um carro antigo “usado” do que a brilhar, como “saído do stand”. Nestes casos, e como bem referido, só se for mesmo necessário apra salvar o carro, porque nada se compara à tal Patine de um Clássico que orgulhosamente demonstra a sua idade, qual Bo Derek ao lado de qualquer modelo dos 80’s com plásticas para parecer nova.