O Giulietta esquecido...

Clássicos 08 Set 2018

O Giulietta esquecido…

Por Marco Pestana

Na segunda metade da década de 50, surgiu o novo modelo Alfa Romeo Giulietta 750. O seu motor em liga leve com 1300cc era o famoso quatro cilindros bialbero, uma variante do quatro cilindros concebido por Giuseppe Busso, no fim da década dos anos 40, para o Alfa Romeo 1900.
 
O Giulietta 750 — nas variantes Sprint, Sprint Veloce, Berlina e Spider, incluindo alguns modelos especiais — foi um sucesso a vários níveis para a marca Milanesa.
 
O 1900 foi o primeiro Alfa Romeo novo no pós-guerra, mas a Giulietta — apresentada no Salão automóvel de Turim, em 1954 — tornou-se o modelo com maior número de exemplares produzidos desde a fundação da marca, em 1910.
 
Marcou de forma indelével a viragem de uma produção manufacturada para uma produção industrial e em série, na Fábrica de Portello. Ali começaram a ser produzidas, depois de, inicialmente terem sido manufaturados na Bertone os primeiros exemplares.
 
O sucesso da Giulietta justificou uma nova instalação fabril da Bertone, para poder dar resposta cabal à procura do modelo.
 
Inicialmente projectado em cooperação pela Ghia de Mario Felice Boano e pela Bertone, o resultado final do Sprint (carroçaria coupé), acabou por ser creditado ao designer principal desta última: Franco Scaglione.
 
O design intemporal e as suas avançadas características técnicas tornaram a Giulietta um modelo desejado pelos privados para a competição.
 
Alguns exemplares Sprint Veloce foram desenvolvidos por especialistas como a Zagato – o próprio Elio Zagato correu na segunda metade dos anos 50 na Scuderia Sant’Ambroeus com Giulietta – ou a Conrero para a competição. A Giulietta Spider – apresentada em 1955 – pela mão da Pinin Farina, também participou nas competições na época, com menor fulgor que aquele da sua irmã Sprint.
 
Excepção a estes modelos de série, as versões monoposto criada em 1956, pela própia Alfa Romeo para que Consalvo Sanesi tomasse parte na edição das famosas Mille Miglia desse mesmo ano. Mais tarde serviriam de inspiração às versões Sebring, direccionadas ao mercado dos Estados Unidos.
 
Em 1955, a Alfa Romeo planeou criar um carro de corrida com base nos Giulietta de série. Este projeto era coerente com o sucesso na Fórmula 1 no pós-Guerra e nos automóveis de Sport, com os Disco Volante.
 
Face aos Giulietta, este novo automóvel distinguia-se desde logo pelo motor. O bialbero de 4 cilindros passou dos 1290cc para os 1488cc, com válvulas a 90º e a introdução da doppia accencione – mais tarde o famoso Twin Spark. Como resultado, debitava cerca de 145cv às 8000rpm, permitindo uma velocidade máxima de 225 km/h. Tinha uma potência específica de quase 100 cv/litro, o que era um valor altíssimo em 1955.
 
A cilindrada foi definida com base na realidade dos principais competidores na altura e recebeu também uma caixa close-ratio de cinco velocidades. Assim nasceu o protótipo apelidado de 750 Competizione, do qual foram construídos pelo menos dois exemplares.
 
Baseado no Spider, tinha como objectivo competir na categoria Sport, na classe 1500cc. A carroçaria era tipo barchetta, em alumínio – pesando cerca de 770kg — desenhada por Felice Boano para a Ghia. O chassis, em aço, foi construído por Carlo Abarth, o famoso preparador austríaco Karl Abarth, já convertido em italiano.
 
A Abarth, na época tinha uma relação próxima com a Alfa Romeo em alguns projectos especiais, muito por influência de Rudolf Hruska, também austríaco.
 
Hruska colaborara com Abarth no projecto Cisitalia 360 de Grande Prémio. Anteriormente, havia participado, nos anos 30, com Ferdinand Porsche na concepção do projecto KDF, mais tarde apelidado de VW type 1. E, durante a II Guerra Mundial, ajudara a desenvolver os tanques de guerra Tiger alemães. Entrou na Alfa Romeo para coordenar a produção do modelo Giulietta .
 
O chassis era em aço reforçado com uma estrutura tubular para maior leveza final. Apresentou contudo fragilidades por ser flexível em excesso. Para corrigir a falha, foi efectuado o reforço da estrutura, à custa do aumento do peso total.
 
Segundo declarações do Eng. Giuseppe Busso – máximo responsável pela mecânica dos Alfa Romeo na época – o protótipo barchetta foi apresentando durante os testes vários problemas a resolver, e a própria marca foi de uma forma gradual perdendo interesse no mesmo.
 
Havia o objectivo inicial de produzir 50 exemplares mas, com os vários problemas na sua gestação, o 750 Competizione foi cancelado pela direcção da empresa.
 
Era de importância vital concentrar todas as energias no projecto industrial e na produção das versões de estrada dos Giulietta e no furgão Romeo.
 
O seu sacrifício na gólgota do pragmatismo industrial não foi em vão. A famosa Giulietta foi um sucesso industrial para a Alfa Romeo, tornando-se o primeiro modelo de grande produção para a marca desde a sua fundação em 1910. Foi o automóvel que permitiu à marca lombarda democratizar a sua produção, permitindo uma nova franja de clientes que valorizavam a velocidade e o dinamismo na condução da Giulietta, que ficou conhecida pela fidanzata d’Italia, a “namoradinha de Itália“!
 
Um dos protótipos do 750 Competizione está exposto no Museo Storico Alfa Romeo em Arese, arredores da cidade de Milão.
 


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